sábado, novembro 29, 2014

O homem da garagem de marfim (ou Me, myself & I)

Gostaria de ter disciplina para a leitura diária, porém sou um indisciplinado por natureza. Estabelecer um planejamento do que ler, partindo de determinados autores e seguir uma ordem cronológica é impossível. No meio do caminho vão aparecendo outros livros que furam a fila e as obras daquele autor ficam para trás. Há muita coisa para ler. Quando penso nisso fico com vergonha de ter publicado dois livros. Já não há escritores e publicações suficientes?
Mas aí paro, penso e concluo: eu tenho algo a dizer. Não li durante toda a minha vida (ou seja, ainda li muito pouco) para ser apenas leitor. Li para ser escritor também. E está aí uma coisa que nunca disse: eu sou bom no que faço. Chega de bancar uma de humilde, até porque, mesmo não querendo me enaltecer, já fui chamado de arrogante. Como escrevi num aforismo no meu blog, umas de minhas palavras despedaçadas: arrogo a mim o direito de ser arrogante.
A questão é simples. O cara escreve, escreve, depois de ter lido muito, mas muito mesmo. Aí tenta publicar pelo sistema tradicional: editora que banca a obra, divulga, distribui. Por motivos óbvios, ou nem tão óbvios, seu original fica esquecido em algum arquivo ou vai direto para a lixeira (física ou no computador) mais próxima. Então o escritor parte para a parceria, que é um eufemismo para a auto publicação. Faz uma tiragem pequena, vende algumas dezenas para conhecidos, quem sabe um ou outro exemplar sob encomenda e fica por isso mesmo. O livro não está em nenhuma livraria física, não chega às mãos de nenhum crítico nem da imprensa, a pequena editora não te divulga nem no próprio facebook dela (mas divulga notícias de escritores da mídia), quase ninguém sabe que você publicou um livro e sua dívida no cartão de crédito usado para bancar a obra aumenta.
E não estou aqui me lamentando por isso. Essa foi uma escolha, e escolher é perder, como disse o filho do Jô Soares, numa frase que reproduzi em outra crônica. Esse papo meio enrolado é só pra dizer que, inspirado talvez pelo Marcelo Mirisola (que também inspirou o título desta crônica), não vou mais ficar me fazendo de tolinho, ingênuo, achando “que não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada” (Álvaro de Campos/Fernando Pessoa), pois a única coisa boa que sei fazer é escrever e o faço bem. Não porque algum leitor me disse isso, mas porque eu sei, assim como sei quando escrevo porcarias, e mesmo essas porcarias ainda assim podem ser relevantes pra alguém, mesmo que esse alguém seja eu mesmo, na minha garagem de marfim onde estou agora, rodeado por livros, alguns não tão bons como os meus. 

quarta-feira, novembro 26, 2014

No Traçando Livros de hoje, Agustín Fernández Mallo




Na minha coluna de hoje no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix.
 
Releitura de um reescritor

Costumo usar pedaços de papel ou os coloridos post-its para marcar as páginas onde sublinho ou faço anotações nos livros que leio. Isso denota para mim se o livro é bom ou se pelo menos me arrancou uma porção de reflexões durante a leitura. Se estou relendo, a quantidade de papéis dobra, como aconteceu há pouco na releitura do “romance” Nocilla dream, do escritor espanhol Agustín Fernández Mallo.
Publicado por estas bandas pela Companhia das Letras, com tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo, inaugura uma trilogia batizada com o nome do creme de chocolate popular na Espanha, que corresponde à Nutella que temos por aqui. Dos outros dois volumes, a Companhia das Letras publicou também o segundo, Nocilla experience, e acredito que deva estar preparando o lançamento do terceiro, Nocilla Lab.
Coloquei a palavra romance entre aspas porque, a bem da verdade, a obra não é um narrativa longa que possa ser classificada como tal. Composta por fragmentos diversos e não constituindo um enredo, apenas alguns elementos se repetem durante a história, por exemplo, um álamo à beira de uma estrada americana coberto por pares de tênis e sapatos. Alguns personagens passam pelo local e dão sua contribuição jogando seus calçados sobre os galhos. É o que dá unidade ao texto. E é a passagem de um personagem a outro, de um lugar a outro, de uma situação a outra, em capítulos curtos, que compõe a história ou as histórias.
Há também citações de outros autores que contribuem de certa forma para o entendimento da narrativa, levando o romance a ser comparado, pelo menos devido ao estilo, a O jogo da amarelinha, do Julio Cortázar. Por exemplo, um estudo de Daniel Arijon sobre os planos sequência do filme Os pássaros, do Hitchcock, na cena em que as aves vão chegando aos poucos ao pátio da escola, no meu ponto de vista explica a estrutura do romance Nocilla dream. As cenas cortam ora para o plano geral, mostrando os pássaros pousando nos brinquedos do playground, ora para o plano mais próximo da personagem Mélanie Daniel. É o que faz Fernández Mallo na sua ficção ao ampliar e depois diminuir o foco da narrativa, partindo ora para a coletividade ora para os indivíduos. (Coincidentemente, enquanto escrevo, um pássaro muito bonito, acho que um pica-pau, pousou sobre o meu carro na frente de casa. Pelo menos foi somente um.)
Agustín Fernández Mallo nasceu em La Coruña, na Espanha, em 1967 e é também físico. Em 2011, depois de terminar o Projeto Nocilla, publicou El hacedor (de Borges), remake. Por ordem da viúva de Jorge Luis Borges, o romance teve que ser retirada das livrarias, pois ela não reconheceu na obra uma homenagem ao argentino, curiosamente um escritor que também reescrevia e reinventava obras literárias em cima de outras, assim como seu protagonista no conto “Pierre Menard, autor de Quixote”. Felizmente o romance, já considerado de culto, pode ser encontrado em alguns cantos da internet.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, novembro 24, 2014

Um romance sobre o suicídio



No primeiro romance da poeta Micheliny Verunschk, Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida, publicado pela Editora Patuá, o protagonista é o suicídio. Vocês, meus 2 ou 3 leitores, sabem que é um tema que me atrai.

Temos aqui a história de Teresa, uma menina cujo suicídio nos é narrado logo no início. Conhecida como Beata Teresa de V., consoante que denomina a cidade durante todo o enredo, ela é a padroeira dos suicidados. Apesar de cometer um pecado contra vida, era considerada como santa pelos fieis, por isso um Papa, Petrus II, está prestes a canonizá-la. Ambos viveram na mesma cidadezinha (por sinal, com altos índices de suicídios), ele sendo o orientador espiritual da jovem, quando era simplesmente o padre Simão. (Sim, habemus um papa brasileiro na história.)

Em alguns capítulos, outros suicídios são mencionados, num mosaico de histórias que preenchem o romance, inclusive com reprodução de bilhetes de suicidas guardados numa biblioteca imaginária cujo bibliotecário, se ela existisse, seria o próprio narrador do romance, um cego, assim como Borges: O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? (...) a regra diz que, caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos”.

Um texto poético sem ser um poema, num enredo que se passa no futuro (ou numa realidade alternativa), porém distante da ficção científica, com reflexões filosóficas, no entanto avesso à teoria. Trata do suicídio, mas também de religião, fé, fanatismo, tabus. Um belo romance.


Só pra constar, um poema da autora já apareceu aqui no blog devido ao tema suicídio: http://cassionei.blogspot.com.br/2012/01/poemas-sobre-o-suicidio-ii.html.

sexta-feira, novembro 21, 2014

Por que HQ não é literatura?



Li esses dias um artigo na internet que criticava aqueles que não consideram histórias em quadrinhos como literatura. Como não estou a fim de entrar em debates, até porque preciso de tempo para outras coisas, não comentei na postagem, prática que venho seguindo. O melhor é comentar por aqui mesmo, sabendo que não gerará nenhum debate, pois poucos estão seguindo minhas publicações.
Antes, é bom frisar que sou leitor de HQ, desde as mais populares, até as mais elaboradas artisticamente. Já reservei espaços na minha coluna sobre livros no jornal para escrever sobre obras como “Sandman”, do Neil Gaiman, ou “Vida e obra de Terêncio Horto”, de André Dahmer, por exemplo. Além disso, minha vida de leitor começou com a coleção de gibis de um dos meus tios.
Por isso, posso afirmar: não é preconceituoso ou retrógrado não considerar HQ como literatura. Ora, não é literatura porque não precisa ser literatura para ser considerada como arte. Aliás, há um termo mais correto que a denomina, proposto pelo desenhista e mestre do gênero Will Eisner: arte sequencial.
O processo de elaboração é diferente do processo literário. O escritor escreve um roteiro que será ilustrado, diagramado, colorido. O objetivo final é chegar a uma história, uma narração, em que a imagem se complemente com as palavras, às vezes sem elas. A literatura, por sua vez, é a arte da palavra. Se há ilustrações, elas são tão-somente o complemento (claro que há ilustrações que salvam um livro muito ruim, mas aí é outra história).
O escritor de HQ, portanto, escreve roteiro, que não faz parte de nenhum gênero literário, pois seu objetivo é guiar os passos de uma produção de audiovisual ou de imagem. A HQ tem suas linguagens e recursos próprios, fazendo parte de um sistema distinto do literário.
Ao dizer que HQ não é literatura, não se está desmerecendo-a, bem pelo contrário. Ela não precisa estar atrelada a nenhuma outra arte porque ela existe por si só, sendo inclusive chamada de Nona Arte. A música (1ª Arte), a dança (2ª), a pintura (3ª), a escultura (4ª) e o teatro (5ª) não são literatura (6ª), assim como não o são o cinema (7ª) e a fotografia (8ª). Por que a história em quadrinhos seria?

domingo, novembro 16, 2014

Palavras despedaçadas (IX)

Há pessoas que considerava tão legais que postam cada merda na internet que dá vontade de mandá-las para o lugar de onde vem essa merda. Em outras palavras, há pessoas que defecam pelo lugar errado.

sábado, novembro 15, 2014

sexta-feira, novembro 14, 2014

Aposentadoria do Lauro Quadros


Quando comecei a ouvir as rádios AM's de Porto Alegre, tinha sonho de ser entrevistado pelo Ruy Carlos Ostermann, no Gaúcha Entrevista, que acabou há alguns anos, e pelo Walter Galvani, no Guaíba Revista, que também acabou há algum tempo. Outro programa que adorava e que gostaria de participar era o "Polêmica", da Rádio Gaúcha, com o Lauro Quadros, que se aposentou hoje. Quando trabalhava de auxiliar de escritório, podia ouvi-lo todos os dias. Nos últimos tempos, por estar trabalhando em sala de aula, passei a ouvir somente nas férias ou feriados. Certo dia, opinando sobre um dos temas do programa através do facebook, a produtora me ligou para participar, por telefone, no “Pitaco do ouvinte”, e falei pela primeira vez com o Lauro no ar. Isso se repetiu mais uma vez. Mas em março deste ano, devido a um texto meu publicado na Zero Hora, fui convidado para participar nos estúdios, num programa inteiro! Foi uma emoção muito grande, confesso. No dia, na sala de espera, vejo chegando o pequeno grande Lauro que logo me reconheceu (meu artigo saiu com uma foto no jornal), elogiou muito meu texto e disse que havia ele mesmo feito questão de que eu participasse do programa. Consegui, então, realizar um desejo e ter o reconhecimento que é o mínimo que quem escreve almeja. Fica meu agradecimento ao Lauro Quadros por ter me proporcionado muitas manhãs de reflexão e cultura.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Por que temos que escolher?

Estou há uma semana com esta frase na cabeça: “Prefiro não escolher. Escolher é perder sempre.” Quem disso isso foi Rafael, filho do multiartista Jô Soares, que reproduziu a frase em seu programa de TV, numa homenagem ao menino de 50 anos que havia falecido em decorrência de um câncer no cérebro. Rafael era autista e, por isso, vivia no seu mundo particular, segundo o Jô, trabalhando em sua estação de rádio e tocando piano.

Penso nessa frase a todo o instante porque ela me desestabilizou completamente. Tinha como verdade absoluta a frase “a vida é feita de escolhas”. Tive/tenho que fazer muitas durante esses meus 35 anos de idade mais ou menos bem vividos. Agora entendi porque me tornei um perdedor em certos aspectos. Foram todas as vezes em que tive que escolher. Escolher fazer literatura, por exemplo, me tornou um perdedor. Escolhi ser professor também e perdi ou estou perdendo. Escolhi fazer Letras e perdi. Escolhi fazer mestrado em Letras e perdi. 

Não estou querendo dizer que não deveria ter seguido esses caminhos todos. Literatura, tanto ler como escrever, por paixão, prazer, inquietação intelectual, me completa. Sou professor da área de Letras por gostar também, além de estar relacionado com a primeira escolha. Acontece que tive de deixar outros caminhos que estava seguindo para me focar nesses. Deixei de lado o futebol, a música, o rap, o carnaval. Não segui o caminho de administração de empresas sendo que trabalhava como auxiliar na área. Não era por prazer que poderia ter enveredado por ali, mas financeiramente talvez fosse mais vantajoso. Ou seja, ao escolher, perdi.

Quando venci, não tive escolha nenhuma. Foram as circunstâncias, o destino, o coração e a emoção que me guiaram no amor, no casamento, na paternidade, na felicidade familiar. Sou feliz e não perdi nessa parte da minha vida porque não escolhi, não foi necessário.

O menino de 50 anos, segundo seu pai, não quis escolher apenas seis livros de uma pilha de doze que queria levar de uma livraria. Se fosse para escolher, não levaria nenhum. Assim aprendemos desde criança. Ou você escolhe o carrinho ou a bola. O sorvete ou o refrigerante. Estudar ou brincar. Obedecer ou ficar sem TV (ou celular e computador hoje em dia). Jaspion ou Jiraya. Xuxa ou Angélica. Sertanejo ou Rock. Inter ou Grêmio (não, não, isso não é escolha). PT ou PSDB (ou PMDB aqui no Rio Grande do Sul). Esquerda ou direita. Arte ou entretenimento. Acreditar ou não em Deus. Otimismo ou pessimismo.

Por que temos que escolher? Por que temos que perder sempre?

quarta-feira, novembro 05, 2014

Traçando Livros de hoje é sobre "Soy un escritor frustrado", José Ángel Mañas



Minha coluna sobre livros no caderno Mix do jornal Gazeta do Sul de hoje.
 
Cuidado com o escritor frustrado

O mote não é lá muito incomum. Um escritor se apossa de um manuscrito de outra pessoa, publica em seu nome e se transforma em um sucesso de crítica e público. Há poucos dias assisti ao filme As palavras, dirigido por Brian Klugman. O protagonista encontra uma obra perdida dentro de uma pasta velha numa loja de antiguidades. Como não sabe de quem é e teve o seu próprio livro recusado por um editor, resolve assinar a obra e publicar. Torna-se um fenômeno de vendas, porém, o verdadeiro autor acaba aparecendo e lhe conta a história que inspirou o livro. O plagiador, por isso, deseja se redimir.
A diferença do romance Soy un escritor frustrado (LcLibros.com, edição em e-book, 108 páginas, sem tradução no Brasil), do espanhol José Ángel Mañas, que trata ddo mesmo tema, é a maldade do protagonista e narrador da história, um professor de literatura que tenta, sem sucesso, a carreira de escritor. Não escreve nada interessante e sabe muito bem disso, pois é o melhor crítico literário do seu país e ainda por cima vê outros escritores fazendo muito bem o que ele não consegue fazer. “No hay nada tan frustrante como esto: tener que enfrentarse cada día con brillantes ejemplos de individuos que son todo lo que uno quisiera ser y que han conseguido todo lo que uno nunca podrá ser.” Como se não bastasse, seu amigo, a que chama de Mozart, é um escritor em ascensão, o que lhe causa uma enorme inveja. O epíteto do amigo não é por acaso, visto que o narrador se torna uma espécie de Salieri, compositor que teria, segundo a lenda não comprovada, envenenado Mozart por não suportar que seu colega tivesse tido maior reconhecimento.
Quis o Destino, senhor das coisas inexplicáveis, que caísse nas mãos do professor um original de sua aluna Marian. Impressionado com a qualidade do texto, acaba sequestrando a jovem, deixando-a num porão de uma casa afastada da cidade e fazendo com que ela sofra as mais inumanas condições: amarrada, tem que comer num prato no chão como os cachorros e fazer suas necessidades fisiológicas na própria roupa. Ele publica a obra em seu nome e o livro se torna um grande sucesso. Mais tarde, ainda tenta obrigá-la a escrever novo romance, pois precisa entregar ao editor um novo livro com o intuito de receber um importante prêmio literário, já assegurado a ele mesmo antes de escrever, num arranjo comum no meio editorial espanhol. Marian, porém, resiste, recusando-se a comer e se entregando à Sorte, senhora que não dá muita bola para sua condição.
Adaptado para o cinema pelas mãos do francês Patrick Bouchitey, Soy un escritor frustrado é o terceiro romance de Ángel Mañas e foi publicado originalmente em 1996. Não deixa frustrado nem o leitor exigente nem aquele que gosta de um best-seller cheio de emoção e suspense. Infelizmente, porém, nenhuma editora lançou o livro por estas plagas.
Pense muito bem, caro leitor, antes de deixar um escritor frustrado. Compre sua obra, comente seus textos, repercuta nas redes sociais, caso contrário ele pode se metamorfosear num monstro e não responder mais racionalmente sobre seus atos.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.