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Traçando Livros de hoje sobre as tiras de André Dahmer

Na minha página Traçando Livros no jornal Gazeta do Sul, escrevo sobre "Vida e obra de Terêncio Horto", de André Dahmer. Há também uma nota escrita pelo jornalista e editor do caderno Mix, Mauro Ulrich, sobre o lançamento do meu livro no sábado aqui na minha cidade.



Um escritor, uma máquina de escrever e suas frustrações
Cassionei Niches Petry

A estrutura é simples e os desenhos mais ainda. O que se diz/escreve, porém, é de uma complexidade imensa. São geralmente três quadrinhos iguais: um escritor careca, mas com o cabelo na parte de trás tipo mullet e enorme nariz, bate as teclas de uma máquina de escrever e, vez ou outra, para de teclar e olha para o alto, pensativo, para depois voltar a bater. Suas frases são lapidares, aforismos que dispensariam qualquer desenho, mas estamos diante de histórias em quadrinhos e a figura singular de Terêncio Horto reforça o tom humorístico que requerem as boas tiras no seu suporte original, o jornal.
Vida e obra de Terêncio Horto, publicado pelo selo de quadrinhos da Companhia das Letras, é uma criação de André Dahmer, desenhista, poeta e artista plástico, nascido em 1974, no Rio de Janeiro. É também o autor da tira “Malvados” e publica diariamente nos jornais Folha de São Paulo e O Globo. O livro tem um formato horizontal (20,5 x 13,5 cm), próprio para reprodução de apenas uma tira por página.
Terêncio Horto é um escritor que destila suas frustrações e reflete sobre a arte, o cotidiano, seus livros, sua vida e a dos outros. É um artista desiludido e pessimista com ele mesmo (“Tentei matar o cara que acabou com minha vida. Foi minha primeira tentativa de suicídio.”) e com o mundo (“Não se enganem. Ainda amo a humanidade exatamente como amava na época da minha juventude. Pouco.”). Não poupa nem mesmo sua família, ao relatar sua infância e a sorte de seu pai ter morrido atropelado por um trem e ter se livrado de criar oito filhos, tendo sobrado o suplício para sua mãe: “Estou escrevendo um livro sobre as coisas terríveis que fizeram comigo. Comecei pela infância, claro. É um capítulo de doze mil páginas.”
As redes sociais também não escapam dos aforismos de Terêncio Horto. Critica os amigos do Facebook que postam coisas mimosas sobre gatinhos de rua, mas pedem prisão para crianças de rua. Da mesma forma, não deixa passar batido a situação daqueles que trocam suas vidas por uma conexão na internet e mentem sobre sua condição no status nas redes: (“Suzana é bem resolvida? Só enquanto está no Facebook. Parabéns, Suzana. Você é bem resolvida durante a maior parta de seu dia.”)
Ser escritor num país de não leitores é difícil. Em uma das tiras, Terêncio conclama seus leitores a aparecerem para o lançamento do seu livro. Termina sozinho sentado numa sala imensa. Em outra, menciona a maior qualidade de um bom artista: “Fazer arte não é para qualquer um, queridinhos. Um artista nasce com particularidades que outros mortais não têm. Pais ricos, por exemplo.”
Livro de leitura densa (engana-se quem pensa que quadrinhos é apenas entretenimento), Vida e obra de Terêncio Horto nos traz um retrato que parece de nós mesmos, uma selfie, para utilizarmos uma expressão atual, apesar de desnecessária. O escritor narigudo critica o mundo ao seu redor e não poupa nem a si mesmo. Pensando bem, não é nosso retrato, não, pois criticamos os outros, porém não olhamos para o nosso próprio nariz.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e está lançando Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com



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