Avançar para o conteúdo principal

Não leiam, jovens

Não leiam, jovens. Não abram os livros que estão na biblioteca da escola, tampouco acessem e-books na internet. Esqueçam o que algumas pessoas, principalmente os professores, dizem sobre a leitura. Naquele amontoado de letras vocês não vão encontrar nada que preste. Se os adultos os aconselharem a ler, desobedeçam. Fiquem distantes dos livros, certo?
Não leiam, jovens, porque nos livros vocês podem encontrar coisas inapropriadas para a idade de vocês. Sexo, por exemplo. A maioria dos livros tem descrições de sexo, as personagens só pensam em sexo, de manhã, de tarde, de noite, vivem em função disso. Não leiam, por exemplo, Reparação, de Ian McEwan, ok?, pois há uma cena de sexo dentro de uma biblioteca!  
Muitos livros têm sangue, muito sangue, mortes, violência. Fujam disso. Não é para a faixa etária de vocês. Fujam de caras como um russo chamado Dostoiévski. Ele escreveu um livro em que o herói da história não tem nada de herói. O cara, imaginem vocês, mata uma velhinha com um golpe de machadinha na cabeça e, para não ser pego, tem que matar a irmã da velhinha que apareceu bem na hora do crime. Imagina a quantidade de sangue no chão. E tudo porque ele queria roubar o dinheiro da velhinha, uma agiota que explorava os desesperados, para se tornar uma grande sujeito, assim como Napoleão, que fazia de tudo para ter poder. Não leiam, portanto, esse livro chamado Crime e castigo, certo?
Livros nos fazem pensar. Quer coisa mais chata do que pensar? Por que pensar se outro pode fazer isso pela gente? Na idade de vocês, jovens, escutem música simples, sem complexidade, apenas para se distrair e dançar. Assistam a filmes que não exijam muito de seus cérebros. Deixem os livros para os adultos que não sabem aproveitar a vida. Não leiam, pelo menos na idade de vocês, o romance 1984, de George Orwell, cujo vilão é um sistema conhecido como Big Brother.   
Livros deveriam ser proibidos. E já o foram. Em alguns países ainda há limitação para a leitura. Fazem muito bem. Livros são perigosos, são piores que armas de fogo. São como drogas que nos fazem ter uma percepção diferente da realidade e, como as drogas, deveria ser proibido o consumo de livros. Livro faz mal para a saúde como o cigarro, a bebida e o sertanejo universitário. Não leiam livros de um cara chamado Bukowski, pois o cara só bebe, fuma, fala mal de todo mundo e faz sexo, muito sexo. O escritor é conhecido como o “velho safado”. Não o leiam, em hipótese alguma.

Livro é coisa de gente rebelde, que não está conformada com o mundo e quer mudá-lo. E vocês, jovens, precisam se divertir, curtir baladas, jogos eletrônicos e postar selfies na frente do espelho fazendo biquinho. Lembro mais uma vez que os livros têm conteúdo inapropriado para vocês, jovens. Não leiam. É um conselho de adulto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …