"Os sebos: do paraíso ao inferno", texto meu no jornal hoje


Sou frequentador de sebos. Na minha cidade há pelo dois: um acanhado, com poucos livros, e que está a mais tempo no mercado, o “Sebum”, e outro maior, que há pouco tempo abriu suas portas, “Sebo Livro Vital”. Ambos foram criados por mulheres aposentadas, apaixonadas pelos livros, que queriam ter uma ocupação e, claro, ainda ter certo lucro com isso, mesmo que pouco. Entrar nesse nesses ambientes e sentir o cheiro de livro velho, encontrar preciosidades e poder comprar livros baratos para aumentar minha biblioteca particular é o que me move a sair de casa.

Por que o nome “sebo”? Várias versões dão conta da denominação. Antonio Carlos Secchin, no seu Guia dos Sebos da cidade do Rio de Janeiro e São Paulo, escreve que o nome vem do estado em que se encontram geralmente as capas dos livros usados, engordurados pelo manuseio de sucessivos donos. O nome é próprio do Brasil. Em Portugal, por exemplo, é alfarrabista; na França, “librairie d’occasion”; nos países de língua espanhola, “libreria de viejo”. De qualquer forma, para leitores como eu, é um templo. 

Muitas vezes, porém, não encontramos tudo o que queremos em um sebo. Para a nossa salvação, há centenas e centenas de sebos à disposição em um clique no computador. Para aumentar as vendas, os sebos disponibilizam sites próprios e também aderem a endereços coletivos. Para mim, um recluso incurável, é um banquete dos deuses. Dia desses, por exemplo, encontrei pela internet um exemplar de Passa-Três, livro de contos de Orígenes Lessa, de 1935, mas com assinatura de um antigo dono datada de 1949. 

Por falar em assinatura, minha última aquisição foi a primeira edição de Depois do sol, primeiro livro de Ignácio de Loyola Brandão, de 1965, com autógrafo do autor, que recebeu recentemente um prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Dependendo do autógrafo e da raridade do exemplar, nem sempre os livros custam barato. Estou em busca, por exemplo, do raríssimo Porão e sobrado, de Lygia Fagundes Telles, seu primeiro livro, de 1938, que ela hoje renega, mas só o encontrei pelo proibitivo valor de R$ 1.500,00! 

O sebo pode ser a alegria ou a tristeza do leitor. Como assim tristeza? Ribeiro Couto retratou muito bem esse sentimento do leitor no conto “O crime do estudante Batista”, escrito no início dos anos 20. No enredo, um jovem aspirante a advogado depende dos poucos rendimentos do seu pai para se manter na capital, prosseguir seus estudos de Direito e, principalmente, comprar livros, sua grande paixão. Seu genitor, porém, morre, e ele se vê obrigado a arrumar o emprego. Esperando uma nomeação prometida por um senador conhecido da família, começa a vender aos poucos os seus livros a um sebo, com muita tristeza. “Logo que fosse nomeado iria resgatar no sebo os seus pobre amigos.” Sua situação piora quando recebe uma carta da irmã, solicitando ajuda financeira. Desesperado, decide vender toda a biblioteca de uma vez só. O dono do sebo, no entanto, como um demônio da perversidade, oferece um valor muito baixo pelo conjunto de livros. O estudante Batista, dominado pela ira, comete, então, o ato que dá título ao conto. 

O dono de um sebo pode ser, então, um anjo que nos leva ao céu, ou um demônio que nos arrasta ao inferno. A Sueli e a Estela, proprietárias dos sebos citados, são os anjos deste escriba ateu e a elas dedico esta crônica.

Comentários

Que lindo, Cássio! Adorei. Os sebos acabam sendo a única alternativa pra muitos. Inclusive pra mim. Abração

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