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Letras derramadas


por Cassionei Niches Petry

“Estava à toa na vida, o meu amor me chamou” para ler Leite derramado, o mais recente romance de Chico Buarque (Companhia das Letras, 200 páginas). Por ser o maior compositor do Brasil, parte da crítica o considera um aventureiro na literatura, esquecendo que letra de música também pode ser poesia. “Sou um artista brasileiro”, diz o eu-lírico da música “Paratodos”. Os livros comprovam a versatilidade desse artista.

“Como beber dessa bebida amarga” que é a literatura do Chico? Se nas músicas vemos um homem romântico ou engajado, principalmente contra a ditadura, nos livros os temas são psicológicos, o mergulho é mais profundo na mente confusa de seus personagens. Desde Estorvo, seu primeiro romance, o ponto de vista é quase sempre o do protagonista (exceção de Benjamim, narrado em 3ª pessoa) e o leitor não sabe até que ponto pode confiar na sua personalidade conturbada.

“O que será que será” que podemos esperar de um livro do Chico? Pois não espere nada “com açúcar com afeto” ao ler Leite derramado. “Tijolo com tijolo num desenho mágico” ele vai desenvolvendo a história através do protagonista, Eulálio d'Assumpção, ancião de 100 anos, cuja fala fragmentada nos revela boa parte da história do Brasil dos tempos do Império, passando por todo o século XX, ditadura, “num tempo, página infeliz da nossa história”.

O romance parece ser uma releitura da canção “O velho”. Diz a letra, escrita em 1968: “O velho sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega, com certeza, todo o peso de sua vida”. Em Leite derramado, Eulálio relembra fatos pessoais desses seus 100 anos de vida para uma mulher que, devido aos delírios provocados pelos medicamentos (aliás, há semelhanças com o romance Indignação, de Philip Roth), ora é sua filha ou sua neta, ora a enfermeira do hospital ou então Matilde, sua amada que morreu nos anos 30. Sim, as mulheres, não as de Atenas com “suas melenas”, mas as brasileiras, principalmente sua esposa, mulata que gostava de dançar maxixe, são presença marcante nessa narrativa. Pela fala de Eulálio vemos, também, a decadência de uma família tradicional brasileira, que começa com um barão do império e termina num garoto, o qual para o velho tudo indicava ter se tornado traficante.

“Ah, se já perdemos a noção da hora” é a sensação que temos ao ler a narrativa, daquelas que nos prendem e não conseguimos largar tão facilmente. “Joga pedra na Geni” quem nunca se deixou levar pela mão de um competente escritor, que nos carrega até os subterrâneos da alma de um personagem, na escuridão de seus pensamentos, até que gritemos “luz, quero luz”. “Meu caro amigo, me perdoe, por favor”, mas temos que admitir: Chico Buarque é sim um grande escritor.

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