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No Traçando Livros de hoje, Sérgio Sant'Anna e seu novo livro de contos

O contista se desnuda

Repito o que escrevi uma vez sobre Sérgio Sant’Anna: ele consegue, como poucos, equilibrar a experimentação narrativa com histórias bem contadas, aliar a arte mais sofisticada com temas populares. Neste seu novo livro, O conto zero e outras histórias (Companhia das Letras, 173 páginas), o escritor acrescenta um forte tom memorialístico. Creio que seja seu livro mais pessoal e, talvez por isso, um dos mais irregulares, mas ainda assim superior a outras obras que circulam por aí.
Em “O conto zero”, dois irmãos (um deles o próprio Sérgio) perambulam pelas ruas e metrôs de Londres nos anos 50, depois de terem cabulado a aula, durante quatro dias seguidos. O narrador conta a história como se fosse para ele mesmo: “você está escrevendo isso neste momento e dá-se conta de que amava e ainda ama Londres (...)”. “Flores brancas”, o segundo conto, amplia numa perspectiva de certo modo negativa um conto do livro anterior. Um professor universitário se envolve com uma aluna (tema recorrente em Sant’Anna) e vai morar com ela, deixando esposa e filhos, num bairro distante do centro de Belo Horizonte. A violência do lugar e a separação depois de certo tempo de felicidade, o faz mais uma vez procurar um novo lar, mais simples do que o segundo. Mudanças de casa e de vida, de projetos para o futuro, é o tema que perpassa quase a totalidade dos contos.
No longo conto intitulado “Vibrações”, Sant’Anna narra diversos momentos de sua participação na International Writing Program, em Iowa, nos Estados Unidos, na década de 70. Aparecendo apenas como S (“S chegou a fazer anotações em, 1971, que agora retoma sem nenhuma pretensão afazer um romance.”) e mencionado outras personagens apenas com a inicial também, mesmo que saibamos a quem se refere, a narrativa parece ter uma forte influência de Roberto Bolaño, mais precisamente de Os detetives selvagens, inclusive pelo aparecimento de personagens reais em grande quantidade.
Em “O conto”, a reflexão sobre o fazer artístico coaduna-se com o enredo, em que uma jovem andando sobre uma passarela que cobre uma movimentada rodovia tenta desviar de um mendigo que vem em sua direção e segura seu braço. Passarela lembra passagens, mas também, como uma ponte, é uma ligação. O narrador tenta ligar as pontas, escapar das armadilhas que o cercam, desviando dos perigos de uma escrita que possa não ser bem realizada. Como o personagem, muitas vezes, o escritor não consegue escapar. O mendigo, porém, quer apenas se ligar com alguém, se unir aos outros. “Eu também sou gente”, ele diz, antes da triste decisão que toma, que não vou revelar aqui, que resolverá seu problema pessoal, mas criará problemas para as outras pessoas, afinal, não estamos sós. “Ela nunca mais seria a mesma”, depois daquilo tudo, assim como S, no conto anterior, jamais seria o mesmo após as experiências estéticas nos EUA.
Depois de alguns contos fracos, o bom e velho Sérgio Sant’Anna retorna com “A bruxa”, em que Clarice Lispector e Machado de Assis, bruxos maiores para o autor, aparecem como referência. Já em “Bastidores”, o narrador recria uma fantasia de infância através de uma peça de teatro, “como se uma ilusão também para sempre se materializasse”. “Caminhos circulares” e “O museu da memória” não me agradaram, mas fazem o papel de retomar as outras histórias com novos elementos, sempre frisando as lembranças do próprio Sant’Anna, que são a matéria-prima de todos os contos, conforme revelou em entrevistas.
“Ah, quando terá começado este verdadeiro eu?” é a frase derradeira, que nos joga lá para o início, para “O conto zero”, o começo do novo Sérgio, ou então para os outros livros deste inventivo escritor.

Cassionei Niches Petry é escritor e professor. Publicou Arranhões e outras feridas e Os óculos de Paula. Seu blog: cassionei.blogspot.com.

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