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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2015

Bauman foi mais esperto (III)

De uma leitura recente.O título, “A coleira no pescoço”, relacionado à capa é enganoso. Quem está sendo preso pela coleira não é o cachorro, mas sim o leitor. Desde o primeiro conto o leitor é conduzido ora docemente ora de maneira mais ríspida pelas mãos dos narradores desses deliciosos contos de Menalton Braff.
O melhor conto é “Um tarde de domingo (tragédia em três episódios)”. A história discute um caso de abuso de um padrasto contra sua enteada e a injustiça da mãe ao acusá-la de provocá-lo, causando a tragédia do subtítulo. É narrada sob três pontos de vista, cada um deles a ponta do vértice desse triângulo familiar.

"Arranhões e outras feridas" para download

Disponibilizei o meu primeiro livro, "Arranhões e outras feridas", para download, já que ele não consta nem mais no site da editora. Pode ser lido online também.

https://pt.scribd.com/doc/260309176/Arranhoes-e-Outras-Feridas

Bauman foi mais esperto (I)

Agora vai.
Inicio um novo diário. Aberto, de peito aberto, de mente aberta. Isto não é um diário (Bauman foi mais esperto e já usou o título que eu queria usar). O blog surgiu para isso, mas não é bem isso. Também não sei se é bem isso que gostaria de escrever. De qualquer forma, escrevo, publico e o público que o leia, o pequeno público. É mais uma das tantas séries que inicio por aqui e que podem ter o mesmo destino: o fim sem lamento de ninguém.
Notas soltas, aforismos, frases de outros. Opiniões que ninguém pediu, respostas a perguntas que ninguém fez, entrevistas a entrevistadores imaginários, rabiscos, rascunhos de coisas que iriam para o lixo convencional, mas que serão jogados neste lixo virtual.
Os antigos diários em papel eram escritos para ninguém ler. Este terá o mesmo destino. Que seja.
Preciso escrever. Escrever é preciso.

Esquerda ou direita, é preciso escolher?

Já fui uma pessoa ligada à política na minha juventude. Influenciado pelo movimento Hip Hop, durante um bom tempo era um sujeito de esquerda, preocupado com as questões sociais. Era mais especificamente petista, daqueles que usavam a estrelinha no peito. Entrando na universidade, minha ideologia foi fortalecida, afinal os professores que não eram indiferentes à política faziam questão de demonstrar seus ideais esquerdistas, a admiração pelo socialismo, o ódio à direita. Na aula de didática, no lugar de práticas de ensino, aprendi a criticar a visão neoliberal e capitalista que acabava com a educação. Fui muito bem doutrinado, obrigado. Cheguei a chorar de emoção quando o Lula foi eleito.Algo, porém, me inquietava. Não conseguia aceitar a visão coletivista do esquerdismo. Os que criticavam a condição do povo como massa de manobra do capital se tornavam uma massa obediente aos ditames comunistas. Minha individualidade estava ameaçada. Foi quando conheci a obra do Olavo de Carvalho, prin…

Mais um leitor de "Os óculos de Paula"

Do professor de Filosofia, Rubens Machado:
Cassionei Niches Petry, preciso parabenizá-lo pelo romance "Os óculos de Paula". Você soube manter o sigilo da história até o final e fez uma revelação intrigante!! Acho que o conceito de "metarromance", algumas vezes citado, é bem apropriado. Enfim, fiquei muito gratificado pela leitura. Agora vou atrás de "Arranhões e outras feridas"!!Abraço

No Traçando Livros de hoje, escrevo sobre livro de Miguel Sanches Neto

De heranças e livros
É difícil eu me identificar com algum livro. Geralmente não gosto de me identificar. Aliás, o uso desse verbo é um clichê de que não gosto. Mas vez ou outra eu uso. Somos refém de clichês, não adianta. Este livro do Miguel Sanches Neto, no entanto, diz coisas que eu gostaria de dizer, traz momentos que também vivenciei, produz aquela sensação de “eu já passei por isso”. A trajetória de leitor e as reflexões sobre o objeto livro em “Herdando uma biblioteca” (Record, 2004,  140 páginas) nos transportam e nos fazem valorizar mais o livro impresso, as marcas que eles nos deixam, as marcas que deixamos neles. Curiosamente, comprei esta edição num sebo e há um furo de traça em suas páginas. Outra traça marcou sua passagem por ali. Chegou a minha vez.Em princípio é um livro de crônicas. Pode, porém, ser lido como um romance, que tem como protagonista o jovem Miguel que se torna escritor e professor. Assim como ele, também tive uma Bíblia com a tradução de João Ferreira de…

Um mergulho na obra inicial de Philip Roth

Mais dois romances com o Kepesh

As leituras e releituras da obra de Philip Roth me apresentam e reapresentam um escritor espetacular, que vai do engraçado ao trágico, do religioso ao antirreligioso, do casto ao erótico. Apenas uma coisa me parece que perpassa todos os livros: a condição judaica. De resto, a temática é ampla e variada, com algumas obsessões permanentes. Depois de O seio, sobre o qual escrevi aqui, enveredei por outros dois romances que têm o mesmo David Kepesh como protagonista. O professor do desejo (Companhia das Letras, 256 páginas, tradução de Jorio Dauster), publicado originalmente em 1977, conta a infância, adolescência e início da idade adulta, num momento um pouco anterior ao enredo de O seio. A família, suas aventuras eróticas na Europa, a primeira mulher, as aulas na universidade, a carreira inicial de professor, as referências à Kafka e outros escritores, a segunda mulher e o contato com o psicanalista são fatos que se desenrolam numa agilidade narrativa que simboliza muito bem as ansiedad…

Relendo "Complexo de Portnoy", do Philip Roth

"Numa excursão do nosso grupo familiar, certa vez descarocei uma maçã, para espanto meu (e com auxílio da minha obsessão) verifiquei com o que ela se parecia, e corri para o mato para cair em cima do orifício da fruta (...)." Relendo "Complexo de Portnoy", do Philip Roth,um dos romances mais engraçados do escritor.

Sérgio Sant'Anna no Traçando Livros de hoje

Da literatura como arte
Sérgio Sant’Anna já deu as caras por aqui quando do lançamento de O livro de Praga. É um dos escritores prediletos do cardápio desta traça. Consegue, como poucos, equilibrar a experimentação narrativa com histórias bem contadas, aliar a arte mais sofisticada com temas populares. Os 19 contos (ou narrativas, como ele prefere chamar) de seu mais recente livro, O homem-mulher (Companhia das Letras, 183 páginas), coroam a regularidade de sua obra, sem altos e baixos como acontece com outros escritores que surgiram, como ele, nas décadas de 60 e 70.O livro inicia e termina com a narrativa que dá título à obra. Na primeira parte, o conto é curto, narrando o encontro do ator Fred Wilson (também chamado de Zezé) com uma jovem durante o carnaval em Belém do Pará. Ele gosta de se vestir de mulher, apesar de ser heterossexual (“se travestir não era veadagem, mas incorporar a mulher em sua masculinidade”). Depois de fazerem sexo num cemitério, os dois se despedem e nunca ma…