sábado, agosto 31, 2013

Inveja de escritor



No nosso mundinho literário, há pessoas que esquecem aquela expressão básica: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Por exemplo, uma coisa é a literatura chamada por muitos de entretenimento, que abarca diversos rótulos com o de fantasia, chick lit e de adolescentes. Esta visa tão somente contar uma história, busca quantidade de leitores e utiliza-se de um marketing que explora a figura do escritor, pois a partir do sucesso dele tudo o que escreve passa a vender muito. Outra coisa é a literatura artística, que alguns chamam de literatura com L maiúsculo. Ela procura, além de contar uma história, trabalhar a palavra em busca de determinados efeitos estéticos, por isso a poesia está desse lado do ringue. Seu foco é a qualidade do texto e do leitor, o que não dispensa a quantidade também. Pode se utilizar do marketing, mas é a inventividade e o estilo que vão conquistar o público. a figura do escritor pode ser importante, mas ela não é construída por nenhum marqueteiro. A sua personalidade dele chama a atenção por si própria, porém sempre é a sua escrita que faz o papel principal.
Uma entrevista com Raphael Draccon no site do jornal “O Globo” essa semana teve uma forte repercussão nesse nosso mundinho literário, tudo porque o autor de livros de fantasia citou Rubem Fonseca como um tipo de escritor que, por ser recluso, hoje não seria publicado. Segundo Draccon, o autor deve interagir com seu público em redes sociais e eventos, ter “uma vida tão impactante” quanto sua obra e não criticar seus colegas, pois ele, que também é editor, faz “uma varredura da vida online da pessoa [que deseja ser editada]. Se houver um post sequer dela falando mal de outro autor ou comprando briga na internet, ela é cortada na hora”.
Primeiro, é bom que se deixe claro que dentro do tipo de literatura feita por Rubem Fonseca o valor maior é a escrita, não a figura, em que pese o autor de O cobrador já estar num patamar em que tudo o que ele escreve é lido por um público cativo que o vê como ídolo. Segundo, há muitos artistas reclusos publicando e sendo apreciados. Terceiro, o tipo de literatura do Raphael Draccon necessita de um número grande de leitores – e não há nenhum demérito nisso, dentro do que se propõe. Logicamente o escritor, nesse caso, tem que se sobrepor à obra, convencer através de um marketing a relevância do seu livro. A qualidade fica em segundo plano. Interessa a história pela história, não a forma como é contada. Tem seu valor, sem dúvida, nesse nicho de mercado. Merece, por isso, o público que tem. A literatura dita de mais qualidade, no entanto, não precisa seguir essa premissa. Seu objetivo é outro e, se ela se torna best-seller, não será por isso que deixará de ter qualidade.
Um escritor que têm muitos leitores não faz má literatura. Stephen King, por exemplo, apesar irregularidade na sua produção, alcança muitas vezes uma literatura de alta qualidade, opinião com a qual muitos não vão concordar. Nada tenho contra muitos leitores, mas sim quanto à ideia de que a quantidade é sinônimo de qualidade.
Já li comentários afirmando que as críticas à entrevista e ao trabalho de Raphael Draccon (que irá participar com sua esposa, também escritora, de um reality show sobre a vida do casal) são de gente invejosa. Considero isso uma falácia. No meu caso, não tenho inveja do escritor que vende bem, mas sim do escritor que escreve bem.
 

quarta-feira, agosto 28, 2013

Ano Cortázar (III)




Casa 3

A primeira parte de Rayuela, “Do lado de lá”, se passa em Paris.  Acompanhamos as andanças do protagonista, Horácio Oliveira, pelas ruas parisienses, seu relacionamento amoroso com Maga e os encontros do “Clube da serpente”.  Oliveira é um intelectual e ela é uma mulher distante de qualquer conhecimento cultural e que, participando com o namorado dos encontros do clube, sente-se perdida em meio aos debates sobre literatura, pintura e música, principalmente o jazz. Há capítulos primorosos, como o 7, uma declaração de amor sensual como poucas na literatura:
“Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo de minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer e tudo recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.” (Tradução: Fernando de Castro Ferro)

terça-feira, agosto 27, 2013

"Os óculos de Paula" na Semana Acadêmica de Letras da Unisc


Participarei de um painel sobre monografias e dissertações na XIV Semana Acadêmica de Letras da Unisc - Universidade de Santa Cruz do Sul, no dia 24 de setembro. Vou falar sobre a minha dissertação de mestrado, que resultou no romance ainda inédito "Os óculos de Paula". http://www.unisc.br/site/tecendo-conexoes/pages/programacao.html

segunda-feira, agosto 26, 2013

Ano Cortázar (II)





Casa 1
Antes de começar a história, o leitor se depara nas primeiras páginas de Rayuela com uma tabela de direção. Cortázar sugere duas formas de leitura: pode-se começar pelo capítulo 73 e depois voltar para 1, seguir ao 2, depois pular para  o 116, retornar ao 3 e assim por diante; ou pode-se ler de forma linear, do capítulo 1 até o fim. Há ainda uma terceira forma: o leitor cria seu próprio roteiro de leitura. Ou ainda: não ter roteiro nenhum. “À sua maneira este livro é muitos livros.”




Casa 2
Em outro livro, La vuelta al día en ochenta mundos, Cortázar nos mostra desenhos de uma espécie de máquina para facilitar a leitura de Rayuela. Trata-se da “rayuel-o-matic”. Colocada ao lado da cama do leitor, é dividida por gavetas das quais, apertando-se um botão, saem os capítulos do romance na ordem em que se desejar. Logicamente, ela não existe, mas antecipa, de certa forma, a leitura através de hiperlinks no computador.