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Por que temos que escolher?

Estou há uma semana com esta frase na cabeça: “Prefiro não escolher. Escolher é perder sempre.” Quem disso isso foi Rafael, filho do multiartista Jô Soares, que reproduziu a frase em seu programa de TV, numa homenagem ao menino de 50 anos que havia falecido em decorrência de um câncer no cérebro. Rafael era autista e, por isso, vivia no seu mundo particular, segundo o Jô, trabalhando em sua estação de rádio e tocando piano.

Penso nessa frase a todo o instante porque ela me desestabilizou completamente. Tinha como verdade absoluta a frase “a vida é feita de escolhas”. Tive/tenho que fazer muitas durante esses meus 35 anos de idade mais ou menos bem vividos. Agora entendi porque me tornei um perdedor em certos aspectos. Foram todas as vezes em que tive que escolher. Escolher fazer literatura, por exemplo, me tornou um perdedor. Escolhi ser professor também e perdi ou estou perdendo. Escolhi fazer Letras e perdi. Escolhi fazer mestrado em Letras e perdi. 

Não estou querendo dizer que não deveria ter seguido esses caminhos todos. Literatura, tanto ler como escrever, por paixão, prazer, inquietação intelectual, me completa. Sou professor da área de Letras por gostar também, além de estar relacionado com a primeira escolha. Acontece que tive de deixar outros caminhos que estava seguindo para me focar nesses. Deixei de lado o futebol, a música, o rap, o carnaval. Não segui o caminho de administração de empresas sendo que trabalhava como auxiliar na área. Não era por prazer que poderia ter enveredado por ali, mas financeiramente talvez fosse mais vantajoso. Ou seja, ao escolher, perdi.

Quando venci, não tive escolha nenhuma. Foram as circunstâncias, o destino, o coração e a emoção que me guiaram no amor, no casamento, na paternidade, na felicidade familiar. Sou feliz e não perdi nessa parte da minha vida porque não escolhi, não foi necessário.

O menino de 50 anos, segundo seu pai, não quis escolher apenas seis livros de uma pilha de doze que queria levar de uma livraria. Se fosse para escolher, não levaria nenhum. Assim aprendemos desde criança. Ou você escolhe o carrinho ou a bola. O sorvete ou o refrigerante. Estudar ou brincar. Obedecer ou ficar sem TV (ou celular e computador hoje em dia). Jaspion ou Jiraya. Xuxa ou Angélica. Sertanejo ou Rock. Inter ou Grêmio (não, não, isso não é escolha). PT ou PSDB (ou PMDB aqui no Rio Grande do Sul). Esquerda ou direita. Arte ou entretenimento. Acreditar ou não em Deus. Otimismo ou pessimismo.

Por que temos que escolher? Por que temos que perder sempre?

Comentários

charlles campos disse…
Retirei meus comentários porque o propósito deles é um tanto tolo, Cassionei.

Mas, por favor, pare de reclamar. :-)

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