Traçando livros de hoje sugere a leitura de Burgess e Micheliny Verunschk

Minha coluna no jornal Gazeta do Sul de hoje, em clima de férias, retoma duas resenhas já publicadas aqui no blog.




Burgess e Verunschk: duas sugestões de leitura

Quando vou a uma biblioteca, gosto de vasculhar as prateleiras. Dificilmente vou ao terminal de consulta. Por isso, acabo descobrindo livros que não imaginava que existissem. Mergulho naqueles rios de lombadas e, muitas vezes, saio com volumes cuja leitura não estava nos meus planos.
Tal qual um escafandrista, encontrei certa vez uma pérola dentro de uma concha, entre pedras e algas que escondiam a preciosidade. Tratava-se do romance 1985, do britânico Anthony Burgess, edição da L&PM. A capa continha o numeral que dá título à obra, encimando outra cifra, 1984, numa referência óbvia ao clássico de George Orwell.
Na primeira parte da obra, o autor de Laranja mecânica analisa o romance de Orwell através de artigos e entrevistas imaginárias. Na segunda parte, escreve a novela que dá título ao livro, imaginando uma sociedade distinta da sociedade controlada pelo Big Brother. Em uma das análises, Burgess propõe que esse tipo de obra não poderia ser chamado de distopia, como acontece frequentemente com relação a obras como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, ou a própria Laranja Mecânica. Para ele, o mais correto seria chamar cacotopia, do grego kakos (mau) e topos (lugar).
Na novela propriamente dita, escrita em 1978, o protagonista é Bev Jones, que vê sua mulher morrer em um incêndio em um hospital, pois os bombeiros, em greve, se recusaram a apagar as chamas. Acaba ficando sozinho com sua filha, Bessie, uma garota de 13 anos, autista, que fica o dia inteiro assistindo à televisão. No país onde vive, provavelmente a Inglaterra, há uma espécie de ditadura dos sindicatos. Ou seja, as centrais sindicais exercem um controle sobre a sociedade, exigindo que todos se tornem sócios delas. Quem não acata essa decisão não poder exercer nenhum trabalho e precisa passar uma temporada em centros de recuperação. Há também em curso um processo de islamização em massa do país, com a construção de mesquitas e a presença de árabes ricos.
O livro, infelizmente, está esgotado e pode ser encontrado apenas em sebos e também, claro, em boas bibliotecas.
Para quem busca livros novos, sugiro o primeiro romance da poeta Micheliny Verunschk: Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida, publicado pela Editora Patuá.
Temos aqui a história de Teresa, uma menina cujo suicídio nos é narrado logo no início. Conhecida como Beata Teresa de V., consoante que denomina a cidade durante todo o enredo, ela é a padroeira dos suicidados. Apesar de cometer um pecado contra vida, era considerada como santa pelos fieis, por isso um Papa, Petrus II, está prestes a canonizá-la. Ambos viveram na mesma cidadezinha (por sinal, com altos índices de suicídios), ele sendo o orientador espiritual da jovem, quando era simplesmente o padre Simão. (Sim, habemus um papa brasileiro na história.)
Em alguns capítulos, outros suicídios são mencionados, num mosaico de histórias que preenchem o romance, inclusive com reprodução de bilhetes de suicidas guardados numa biblioteca imaginária cujo bibliotecário, se ela existisse, seria o próprio narrador do romance, um cego, assim como Borges: O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? (...) a regra diz que, caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos”.
Um texto poético sem ser um poema, num enredo que se passa no futuro (ou numa realidade alternativa), porém distante da ficção científica, com reflexões filosóficas, no entanto avesso à teoria. Trata do suicídio, mas também de religião, fé, fanatismo, tabus. Um belo romance.
Cassionei Niches Petry é professor e escritor. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

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