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Minhas últimas palavras (ou Eu disse que devanear cronicamente mata)



Esses dias me mostraram um vídeo de celular que teria sido gravado em Porto Alegre, sendo que outras fontes me indicaram São Paulo. Tudo aconteceu em uma escadaria, me parece que uma entrada de algum túnel de metrô. Um homem e uma mulher faziam sexo, indiferentes a quem passava pela rua e em plena luz do dia! Algumas pessoas olhavam o que acontecia, espantadas com a cara dura do casal. Até uma criança de bicicleta deu sua espiadinha. No final da gravação, um homem gordinho, de óculos, se aproximou lentamente, parou perto do casal, colocou a mão na cintura e ficou observando. A filmagem encerra aí. Acontece que o indivíduo, segundo a pessoa que me mostrou, era parecidíssimo comigo. Perguntou se não era eu mesmo. Respondi que não, nunca havia estado naquele lugar, nunca havia presenciado uma cena daquelas. E tenho que admitir, o sujeito é realmente muito parecido comigo, apesar de não ser possível distinguir seu rosto perfeitamente.
Seria, então, meu duplo?
A possibilidade de que tenhamos outros de nós espalhados por aí é cantada em verso e prosa pela literatura e pelo cinema. E se realmente existe essa possibilidade? Será que há realmente outro Cassionei por aí? O que será que ele faz? Qual sua profissão? Gosta de literatura? Também escreve? Ou é um cara diferente?
Em O homem duplicado, de José Saramago, o professor Tertuliano Máximo Afonso encontra o seu duplo ao assistir a uma fita de vídeo retirada de uma locadora. Ele é figurante de um filme. Tenta localizá-lo através da produtora, o que acaba não sendo uma boa ideia. Realmente, os duplos não podem se encontrar, não devem saber um da existência do outro. Se é que existe o outro ou tudo não passa de imaginação de nossa própria mente, como sugere a adaptação desse romance para o cinema, feita pelo diretor Denis Villeneuve.
Não sei. Só sei que não quero que meu duplo, se existir, saia fazendo besteira por aí. Sorte a minha que o cara do vídeo estava assistindo ao casal transando e não era ele próprio que estava praticando o ato. Que explicação daria para minha esposa? E que constrangimento seria ter minha imagem sendo compartilhada em sites pornôs! Lembram o que passou a atriz e dançarina Viviane Araújo ao ser confundida com uma mulher que transou com o amante na rua?
Enquanto escrevo estas linhas, ouço um barulho no portão. Pelo vidro da janela, vejo que é ele, o meu duplo. Ele me encontrou. Tem uma arma na mão. Eu não tenho arma. Minha única arma são as palavras. E essas são as últimas.

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