Um evangelho diferente

Resenha para o Traçando Livros de amanhã na Gazeta do Sul.


“Então é Natal, a festa cristã”, canta Simone em uma das músicas mais executadas dessa época, versão de uma canção dos anos 80 de John Lennon. Referências pops são necessárias aqui na medida em que Jesus também é pop, basta ver, por exemplo, os jogadores de futebol mostrando por baixo da camiseta frases agradecendo a ele por fazer um gol ou o êxito que cantores evangélicos ou padres estão tendo ao louvá-lo. Falar sobre o Filho de Deus é garantia de sucesso.

Philip Pullman fala bem e mal ao mesmo tempo, como se pode perceber já no título do romance O bom Jesus e o infame Cristo (Cia. das Letras, 184 páginas, tradução de Christian Schwartz). Pullman, ateu militante, é autor da trilogia infantojuvenil Fronteiras do Universo, cujo primeiro volume, A bússola de ouro, foi adaptado para o cinema e causou polêmica até no Vaticano por retratar de forma crítica a Igreja Católica, representada na história por uma instituição chamada Magisterium.

O bom Jesus e o infame Cristo é uma espécie de evangelho apócrifo, que poderia figurar tranquilamente ao lado de, por exemplo, O evangelho de Maria Madalena ou O evangelho de Judas, livros descartados da Bíblia pelas autoridades eclesiásticas. O romance traz uma nova versão para o nascimento de Jesus Cristo, no caso, dos gêmeos, Jesus e Cristo. Diferentes no comportamento, o segundo torna-se uma sombra do primeiro, mas é quem vai anotar os passos do irmão, orientado por um desconhecido, talvez um anjo, para que os atos de Jesus se tornem as bases da nova igreja, mesmo que para tanto os fatos sejam distorcidos ou inventados. Um exemplo: na piscina de Betesda, em cujas águas pessoas com diferentes enfermidades esperam ser curadas, Cristo ouve falar de um suposto milagre de Jesus: “Mas ele curou uma pessoa, de fato”, disse o aleijado. “O velho Hiram. Vós vos lembrais. Ele disse ao velho que tomasse de sua cama e fosse para casa.” “Pura enganação”, opinou o cego. “Hiram foi até as portas do templo, voltou a se deitar e continuou sua mendicância. (...) Esmolar era a única coisa que sabia fazer.” Sabemos hoje que a versão do milagre foi a que prevaleceu.

A narrativa parece ser em certos momentos mera repetição das histórias bíblicas, mas alguns detalhes acrescentados pelo autor dão um toque especial ao texto e nos permitem ter uma visão diferente dos relatos. A concepção de Maria, por exemplo, foi descrita de uma forma que pode ser relacionada a uma conhecida lenda brasileira. Uma noite, a jovem está no seu quarto e ouve da rua a voz de um jovem que afirma ser um anjo. Ele a elogia chamando-a a mais bela das mulheres, agraciada pelo Senhor e pede para entrar. Atendido o pedido, ele diz que ela terá um filho. “Mas meu marido está fora”, ela diz. No que o anjo responde: “Ah, mas o Senhor quer que aconteça algo. Venho em nome dele justamente para isso.” Nessa noite, ela concebeu uma criança. Ou duas, como se verá depois. Esse relato não lembra a lenda do Boto Rosa, que engravidava adolescentes moradoras das margens do rio Amazonas? Explicação mitológica para uma gravidez “inexplicável”? Também curiosa, mas não surpreendente para um leitor mais atento, é a explicação realista dada à ressurreição de Jesus. Por isso os protestos dos religiosos contra o romance, apesar de as mensagens de Jesus serem reproduzidas.

O objetivo de Pullman foi mostrar como tudo o que se escreveu sobre o Filho de Homem pode ser uma fraude ou simples ficção, como qualquer outra história. O livro, aliás, pertence a uma coleção denominada “Mitos”, da qual também faz parte uma versão para a Odisseia, de Homero, escrita pela canadense Margaret Atwood. Pode parecer provocação, afinal a história bíblica é considerada pela maioria das pessoas no ocidente como verdadeira, ao passo que Ulisses e Penélope são vistos como seres ficcionais. Na verdade, a coleção põe no mesmo patamar duas histórias pertencentes a culturas distintas e que nos fazem refletir sobre as relações humanas, função de toda narrativa mitológica.

(Cassionei N. Petry é professor. Acreditava nas histórias dos evangelhos. Hoje prefere os mitos gregos. Escreve para o Mix quinzenalmente (ou escrevia, pelo menos até o texto de hoje) e diariamente no seu blog: cassionei.blogspot.com.)

Comentários

Anónimo disse…
esse livro esta cheio de mentiras
Cassionei Petry disse…
É óbvio, pois é uma obra de ficção.

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