O homem da garagem de marfim (ou Me, myself & I)

Gostaria de ter disciplina para a leitura diária, porém sou um indisciplinado por natureza. Estabelecer um planejamento do que ler, partindo de determinados autores e seguir uma ordem cronológica é impossível. No meio do caminho vão aparecendo outros livros que furam a fila e as obras daquele autor ficam para trás. Há muita coisa para ler. Quando penso nisso fico com vergonha de ter publicado dois livros. Já não há escritores e publicações suficientes?
Mas aí paro, penso e concluo: eu tenho algo a dizer. Não li durante toda a minha vida (ou seja, ainda li muito pouco) para ser apenas leitor. Li para ser escritor também. E está aí uma coisa que nunca disse: eu sou bom no que faço. Chega de bancar uma de humilde, até porque, mesmo não querendo me enaltecer, já fui chamado de arrogante. Como escrevi num aforismo no meu blog, umas de minhas palavras despedaçadas: arrogo a mim o direito de ser arrogante.
A questão é simples. O cara escreve, escreve, depois de ter lido muito, mas muito mesmo. Aí tenta publicar pelo sistema tradicional: editora que banca a obra, divulga, distribui. Por motivos óbvios, ou nem tão óbvios, seu original fica esquecido em algum arquivo ou vai direto para a lixeira (física ou no computador) mais próxima. Então o escritor parte para a parceria, que é um eufemismo para a auto publicação. Faz uma tiragem pequena, vende algumas dezenas para conhecidos, quem sabe um ou outro exemplar sob encomenda e fica por isso mesmo. O livro não está em nenhuma livraria física, não chega às mãos de nenhum crítico nem da imprensa, a pequena editora não te divulga nem no próprio facebook dela (mas divulga notícias de escritores da mídia), quase ninguém sabe que você publicou um livro e sua dívida no cartão de crédito usado para bancar a obra aumenta.
E não estou aqui me lamentando por isso. Essa foi uma escolha, e escolher é perder, como disse o filho do Jô Soares, numa frase que reproduzi em outra crônica. Esse papo meio enrolado é só pra dizer que, inspirado talvez pelo Marcelo Mirisola (que também inspirou o título desta crônica), não vou mais ficar me fazendo de tolinho, ingênuo, achando “que não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada” (Álvaro de Campos/Fernando Pessoa), pois a única coisa boa que sei fazer é escrever e o faço bem. Não porque algum leitor me disse isso, mas porque eu sei, assim como sei quando escrevo porcarias, e mesmo essas porcarias ainda assim podem ser relevantes pra alguém, mesmo que esse alguém seja eu mesmo, na minha garagem de marfim onde estou agora, rodeado por livros, alguns não tão bons como os meus. 

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