terça-feira, março 31, 2015

Bauman foi mais esperto (III)


De uma leitura recente.
O título, “A coleira no pescoço”, relacionado à capa é enganoso. Quem está sendo preso pela coleira não é o cachorro, mas sim o leitor. Desde o primeiro conto o leitor é conduzido ora docemente ora de maneira mais ríspida pelas mãos dos narradores desses deliciosos contos de Menalton Braff.

O melhor conto é “Um tarde de domingo (tragédia em três episódios)”. A história discute um caso de abuso de um padrasto contra sua enteada e a injustiça da mãe ao acusá-la de provocá-lo, causando a tragédia do subtítulo. É narrada sob três pontos de vista, cada um deles a ponta do vértice desse triângulo familiar.

sábado, março 28, 2015

Bauman foi mais esperto (I)


Agora vai.

Inicio um novo diário. Aberto, de peito aberto, de mente aberta. Isto não é um diário (Bauman foi mais esperto e já usou o título que eu queria usar). O blog surgiu para isso, mas não é bem isso. Também não sei se é bem isso que gostaria de escrever. De qualquer forma, escrevo, publico e o público que o leia, o pequeno público. É mais uma das tantas séries que inicio por aqui e que podem ter o mesmo destino: o fim sem lamento de ninguém.

Notas soltas, aforismos, frases de outros. Opiniões que ninguém pediu, respostas a perguntas que ninguém fez, entrevistas a entrevistadores imaginários, rabiscos, rascunhos de coisas que iriam para o lixo convencional, mas que serão jogados neste lixo virtual.

Os antigos diários em papel eram escritos para ninguém ler. Este terá o mesmo destino. Que seja.

Preciso escrever. Escrever é preciso.

domingo, março 22, 2015

Esquerda ou direita, é preciso escolher?


Já fui uma pessoa ligada à política na minha juventude. Influenciado pelo movimento Hip Hop, durante um bom tempo era um sujeito de esquerda, preocupado com as questões sociais. Era mais especificamente petista, daqueles que usavam a estrelinha no peito. Entrando na universidade, minha ideologia foi fortalecida, afinal os professores que não eram indiferentes à política faziam questão de demonstrar seus ideais esquerdistas, a admiração pelo socialismo, o ódio à direita. Na aula de didática, no lugar de práticas de ensino, aprendi a criticar a visão neoliberal e capitalista que acabava com a educação. Fui muito bem doutrinado, obrigado. Cheguei a chorar de emoção quando o Lula foi eleito.
Algo, porém, me inquietava. Não conseguia aceitar a visão coletivista do esquerdismo. Os que criticavam a condição do povo como massa de manobra do capital se tornavam uma massa obediente aos ditames comunistas. Minha individualidade estava ameaçada. Foi quando conheci a obra do Olavo de Carvalho, principalmente o livro O imbecil coletivo, e sites da internet que reconheciam a importância do indivíduo. As letras do Neil Peart, baterista da banda canadense Rush, também começaram a me fazer refletir sobre o homem frente à massa. Acontece que esse pensamento é relacionado à dita “direita” e para mim isso era uma ofensa. Pelo menos foi o que minha mente ainda presa à esquerda pensava.
Afastei-me das ideias de Olavo de Carvalho devido à maneira com que ele trata os ateus. Boa parte da direita, infelizmente, mantém uma postura religiosa dogmática. Por isso, hoje digo que estou em cima do muro, com uma visão privilegiada, portanto, dos dois lados. As manifestações do dia 15 de março foram observadas aqui de casa, pela TV e pela internet porque, mesmo sendo contra o governo que aí está e contra as bandeiras que os partidos e instituições que o apoiam levantam, também sou contra quem deseja a volta de uma ditadura militar ou enaltece medievalistas como Bolsonaro ou Feliciano. Não saio às ruas porque não quero parecer uma ovelha a mais no rebanho.
O que me incomodou, porém, foi a visão simplista de meus pares intelectuais (professores, escritores, filósofos, artistas) tentando defender a todo o custo o governo. Há uma subserviência incrível a um partido que partiu não só o Brasil como a própria esquerda. Penso que a falta de independência política limita a ação desses intelectuais que parecem estar vivendo no paraíso, na utopia que tanto almejavam e não enxergam ou, o que é pior, fingem não enxergar a realidade de miséria que vivemos em todos esses anos, a corrupção que aumenta, a educação que só piora. Em vez de pedirem que o seu governo melhore nesses aspectos, despreza o protesto legítimos de milhões de brasileiros, como se só a esquerda tivesse o direito de ir às ruas.

Hoje a esquerda está no poder, ontem foi a direita. O que mudou nesse país? Humberto Gessinger já cantava lá nos anos 80: “Esquerda e direita, direitos e deveres,/ Os 3 patetas, os 3 poderes/ Ascensão e queda, são dois lados da mesma moeda/ Tudo é igual quando se pensa/Em como tudo poderia ser/ Há tão pouca diferença e há tanta coisa a fazer.” Uma das coisas que temos a fazer é reconhecer que existe tanto ditadura de direita como de esquerda. E ambas são indesejáveis.

sábado, março 21, 2015

Mais um leitor de "Os óculos de Paula"

Do professor de Filosofia, Rubens Machado:

Cassionei Niches Petry, preciso parabenizá-lo pelo romance "Os óculos de Paula". Você soube manter o sigilo da história até o final e fez uma revelação intrigante!! Acho que o conceito de "metarromance", algumas vezes citado, é bem apropriado. Enfim, fiquei muito gratificado pela leitura. Agora vou atrás de "Arranhões e outras feridas"!! Abraço

quarta-feira, março 18, 2015

No Traçando Livros de hoje, escrevo sobre livro de Miguel Sanches Neto

De heranças e livros

É difícil eu me identificar com algum livro. Geralmente não gosto de me identificar. Aliás, o uso desse verbo é um clichê de que não gosto. Mas vez ou outra eu uso. Somos refém de clichês, não adianta. Este livro do Miguel Sanches Neto, no entanto, diz coisas que eu gostaria de dizer, traz momentos que também vivenciei, produz aquela sensação de “eu já passei por isso”.
A trajetória de leitor e as reflexões sobre o objeto livro em “Herdando uma biblioteca” (Record, 2004,  140 páginas) nos transportam e nos fazem valorizar mais o livro impresso, as marcas que eles nos deixam, as marcas que deixamos neles. Curiosamente, comprei esta edição num sebo e há um furo de traça em suas páginas. Outra traça marcou sua passagem por ali. Chegou a minha vez.
Em princípio é um livro de crônicas. Pode, porém, ser lido como um romance, que tem como protagonista o jovem Miguel que se torna escritor e professor. Assim como ele, também tive uma Bíblia com a tradução de João Ferreira de Almeida. Meus primeiros livros também foram os escolares herdados de parentes. Também não havia biblioteca na minha casa. Também sou do interior. Também me formei como leitor em bibliotecas escolares e públicas. Também roubei livros. ("Roubar livros que nos solicitam amorosamente é uma forma de herdar à força uma biblioteca que nos foi negada.") Também comprei muitos livros em sebos (este próprio vem de um). Meus primeiros livros também foram colocados em algumas prateleiras do armário de roupas do meu quarto. Também recebi e recebo alguns livros (não tanto como o Miguel), devido à atividade (só que no meu caso não remunerada) de crítico literário. (A propósito, este texto que escrevo não é uma crítica literária e sim, quem sabe, uma crônica ou somente impressões pessoais de leitura. Impossível ser objetivo com esse livro, pois ele me pegou emocionalmente.)

Minha identificação se encerra no momento em que a personagem Miguel se torna um escritor reconhecido e professor universitário. Continuo aqui na minha vidinha de escritor desconhecido e um simples e discreto professor de escola pública numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. Também não tenho uma vasta biblioteca ainda. Herdo daquelas pessoas que me influenciaram, entre elas o Miguel da vida real, esse gosto meio estranho por um objeto quadrado em que mentes privilegiadas descarregaram suas angústias, sofrimentos, conhecimentos, habilidades com a palavra. Herdo dos livros que li a vontade de ter mais livros, de me desfazer dos ruins para dar lugar aos bons, de conhecer outros e esquecer alguns. Foram os livros que me formaram e depois me deformaram. Eles me construíram e também me destruíram. Construo uma biblioteca para que ela me destrua, portanto. Mesmo assim não deixo de preencher prateleiras e mais prateleiras, comprar livros e também ganhá-los. “Cada livro que colocamos em nossas estantes”, escreve o Miguel, “é uma peça a mais nesse complexo quebra-cabeça que nunca chega a se completar.” 

sábado, março 07, 2015

Mais dois romances com o Kepesh



As leituras e releituras da obra de Philip Roth me apresentam e reapresentam um escritor espetacular, que vai do engraçado ao trágico, do religioso ao antirreligioso, do casto ao erótico. Apenas uma coisa me parece que perpassa todos os livros: a condição judaica. De resto, a temática é ampla e variada, com algumas obsessões permanentes.
Depois de O seio, sobre o qual escrevi aqui, enveredei por outros dois romances que têm o mesmo David Kepesh como protagonista. O professor do desejo (Companhia das Letras, 256 páginas, tradução de Jorio Dauster), publicado originalmente em 1977, conta a infância, adolescência e início da idade adulta, num momento um pouco anterior ao enredo de O seio. A família, suas aventuras eróticas na Europa, a primeira mulher, as aulas na universidade, a carreira inicial de professor, as referências à Kafka e outros escritores, a segunda mulher e o contato com o psicanalista são fatos que se desenrolam numa agilidade narrativa que simboliza muito bem as ansiedades de Kepesh. Sexo e literatura, não necessariamente nessa ordem. Achei curiosa uma das análises do professor sobre a obra do Kafka: “Às vezes me pergunto se O Castelo não está realmente ligado ao bloqueio erótico de Kafka – um livro que se relaciona em todos os níveis com a incapacidade de se atingir o clímax.” O narrador-personagem também conta um engraçadíssimo sonho com uma velha prostituta que teria prestado serviços sexuais ao autor de A metamorfose.
Em O animal agonizante, (Companhia das Letras, 128 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto), de 2001, temos um David Kepesh bem mais velho, perto dos setenta anos, solteiro e ainda conquistador, famoso como crítico cultural na imprensa e professor adorado. Sempre no final do semestre, para se despedir dos alunos, promove uma festa em sua casa, na verdade com o intuito de “pegar” alguma aluna (bem mais nova), já que seu “código de ética” não o permite fazê-lo durante o decorrer do curso. Acaba conquistando Consuela Castillo, descendente de cubanos, jovem de vinte e quatro anos, por quem se apaixona. Vivem o relacionamento durante algum tempo, mas depois se separam. Nesse período, Kepesh reflete sobre sua velhice (boa parte dos últimos de Roth trazem esse tema) e seus relacionamentos sexuais. Consuela retorna anos depois para lhe revelar algo importante e é aí que o título do romance se justifica e não pela velhice de David, como pensamos num primeiro momento. A narrativa, mais lenta e curta do que O professor do desejo, revela um personagem mais calmo e tentando se conformar com o fim da vida, apesar de sofrer com essa condição.

O animal agonizante foi adaptado para o cinema, com o título Fatal, trazendo Penélope Cruz no papel de Consuela. Não assisti ainda, mas, tão logo o faça, comento por aqui.

Relendo "Complexo de Portnoy", do Philip Roth

"Numa excursão do nosso grupo familiar, certa vez descarocei uma maçã, para espanto meu (e com auxílio da minha obsessão) verifiquei com o que ela se parecia, e corri para o mato para cair em cima do orifício da fruta (...)." Relendo "Complexo de Portnoy", do Philip Roth,um dos romances mais engraçados do escritor.

quarta-feira, março 04, 2015

Sérgio Sant'Anna no Traçando Livros de hoje


Da literatura como arte

Sérgio Sant’Anna já deu as caras por aqui quando do lançamento de O livro de Praga. É um dos escritores prediletos do cardápio desta traça. Consegue, como poucos, equilibrar a experimentação narrativa com histórias bem contadas, aliar a arte mais sofisticada com temas populares. Os 19 contos (ou narrativas, como ele prefere chamar) de seu mais recente livro, O homem-mulher (Companhia das Letras, 183 páginas), coroam a regularidade de sua obra, sem altos e baixos como acontece com outros escritores que surgiram, como ele, nas décadas de 60 e 70.
O livro inicia e termina com a narrativa que dá título à obra. Na primeira parte, o conto é curto, narrando o encontro do ator Fred Wilson (também chamado de Zezé) com uma jovem durante o carnaval em Belém do Pará. Ele gosta de se vestir de mulher, apesar de ser heterossexual (se travestir não era veadagem, mas incorporar a mulher em sua masculinidade”). Depois de fazerem sexo num cemitério, os dois se despedem e nunca mais se reencontram. A parte 2 do conto encerra o livro, reapresentando o mesmo episódio, com pequenas variações, dando continuidade em mais páginas com as peripécias de um grupo de teatro experimental criado pelo crossdresser no Rio de Janeiro.
Esse erotismo em diálogo com as artes é uma constante na obra. A dança de Pina Bausch que encanta um torcedor de futebol, a estátua de Buda sendo seduzido por uma bela jovem (que ilustra a capa do livro). Em “Lencinhos”, uma jovem borda lenços com motivos eróticos. Em outro conto, “O rigor formal”, a esposa de um escritor famoso faz sexo oral em um estudante de letras na biblioteca do marido e relata tudo em um e-mail para ser enviado à imprensa cultural. Em “Madonna”, o ladrão de quadros se sente seduzido pelos seios da pintura de Edward Munch: “Enfim, os mistérios gozosos da parte superior de seu corpo oferecido a homens de sensibilidade. Oferecido a mim.” A arte pictórica erótica está também presente em “Este quadro”.
Em alguns contos, Sant’Anna reflete sobre a arte do escritor. É também um constante em sua obra. “O conto maldito e o conto benfazejo”, na verdade um pequeno ensaio, discute os temas de um conto. Deve ser mais duro, violento, “dos crimes hediondos como a sevícia ou a morte de mulheres e crianças, que preferíamos não escrever, como se o fazendo déssemos realmente à luz o monstro e seus atos”? Ou mais terno, em que “todas as possíveis desavenças seriam esquecidas, assim como toda a angústia”?
Sérgio Santa’Anna representa com maestria o conceito que tenho de literatura. Antes de mais nada, literatura é a arte da palavra. É a elaboração artística que tem como instrumentos as letras, palavras e frases que, dispostas de certa forma, provocam um efeito estético no leitor. A história é um complemento, importante sem dúvida. Sem esse trabalho, porém, torna-se apenas um mero exercício de entretenimento. Fazer literatura não é apenas contar uma boa história. Sérgio Sant’Anna sabe disso e pratica muito bem essa arte.

 Cassionei Niches Petry é professor e escritor. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com