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Traçando Livros de hoje é sobre "Soy un escritor frustrado", José Ángel Mañas



Minha coluna sobre livros no caderno Mix do jornal Gazeta do Sul de hoje.
 
Cuidado com o escritor frustrado

O mote não é lá muito incomum. Um escritor se apossa de um manuscrito de outra pessoa, publica em seu nome e se transforma em um sucesso de crítica e público. Há poucos dias assisti ao filme As palavras, dirigido por Brian Klugman. O protagonista encontra uma obra perdida dentro de uma pasta velha numa loja de antiguidades. Como não sabe de quem é e teve o seu próprio livro recusado por um editor, resolve assinar a obra e publicar. Torna-se um fenômeno de vendas, porém, o verdadeiro autor acaba aparecendo e lhe conta a história que inspirou o livro. O plagiador, por isso, deseja se redimir.
A diferença do romance Soy un escritor frustrado (LcLibros.com, edição em e-book, 108 páginas, sem tradução no Brasil), do espanhol José Ángel Mañas, que trata ddo mesmo tema, é a maldade do protagonista e narrador da história, um professor de literatura que tenta, sem sucesso, a carreira de escritor. Não escreve nada interessante e sabe muito bem disso, pois é o melhor crítico literário do seu país e ainda por cima vê outros escritores fazendo muito bem o que ele não consegue fazer. “No hay nada tan frustrante como esto: tener que enfrentarse cada día con brillantes ejemplos de individuos que son todo lo que uno quisiera ser y que han conseguido todo lo que uno nunca podrá ser.” Como se não bastasse, seu amigo, a que chama de Mozart, é um escritor em ascensão, o que lhe causa uma enorme inveja. O epíteto do amigo não é por acaso, visto que o narrador se torna uma espécie de Salieri, compositor que teria, segundo a lenda não comprovada, envenenado Mozart por não suportar que seu colega tivesse tido maior reconhecimento.
Quis o Destino, senhor das coisas inexplicáveis, que caísse nas mãos do professor um original de sua aluna Marian. Impressionado com a qualidade do texto, acaba sequestrando a jovem, deixando-a num porão de uma casa afastada da cidade e fazendo com que ela sofra as mais inumanas condições: amarrada, tem que comer num prato no chão como os cachorros e fazer suas necessidades fisiológicas na própria roupa. Ele publica a obra em seu nome e o livro se torna um grande sucesso. Mais tarde, ainda tenta obrigá-la a escrever novo romance, pois precisa entregar ao editor um novo livro com o intuito de receber um importante prêmio literário, já assegurado a ele mesmo antes de escrever, num arranjo comum no meio editorial espanhol. Marian, porém, resiste, recusando-se a comer e se entregando à Sorte, senhora que não dá muita bola para sua condição.
Adaptado para o cinema pelas mãos do francês Patrick Bouchitey, Soy un escritor frustrado é o terceiro romance de Ángel Mañas e foi publicado originalmente em 1996. Não deixa frustrado nem o leitor exigente nem aquele que gosta de um best-seller cheio de emoção e suspense. Infelizmente, porém, nenhuma editora lançou o livro por estas plagas.
Pense muito bem, caro leitor, antes de deixar um escritor frustrado. Compre sua obra, comente seus textos, repercuta nas redes sociais, caso contrário ele pode se metamorfosear num monstro e não responder mais racionalmente sobre seus atos.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

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