Venha me ler até o final



Cada amanhecer me dá um soco é um verso de um poema de Carlos Drummond de Andrade. Andrei Ribas fez bem ao escolher esse título, pois a mim, pelo menos, despertou o interesse pelo romance. Somando-se a isso, o detalhe da Vênus de Botticelli na capa, com uma intervenção do próprio Ribas que sugere uma Vênus cega (um dos subtítulos da obra), nos antecipa a dose de referências intertextuais que virão a seguir.
O primeiro capítulo foca em um legista, responsável pela necropsia do corpo de um pai esfaqueado pela própria filha. Na sua análise, encontra uma mensagem, escrita com pequenos cortes de faca na pele do homem: “Venha me ver”. Talvez influenciado pela série Elementary, a que venho assistindo nas últimas semanas, esperava uma história policial, mas não é bem isso que temos no romance de Ribas.
No segundo capítulo, somos transportados para a mente conturbada da parricida, vivendo agora em um hospital psiquiátrico. A voz narrativa, porém, é de um gato, como se estivesse conversando com ela: “Após a morte de sua mãe, descobriu que eu, de cor gris com a ponta do rabo preta – o qual não possuía um nome pois nunca alguém houvera me batizado desde que cheguei ao acaso num dia chuvoso procurando abrigo – podia falar e, mais do que isso, dava conselhos um tanto gnósticos”. Ficamos então sabendo que o pai havia matado sua mãe, porém conseguindo simular que fora um latrocínio. Mas não seria essa a vingança da jovem. Havia uma tragédia maior que a motivou a praticar o crime, que vai sendo aos poucos revelada.
Na sequência, ainda aparece um escritor recluso, Guillermo, que pendura restos de cigarro em árvores para os morcegos fumarem. É um personagem-chave na história, mas poderia ser melhor construído, assim como o legista, que só reaparece no final e cuja investigação sobre a mensagem encontrada é resolvida de forma rápida. O romance teria tudo para ser mais longo, porém fica nítido, pelo menos para mim, que o autor se apressou para concluir a obra.
Há alguns defeitos, além da construção das personagens, que devem ser mencionados. As referências intertextuais são muitas e, na maioria das vezes, se encaixam, porém, o didatismo me incomodou em vários momentos. A fala do gato, por exemplo, que é poética, muda bruscamente para uma linguagem informativa para citar autores e obras, muitas com títulos completos em inglês. Dispensável também a enumeração de vários livros da biblioteca de Guillermo. Ribas parece querer deixar em evidência sua erudição que já ficou patente em momentos mais sutis da narrativa, em que o “não dito” e o “não escrito”, termos caros ao escritor fictício, instigam os leitores exigentes. Não gostei da escolha de alguns vocábulos como “osculasse”, por exemplo, logo no início da narrativa, que quase me fez largar o livro.
Aconselho, porém, a quem ler o romance, que vá até o final. O desfecho é interessante e relativiza, inclusive, algumas inverossimilhanças das personagens. Acaba provocando a vontade de reler a narrativa e costurar os pontos. Quem leu até o fim o meu Os óculos de Paula, com o perdão da autorreferência, vai entender do que estou falando.

Cada amanhecer me dá um soco é o terceiro livro de Andrei Ribas. A edição é da Bestiário, editora de Porto Alegre. 

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