segunda-feira, janeiro 31, 2011

The Battle of Los Angeles, Rage Against the Machine

Este álbum da banda Rage Against the Machine faz citações de trechos do romance 1984 em três faixas: "Testify", "Sleep Now in the Fire" e "Voice of the Voiceless".

domingo, janeiro 30, 2011

sábado, janeiro 29, 2011

Talking Book, de Stevie Wonder

Outro dos discos que contêm referências à 1984, de George Orwell. No caso, a música intitulada "Big Brother".

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Diamond dogs, David Bowie

Continuando a citar artistas que fazem referência ao romance 1984, este disco conceitual do Camaleão do Rock é baseado na obra. As letras fazem menção explícita à obra, como nas músicas "Big Brother" e "1984".

quinta-feira, janeiro 27, 2011

MCMLXXXIV, Van Halen

Estou relendo o romance 1984, de George Orwell, para a resenha da próxima quarta na coluna Traçando livros, e ouvindo álbuns que fazem alguma referência à obra. Hoje, ouço este disco do Van Halen, lançado justamente no ano de 1984, cuja capa é uma atração à parte.

terça-feira, janeiro 25, 2011

O arquivo


Um dos meus contos preferidos. Detalhe: o nome do personagem é com inicial minúscula mesmo.


O arquivo
Victor Giudice


No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.

Me rendo de novo

segunda-feira, janeiro 24, 2011

BBB e Narciso (texto revisto)

Metamorfose de Narciso, tela de Salvador Dali

Todos nós somos um pouco narcisistas, já dizia Freud. Uma das primeiras coisas que fazemos pela manhã é olhar para o espelho. Na maioria das vezes, nos assustamos com o que vemos. Começa aí todo o processo de cuidar da aparência e, num grau de narcisismo menor, a pessoa vai apenas lavar o rosto, escovar os dentes e pentear o cabelo. Em graus maiores, não se deixa nem o quarto sem aplicar uma maquiagem. Antes de sair de casa, mais uma olhadela no espelho. Na rua, até as vitrines das lojas servem para dar mais uma conferida no visual. Os vidros dos carros estacionados também servem. Vale tudo para cuidar da vaidade.

Muitos sabem o significado de narcisismo, mas poucos conhecem a história que deu origem à expressão. Na mitologia grega, Narciso, filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope, teve previsto pelo oráculo que sua vida seria longa, desde que nunca olhasse para si mesmo. Quando jovem, porém, ao passar por um lago, ele acabou vendo seu reflexo na superfície da água. Na versão de Ovídio, na obra Metamorfoses, Narciso ficou à beira do lago contemplando sua beleza até definhar e acabou se transformando em uma flor, a que se deu o nome de narciso. Em outra versão do mito, encantado com a figura na água, pensando que era outra pessoa, debruçou-se para abraçá-la e acabou morrendo afogado.

Os mitos tinham, entre outras funções, o objetivo de servir de ensinamento sobre fatos da nossa vida. No caso, há um alerta sobre os perigos da vaidade excessiva. O nome Narciso vem da mesma raiz grega da palavra narcótico. Ou seja, o culto exagerado da nossa beleza pode nos deixar entorpecidos e esquecer tudo e todos que estão ao nosso redor. O mais grave é se isso acontece na frente de milhões de pessoas.

O reality show Big Brother é o paraíso dos narcisistas. Nessa casa, com espelhos por todos os lados, os participantes deixam aflorar, no mais alto grau, seu lado eu-me-amo-não-posso-mais-viver-sem-mim, para lembrar uma música do Ultraje a Rigor. Eles não passam pelos espelhos sem dar uma olhada e dar um retoque no visual, com o acréscimo de que sabem que estão sendo assistidos. Eis um paradoxo interessante. Todo o narcisismo aplicado aqui não é apenas para si próprio, mas também para os outros. Ao mesmo tempo, narcotizados que estão por ser o centro das atenções, esquecem que estão sendo julgados e estão pouco se importando com o que o público, ou melhor, a massa, vai pensar sobre sua conduta na casa.

Nesse último BBB, os participantes estão acostumados a se exibir em público, seja posando para revistas femininas e masculinas, seja tirando a roupa na frente de uma webcam. Mesmo sendo acostumados a serem julgados pelos outros, mal sabem os riscos que tal exposição na mídia pode oferecer a sua imagem. Quantas pessoas não perderam empregos devido a fotos de gosto duvidoso postadas em redes sociais na internet? Se conhecessem a história do ser mitológico, saberiam que ser tão popular não é tão positivo, pois, como já filosofaram os Engenheiros do Hawaii: “o pop não poupa ninguém”.

sábado, janeiro 22, 2011

O suplemento Babelia, do jornal espanhol El País, tem sua milésima edição hoje. É uma das minhas leituras sagradas todos os sábados.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Anonymus Gourmet defende o livro impresso

Muita boa a crônica sobre o livro impresso escrita pelo J. A. Pinheiro Machado, o Anonymus Gourmet, na sua coluna de hoje em Zero Hora. Ele lembra, por exemplo, um episódio relatado pelo bibliófilo José Midlin:
"– Outro dia uma revista de informática quis me fotografar segurando um e-book – conta Midlin (...) – No dia marcado, o repórter disse: agora o senhor vai ver uma coisa maravilhosa. Mas na hora de ligar, o e-book não funcionou! Então, eu disse: isso nunca aconteceria com um livro!"
Mas como a coluna é de culinária, o Anonymus imagina a seguinte situação:
"Já pensou se fosse um e-book de receita culinária? A panela no fogo e... quantas colheres de açúcar tenho que acrescentar? Falha no e-book e a receita queima na panela... Inevitável o comentário conservador: se fosse um livro convencional de receitas, com as páginas pingadas de gordura, não aconteceria o desastre."
Aqui a crônica completa, mas apenas para assinantes de ZH.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Mestrado em Letras

Já que chorei as pitangas aqui por alguns fracassos, agora aproveito para comemorar que o Cnpq concedeu uma nova bolsa para o Mestrado em Letras da Unisc e, como eu era o primeiro suplente, fui contemplado. Ontem já me matriculei e farei o tão desejado curso. Só não poderei me dedicar exclusivamente aos estudos porque essa bolsa serve somente para pagar as mensalidades, mais de mil reais por mês, e não recebo nada além disso, diferente das bolsas do Capes.
Aí vem um detalhe: como o dinheiro não entra direto para a Unisc, mas na minha conta, preciso de um fiador que tenha renda de R$ 3.350,00. Algum ser humano que lê meu blog ganha essa fortuna aí?

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Viagens de Gulliver

Meu texto de hoje no Traçando Livros do caderno Mix do jornal Gazeta do Sul é sobre Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.
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Diálogo da relativa grandeza


O título dessa resenha é o mesmo de um conto do escritor José J. Veiga, em que duas crianças discutem se um rego d’água pode ser “um risquinho no chão, da grossura de um fio de linha”, ou se uma pilha de lenha é um monte de palitos de fósforos. Quando o menino pergunta qual a altura da menina, ela responde “um metro e vinte”, e ele afirma: “Em metro de anão. Ou metro invisível”.

Às vezes nos sentimos gigantes, seres superiores e indestrutíveis. Em outros momentos somos criaturas diminutas, por exemplo, frente a catástrofes como as que aconteceram no Rio de Janeiro. Ser grande ou pequeno é relativo, assim como nosso conhecimento ou nossa racionalidade. É sobre esses traços do ser humano que trata o romance Viagens de Gulliver (Peguin-Companhia das Letras, 446 pág., tradução de Paulo Henriques Britto).

O autor, Jonathan Swift, nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1667, e morreu em 1745. Foi padre anglicano, mas se notabilizou pelas cartas e panfletos satíricos, que criticavam a burguesia em favor do absolutismo. Em seu romance mais famoso, publicado em 1726, Swift ampliou seu leque de críticas à própria nobreza, aos conflitos religiosos, aos cientistas, aos filósofos, enfim, ao ser humano como um todo.

Lemuel Gulliver é um médico britânico que decide unir sua profissão ao desejo de viajar. Em sua primeira viagem, acontece um naufrágio do qual se salva, mas, ao despertar na beira da praia, percebe que está preso e rodeado por seres de 15 cm de altura, numa das cenas mais conhecidas da literatura. O lugar se chama Lilipute, uma nação em guerra com a ilha vizinha de Blefuscu, uma alegoria com a Inglaterra e a França, países em conflito na época. Nessa parte da história, Gulliver é criticado pelos liliputianos ao contar como funcionavam as questões políticas, sociais e éticas do povo inglês. Ele ignora a opinião deles, pois sua perspectiva é de quem se sente superior aos demais, representando a arrogância do ser humano.

Depois de voltar para casa, faz uma segunda viagem. Uma tempestade, no entanto, o leva a Brobningnag, terra de gigantes onde agora ele é minúsculo, sendo exposto como um animal raro. Aqui o personagem, por ser pequeno, nota com mais precisão as imperfeições do corpo humano, como manchas, feridas e os enormes piolhos. O ponto de vista revela a repugnância física pelo corpo, lembrando que Swift vivia em uma sociedade puritana. Denota também o ser humano inferior frente às coisas da natureza, como a enorme águia que, pensando que a caixa onde Gulliver vivia fosse uma tartaruga, a carrega até o mar. A caixa cai e ele acaba sendo salvo.

Na terceira viagem, piratas dominam o navio e o deixam em Laputa, onde a sede do governo fica em uma ilha flutuante. Aqui o exótico fica por conta dos exageros científicos do povo, que, segundo Gulliver, se esquece das questões práticas. Quando volta para a Europa, passa pela ilha dos magos, onde conversa com os fantasmas de celebridades históricas, como Aristóteles e Alexandre, o Grande.

A quarta viagem é interrompida, dessa vez por amotinados que o deixam num bote que vai parar no país dos Houyhnhnm, onde os cavalos são os governantes e possuem racionalidade. Já os Yahoos, criaturas semelhantes aos homens, são irracionais e puxam as carroças no lugar dos cavalos. A parte mais pessimista dos relatos, pois há uma crítica muito forte contra o ser humano. Segundo George Orwell, no excelente artigo presente nessa edição, Gulliver “concebe um horror à raça humana” e quando volta para a Inglaterra se torna um ermitão.

A obra teve muitas adaptações, em sua maioria trazendo a primeira parte apenas, inclusive na recente versão cinematográfica, com o comediante Jack Black como protagonista. Nesses casos, a obra perde seu poder, pois limita o campo das diferentes visões sobre o homem e ameniza as críticas e as passagens mais fortes do texto original para se tornar mais palatável ao público jovem.

Sátira, relatos de viagens, entretenimento, ficção científica, enfim, não importa o rótulo. O que importa é que a obra-prima de Jonathan Swift é leitura indispensável para entender esse ser às vezes gigante, às vezes inseto, ora racional, ora irracional: o homem.

Cassionei Niches Petry é professor. Ser insignificante na vida real, no mundo virtual é o gigante que governa o blog cassionei.blogspot.com. Também é a traça, inseto que devora livros para resenhá-los quinzenalmente aqui no Traçando Livros do caderno Mix.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Força, Scliar!


A ZH noticia que o Moacyr Scliar sofreu um AVC e está na UTI do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Tenho um carinho enorme por ele. Atencioso, jamais deixou de responder aos meus e-mails, me citou algumas vezes na sua coluna em ZH e, o mais importante, leu alguns contos meus e os elogiou. As palavras dele estão aí ao lado no blog. Resta-nos torcer para que tudo dê certo e que ele volte o mais rápido possível a nos brindar com seus textos.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Fala, mestre!

"O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. E o comunismo é exatamente o contrário."
Millôr Fernandes
As anedotas do Pasquim: uma antologia mundial de anedotas de salão, Volume 3.

domingo, janeiro 16, 2011

Fiquem com o "bondoso" D-uz!


Mais um trecho da Bíblia para refletirmos sobre a palavra do Senhor!
Deuteronômio 32
"36 - Porque o Senhor fará justiça ao seu povo e se arrependerá pelos seus servos, quando vir que o seu poder se foi e não há fechado nem desamparado.
37 - Então, dirá: Onde estão os seus deuses, a rocha em quem confiavam,
38 - de cujos sacrifícios comiam a gordura e de cujas libações bebiam o vinho? Levantem-se e vos ajudem, para que haja para vós escondedouro.
39 - Vede, agora, que eu, eu o sou, e mais nenhum deus comigo; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão.
40 - Porque levantarei a minha mão aos céus e direi: Eu vivo para sempre.
41 - Se eu afiar a minha espada reluzente e travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários e recompensarei os meus aborrecedores.
42 - Embriagarei as minhas setas de sangue, e a minha espada comerá carne; do sangue dos mortos e dos prisioneiros, desde a cabeça, haverá vinganças do inimigo.
43 - Jubilai, ó nações, com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança, e terá misericórdia da sua terra e do seu povo."

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Hoje minha filha faz 10 anos. O tempo passa de uma forma avassaladora em alguns momentos, mas é lento em outros. É o chamado tempo psicológico. Mas tenho certeza que aproveitei ao máximo esses 10 anos com minha filha e não me arrependo de nada. Sou um bom pai, modéstia à parte. Só no primeiro ano de vida dela, em que eu saía cedo de casa para trabalhar e depois ia direto para a universidade, ela praticamente não me via, pois estava sempre dormindo. Chegava a me estranhar no final de semana quando a pegava no colo. Nos anos seguintes, porém, recuperei o tempo perdido e hoje ela é bem apegada a mim.

Uma das vitórias que tive foi conseguir incutir nela o gosto pela leitura. Lia para ela antes de dormir e a presenteei com livros. Ela passou a adorar a leitura. Por consequência, tem uma excelente leitura oral e escreve bem para a idade.

Uma derrota é quanto à educação religiosa. Nesse ponto, a influência de outras pessoas da família - e também da escola, que deveria ser laica, mas não é - acabou levando-a à crença. Confesso que não me esforcei para fazer o contrário, pois quando tentei tive uma resistência muito forte da minha esposa. Hoje minha filha faz catequese, mas espero que um dia ela veja que ela está sendo manipulada. Quando chegar o momento, mostrarei que existe outras opções, e ela decidirá de acordo com sua opinião, como fiz, me livrando de um peso cultural muito forte.

Cheguei a esboçar esses dias uma carta para ela, inspirado em Richard Dawkins, que escreveu uma para a filha dele quando ela também estava fazendo 10 anos e foi publicada no livro O capelão do Diabo (Companhia das Letras). Mas uma reprimenda da minha esposa esses dias me fez desistir temporariamente. Disse ela que eu não devo falar para minha filha que sou ateu, pois pode confundir a cabecinha dela. Lavagem cerebral religiosa está liberado!

Segue o texto de Dawkins, que não “prega” o ateísmo para sua filha, como pensam os desavisados, apenas diz para ela questionar e tirar conclusões através de evidências. Nada mais do que isso.

Boas e más razões para acreditar

(Carta para sua filha Juliet)

Querida Juliet,

Agora que você fez dez anos, quero lhe escrever sobre algo que é muito importante para mim. Você já se perguntou sobre como sabemos as coisas que sabemos? Como sabemos, por exemplo, que as estrelas, que parecem pequenos pontos no céu, são na verdade grandes bolas de fogo como o Sol e ficam muito longe? E como sabemos que a Terra é uma bola menor, girando ao redor de uma dessas estrelas, o Sol?

A resposta para essas perguntas é “provas”. Às vezes “prova” significa realmente ver (ou ouvir, ou sentir, cheirar…) que algo é verdade. Astronautas viajaram longe o suficiente da Terra para ver com seus próprios olhos que ela é redonda. Às vezes nossos olhos precisam de ajuda. A “estrela-d’alva” parece uma sutil cintilação no céu, mas com um telescópio você pode ver que ela é uma linda bola — o planeta que chamamos de Vênus. Uma coisa que você aprende diretamente vendo (ou ouvindo, ou cheirando…) é chamada de observação.

Frequentemente, a prova não é só uma observação por si só, mas há sempre observações em sua base. Se aconteceu um assassinato, é comum ninguém (menos o assassino e a pessoa morta!) ter visto o que aconteceu. Mas os detetives juntam diversas observações que podem apontar na direção de um suspeito. Se as impressões digitais de uma pessoa coincidirem com as encontradas num punhal, isso é uma prova de que ela tocou nele. Isso não prova que ela cometeu o assassinato, mas pode ser uma informação útil, junto com outras provas. Às vezes um detetive consegue pensar sobre várias observações e então de repente perceber que todas se encaixam e fazem sentido se fulano de tal cometeu o crime.

Os cientistas — os especialistas em descobrir o que é verdade sobre o mundo e o universo — frequentemente trabalham como detetives. Eles dão um palpite (chamado de hipótese) sobre o que talvez seja verdade. Depois dizem para si mesmos: “Se isso realmente for verdade, devemos observar tal coisa”. Isso é chamado de previsão. Por exemplo, se o mundo realmente for redondo, podemos prever que um viajante que caminhar continuamente numa mesma direção acabará no ponto de onde partiu. Quando um médico diz que você está com sarampo, ele não olhou para você e viu sarampo. A sua primeira observação lhe fornece a hipótese de que você talvez tenha sarampo. Então ele diz para si mesmo: se ela realmente está com sarampo, devo encontrar… E ele então consulta sua lista de previsões e testa-as usando seus olhos (você está com pintas?), mãos (sua testa está quente?) e ouvidos (seu peito está com um chiado?). Só então ele toma a decisão e diz: “Meu diagnóstico é que essa criança está com sarampo”. Às vezes, os médicos precisam fazer outros testes, como exames de sangue ou raios-X, que ajudam seus olhos, mãos e ouvidos a fazer observações.

O modo como os cientistas usam provas para aprender sobre o mundo é muito mais engenhoso e complicado do que consigo dizer numa breve carta. Mas agora quero deixar de lado as provas, que são uma boa razão para crer em algo, e alertá-la sobre três más razões para acreditar em algo. Elas se chamam “tradição”, “autoridade” e “revelação”.

Primeiro, a tradição. Alguns meses atrás, fui à televisão para ter uma conversa com cerca de cinquenta crianças. Essas crianças foram convidadas por terem sido criadas segundo diferentes religiões: algumas como cristãs, outras judias, mulçumanas, hindus ou sikhs. Um homem com um microfone ia de criança em criança, perguntando no que acreditavam. O que elas responderam mostra exatamente o que quero dizer com “tradição”. Suas crenças não tinham nenhuma relação com provas. Elas simplesmente papagaiavam as crenças de seus pais e avós que, por sua vez, também não eram baseadas em provas. Elas diziam coisas como: “Nós, hindus, acreditamos em tal e tal”; “Nós, muçulmanos, acreditamos nisso e naquilo”; “Nós, cristãos, acreditamos numa outra coisa”.

Como todas acreditavam em coisas diferentes, nem todas poderiam estar certas. O homem com o microfone parecia achar que isso não era um problema, e nem tentou fazê-las discutir suas diferenças entre si. Mas não é isso que quero enfatizar no momento. Eu simplesmente quero analisar de onde vieram as crenças. Vieram da tradição. Tradição significa crenças passadas do avô para o pai, deste para o filho, e assim por diante. Ou por meio de livros passados através das gerações ao longo dos séculos. Crenças populares frequentemente começam de quase nada; talvez alguém simplesmente as invente, como as histórias sobre Thor e Zeus. Mas depois de terem sido transmitidas por alguns séculos, o simples fato de serem tão antigas as faz parecer especiais. As pessoas acreditam em coisas simplesmente porque outras pessoas acreditaram nessas mesmas coisas ao longo dos séculos. Isso é tradição.

O problema com a tradição é que, independentemente de há quanto tempo a história tenha sido inventada, ela continua exatamente tão verdadeira ou falsa quanto a história original. Se você inventar uma história que não seja verdadeira, transmiti-la através de vários séculos não vai torná-la verdadeira!

A maioria das pessoas na Inglaterra foi batizada pela Igreja anglicana, mas esse é apenas um entre muitos ramos da religião cristã. Há outras divisões, como a ortodoxa russa, a católica romana e as metodistas. Todas acreditam em coisas diferentes. A religião judaica e a mulçumana são um pouco diferentes; e há ainda diferentes tipos de judeus e mulçumanos. Pessoas que acreditam em coisas um pouco diferentes umas das outras vão à guerra por causa discordâncias. Então você talvez imagine que eles têm boas razões — provas — para acreditar naquilo que acreditam. Mas, na realidade, suas diferentes crenças são inteiramente decorrentes de tradições.

Vamos falar sobre uma tradição em particular. Católicos romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão especial que ela não morreu, mas acendeu ao Céu. Outras tradições cristãs discordam, e dizem que Maria morreu como qualquer pessoa. Outras religiões não falam muito nela e, de modo diferente dos católicos romanos, não a chamam de “Rainha do Céu”. A tradição segundo a qual o corpo e Maria foi levado ao Céu não é muito antiga. A Bíblia não diz nada sobre como ou quando ela nasceu; aliás, a pobre mulher mal é mencionada na Bíblia. A crença de que seu corpo foi levado ao Céu não foi inventada até cerca de seis séculos após a época de Jesus. No início, só foi inventada, da mesma forma que qualquer história, como “Branca de Neve”. Mas, no transcorrer dos séculos, ela se tornou uma tradição e as pessoas começaram a levá-la a sério simplesmente porque a história havia sido transmitida ao longo de tantas gerações. Quanto mais velha a tradição se tornava, mais as pessoas a levavam a sério. Ela foi por fim escrita como uma crença católica romana oficial muito recentemente, em 1950, quando eu tinha a idade que você tem hoje. Mas a história não era mais verdadeira em 1950 do que quando foi inventada, seiscentos anos após a morte de Maria.

Vou voltar à tradição no fim de minha carta, e olhá-la de outro modo. Mas antes preciso tratar das outras duas más razões para crer em alguma coisa: autoridade e revelação.

Autoridade enquanto razão para crer em algo significa acreditar porque alguém importante ordenou que você acreditasse. Na Igreja católica romana, o papa é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele deve estar certo só porque ele é o papa. Num dos ramos da religião muçulmana, as pessoas importantes são velhos barbados chamados de aiatolás. Muitos muçulmanos se dispõem a cometer assassinatos simplesmente porque aiatolás de um país distante deram essa ordem.

Quando digo que só em 1950 os católicos romanos foram finalmente informados que tinham que acreditar que o corpo de Maria havia subido para o Céu, quero dizer que em 1950 o papa disse que isso era verdade, e então tinha que ser verdade! É claro que algumas coisas que o papa disse ao longo de sua vida devem ser verdade e outras não. Não há nenhuma boa razão para você acreditar em tudo que ele diz mais do que você haveria de acreditar nas coisas que muitas outras pessoas dizem, só porque ele é o papa. O papa atual ordenou às pessoas que não controlasse o número de filhos que vão ter. Se sua autoridade for seguida com a obediência que ele deseja, os resultados poderão ser uma terrível escassez de alimentos, doenças e guerras, causadas por superpopulação.

É claro que, mesmo na ciência, às vezes nós mesmos não vemos as provas e temos de acreditar no que foi dito por outra pessoa. Eu não vi, com os meus próprios olhos, que a luz viaja à velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Mas acredito em livros que me dizem qual é a velocidade da luz. Isso parece “autoridade”. Mas na realidade é muito melhor que autoridade, porque as pessoas que escreveram o livro viram as provas, e qualquer um de nós pode examinar as provas com atenção no momento que quiser. Isso é muito confortante. Mas nem mesmo os padres afirmam que há provas para a história de que o corpo de Maria subiu para o Céu.

A terceira má razão para acreditar em algo é “revelação”. Se você tivesse perguntado ao papa, em 1950, como ele sabia que o corpo de Maria tinha subido ao Céu, ele provavelmente teria dito que isso lhe fora revelado. Ele se fechou num quarto e rezou, pedindo orientação. Sozinho, ele pensou e pensou, e na sua intimidade teve mais e mais certeza de suas ideias. Quando pessoas religiosas têm uma simples sensação de que algo deve ser verdade, mesmo que não haja provas de que o seja, eles chamam sua sensação de “revelação”. Não só os papas afirmam ter revelações. Isso também acontece com muitas pessoas religiosas. É uma de suas principais razões para acreditar naquilo que acreditam. Mas isso é bom ou ruim?

Suponha que eu lhe dissesse que seu cachorro está morto. Você provavelmente ficaria muito triste, e talvez dissesse: “Você tem certeza? Como você sabe? Como aconteceu?”. Suponha então que eu respondesse: “Na verdade, eu não sei se Pepe está morto. Eu não tenho provas. Só tenho uma sensação esquisita, bem dentro de mim, de que ele está morto”. Você ficaria muito zangada comigo por tê-la assustado, porque você sabe que uma “sensação” por si só não é uma boa razão para acreditar que um cachorro está morto. Você precisa de provas. Todos temos sensações e pressentimentos de tempos em tempos, e descobrimos que às vezes estavam certos, às vezes não. De qualquer forma, pessoas diferentes podem ter sensações opostas, então como decidir quem teve a intuição correta? O único jeito de ter certeza de que um cachorro está morto é vê-lo morto, ou ouvir que seu coração parou de bater, ou obter essa informação de uma pessoa que viu ou ouviu alguma prova de que ele está morto.

As pessoas às vezes dizem que devemos acreditar em sensações íntimas, senão você nunca teria certeza de coisas como “Minha esposa me ama”. Mas esse é um argumento ruim. Pode haver muitas provas de que alguém ama você. Durante todo o dia em que você está com alguém que a ama, você vê e ouve pequenas provas, e elas se somam. Não é somente uma sensação interior, como a sensação que os padres chamam de revelação. Há outras coisas para apoiar a intuição: olhares, um tom carinhoso de voz, pequenos favores e gentilezas; tudo isso serve de prova.

Certas pessoas têm forte sensação de que alguém as ama sem que isso esteja baseado em provas, e então é provável que estejam completamente enganadas. Há pessoas com uma forte intuição de que um astro do cinema está apaixonado por elas, mas na realidade o astro de cinema nem sequer as encontrou. Pessoas assim são doentes da cabeça. Sensações íntimas ou intuições precisam ser apoiadas por provas, senão você simplesmente não pode confiar nelas.

As intuições são valiosas na ciência também, mas só para lhe dar ideias que você então testa, procurando provas. Um cientista pode ter um “pressentimento” sobre uma ideia que ele “sente” estar correta. Por si só, isso não é uma boa razão para acreditar nela. Mas pode ser uma razão para passar algum tempo fazendo experimentos, ou à busca de provas. Cientistas usam a intuição o tempo todo para ter ideias. Mas elas não valem nada até que sejam apoiadas por provas.

Eu prometi que voltaria à tradição, para examiná-la de outro modo. Quero explicar o que a tradição é tão importante para nós. Todos os animais são construídos (pelo processo chamado de evolução) para sobreviver no local em que seus semelhantes vivem. Leões são construídos para sobre sobreviver nas planícies da África. O lagostim é construído para sobreviver na água doce, enquanto as lagostas são adaptadas para a vida na água salgada. As pessoas também são animais, e somos construídos para viver bem no mundo cheio de… outras pessoas. A maioria de nós não caça para obter comida, como as lagostas ou os leões; nós a compramos de pessoas que, por sua vez, a compram de outras pessoas. Nós “nadamos” num “mar de pessoas”. Assim como um peixe precisa das brânquias para sobreviver na água, as pessoas precisam do cérebro que as torna capazes de se relacionarem umas com as outras. Assim como o mar está cheio de água salgada, o mar de pessoas está cheio de coisas difíceis de aprender. Como a linguagem.

Você fala inglês, mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada um de vocês fala a língua que lhes permite “nadar” no seu “mar de pessoas”. A linguagem é transmitida por tradição. Não há outra alternativa. Na Inglaterra, Pepe é um dog. Na Alemanha, ele é ein Hund. Nenhuma dessas palavras é mais correta ou verdadeira do que a outra. As duas foram transmitidas ao longo do tempo, só isso. Para serem boas em “nadar no seu mar de pessoas”, as crianças têm que aprender a língua de seu país, e muitas outras coisas sobre o seu povo; e isso só quer dizer que elas precisam absorver, como papel mata-borrão, uma enorme quantidade de informações sobre tradições (lembre que essas informações são aquelas passadas dos avós para pais e deste para filhos). O cérebro da criança tem que absorver informações sobre tradições. Não é de se esperar que a criança consiga separar a informação boa e útil, como as palavras de uma língua, das informações ruins e tolas como acreditar em bruxas, demônios e virgens imortais.

É uma pena — mas não deixa de ser assim — que, por serem sugadoras da informação sobre tradições, as crianças possam acreditar em qualquer coisa que os adultos lhes digam. Não importa se é falso ou verdadeiro, certo ou errado. Muito do que os adultos dizem é verdadeiro e baseado em provas, ou pelo menos sensato. Mas se parte do que é dito é falso, tolo ou até malvado, não há nada para impedir as crianças de acreditarem naquilo também. E quando as crianças crescerem o que farão? Bom, é claro que contarão as histórias para a próxima geração de crianças. Então, uma vez que uma ideia se torna uma crença arraigada — mesmo que seja completamente falsa e nunca tenha havido uma razão para acreditar nela —, pode durar para sempre.

Será isso o que aconteceu com as religiões? A crença de que há um Deus ou deuses, crença no Céu, crença em que Maria nunca morreu, que Jesus nunca possuiu um pai humano, que as rezas são respondidas, que vinho se torna sangue — nenhuma dessas crenças é apoiada por boas provas. E, no entanto, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez isso ocorra porque elas foram levadas a acreditar nessas coisas quando eram tão jovens que aceitavam qualquer coisa.

Milhões de pessoas acreditam em coisas bem diferentes, porque diferentes coisas lhes foram ensinadas quando eram crianças. Coisas diferentes são ditas para crianças muçulmanas e cristãs, e ambas crescem totalmente convencidas de que estão certas e as outras erradas. Mesmo entre cristãos, católicos romanos acreditam em coisas diferentes dos anglicanos ou de pessoas como os shakers [adeptos da Igreja milênio] ou quacres, mórmons ou Holy Rolers, e todos estão plenamente convencidos de que estão certos e os outros errados. Acreditam em coisas diferentes exatamente pela mesma razão que você fala inglês e Ann-Kathrin fala alemão. Ambas as línguas são, em seu próprio país, a língua certa para se falar. Mas não pode ser verdade que religiões diferentes estão corretas em seus próprios países, pois religiões diferentes afirmam que coisas opostas são verdadeiras. Maria não pode estar viva na Irlanda do Sul (um país católico) e morta na Irlanda do Norte (que é protestante).

O que podemos fazer sobre tudo isso? Não é fácil para você fazer alguma coisa, porque você só tem dez anos. Mas você pode experimentar o seguinte. Da próxima vez que alguém lhe disser algo que parecer importante, pense: “Será que isso é o tipo de coisa que as pessoas sabem por causa de provas? Ou será o tipo de coisa em que as pessoas acreditam só por causa de tradição, autoridade ou revelação?”. E, da próxima vez que alguém lhe disser que uma coisa é verdade, por que não perguntar: “Que tipo de prova há para isso?”. E, se ela não puder lhe dar uma boa resposta, eu espero que você pense com muito carinho antes de acreditar em qualquer palavra daquilo que foi dito.

De seu querido Papai