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Inveja de escritor



No nosso mundinho literário, há pessoas que esquecem aquela expressão básica: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Por exemplo, uma coisa é a literatura chamada por muitos de entretenimento, que abarca diversos rótulos com o de fantasia, chick lit e de adolescentes. Esta visa tão somente contar uma história, busca quantidade de leitores e utiliza-se de um marketing que explora a figura do escritor, pois a partir do sucesso dele tudo o que escreve passa a vender muito. Outra coisa é a literatura artística, que alguns chamam de literatura com L maiúsculo. Ela procura, além de contar uma história, trabalhar a palavra em busca de determinados efeitos estéticos, por isso a poesia está desse lado do ringue. Seu foco é a qualidade do texto e do leitor, o que não dispensa a quantidade também. Pode se utilizar do marketing, mas é a inventividade e o estilo que vão conquistar o público. a figura do escritor pode ser importante, mas ela não é construída por nenhum marqueteiro. A sua personalidade dele chama a atenção por si própria, porém sempre é a sua escrita que faz o papel principal.
Uma entrevista com Raphael Draccon no site do jornal “O Globo” essa semana teve uma forte repercussão nesse nosso mundinho literário, tudo porque o autor de livros de fantasia citou Rubem Fonseca como um tipo de escritor que, por ser recluso, hoje não seria publicado. Segundo Draccon, o autor deve interagir com seu público em redes sociais e eventos, ter “uma vida tão impactante” quanto sua obra e não criticar seus colegas, pois ele, que também é editor, faz “uma varredura da vida online da pessoa [que deseja ser editada]. Se houver um post sequer dela falando mal de outro autor ou comprando briga na internet, ela é cortada na hora”.
Primeiro, é bom que se deixe claro que dentro do tipo de literatura feita por Rubem Fonseca o valor maior é a escrita, não a figura, em que pese o autor de O cobrador já estar num patamar em que tudo o que ele escreve é lido por um público cativo que o vê como ídolo. Segundo, há muitos artistas reclusos publicando e sendo apreciados. Terceiro, o tipo de literatura do Raphael Draccon necessita de um número grande de leitores – e não há nenhum demérito nisso, dentro do que se propõe. Logicamente o escritor, nesse caso, tem que se sobrepor à obra, convencer através de um marketing a relevância do seu livro. A qualidade fica em segundo plano. Interessa a história pela história, não a forma como é contada. Tem seu valor, sem dúvida, nesse nicho de mercado. Merece, por isso, o público que tem. A literatura dita de mais qualidade, no entanto, não precisa seguir essa premissa. Seu objetivo é outro e, se ela se torna best-seller, não será por isso que deixará de ter qualidade.
Um escritor que têm muitos leitores não faz má literatura. Stephen King, por exemplo, apesar irregularidade na sua produção, alcança muitas vezes uma literatura de alta qualidade, opinião com a qual muitos não vão concordar. Nada tenho contra muitos leitores, mas sim quanto à ideia de que a quantidade é sinônimo de qualidade.
Já li comentários afirmando que as críticas à entrevista e ao trabalho de Raphael Draccon (que irá participar com sua esposa, também escritora, de um reality show sobre a vida do casal) são de gente invejosa. Considero isso uma falácia. No meu caso, não tenho inveja do escritor que vende bem, mas sim do escritor que escreve bem.
 

Comentários

charlles campos disse…
Vai que futuramente eu caia na tentação de ter um livro meu publicado, lá vai: Raphael Dracco é uma merda. Pronto, ao menos ele não poderá me publicar jamais.
charlles campos disse…
É Raphael Draccon, né? Pois Raphael Draccon é uma merda.

(De onde você tira esses nomes, Cassionei. Falando a verdade, nunca tinha ouvido falar do tal.)
Cassionei Petry disse…
Já conheço há tempo esse nome. A entrevista repercutiu nas redes sociais por ter colocado o Rubão no meio. O cara foi um dos destaques na jornada de Passo Fundo também.

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