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Viagens de Gulliver

Meu texto de hoje no Traçando Livros do caderno Mix do jornal Gazeta do Sul é sobre Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.
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Diálogo da relativa grandeza


O título dessa resenha é o mesmo de um conto do escritor José J. Veiga, em que duas crianças discutem se um rego d’água pode ser “um risquinho no chão, da grossura de um fio de linha”, ou se uma pilha de lenha é um monte de palitos de fósforos. Quando o menino pergunta qual a altura da menina, ela responde “um metro e vinte”, e ele afirma: “Em metro de anão. Ou metro invisível”.

Às vezes nos sentimos gigantes, seres superiores e indestrutíveis. Em outros momentos somos criaturas diminutas, por exemplo, frente a catástrofes como as que aconteceram no Rio de Janeiro. Ser grande ou pequeno é relativo, assim como nosso conhecimento ou nossa racionalidade. É sobre esses traços do ser humano que trata o romance Viagens de Gulliver (Peguin-Companhia das Letras, 446 pág., tradução de Paulo Henriques Britto).

O autor, Jonathan Swift, nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1667, e morreu em 1745. Foi padre anglicano, mas se notabilizou pelas cartas e panfletos satíricos, que criticavam a burguesia em favor do absolutismo. Em seu romance mais famoso, publicado em 1726, Swift ampliou seu leque de críticas à própria nobreza, aos conflitos religiosos, aos cientistas, aos filósofos, enfim, ao ser humano como um todo.

Lemuel Gulliver é um médico britânico que decide unir sua profissão ao desejo de viajar. Em sua primeira viagem, acontece um naufrágio do qual se salva, mas, ao despertar na beira da praia, percebe que está preso e rodeado por seres de 15 cm de altura, numa das cenas mais conhecidas da literatura. O lugar se chama Lilipute, uma nação em guerra com a ilha vizinha de Blefuscu, uma alegoria com a Inglaterra e a França, países em conflito na época. Nessa parte da história, Gulliver é criticado pelos liliputianos ao contar como funcionavam as questões políticas, sociais e éticas do povo inglês. Ele ignora a opinião deles, pois sua perspectiva é de quem se sente superior aos demais, representando a arrogância do ser humano.

Depois de voltar para casa, faz uma segunda viagem. Uma tempestade, no entanto, o leva a Brobningnag, terra de gigantes onde agora ele é minúsculo, sendo exposto como um animal raro. Aqui o personagem, por ser pequeno, nota com mais precisão as imperfeições do corpo humano, como manchas, feridas e os enormes piolhos. O ponto de vista revela a repugnância física pelo corpo, lembrando que Swift vivia em uma sociedade puritana. Denota também o ser humano inferior frente às coisas da natureza, como a enorme águia que, pensando que a caixa onde Gulliver vivia fosse uma tartaruga, a carrega até o mar. A caixa cai e ele acaba sendo salvo.

Na terceira viagem, piratas dominam o navio e o deixam em Laputa, onde a sede do governo fica em uma ilha flutuante. Aqui o exótico fica por conta dos exageros científicos do povo, que, segundo Gulliver, se esquece das questões práticas. Quando volta para a Europa, passa pela ilha dos magos, onde conversa com os fantasmas de celebridades históricas, como Aristóteles e Alexandre, o Grande.

A quarta viagem é interrompida, dessa vez por amotinados que o deixam num bote que vai parar no país dos Houyhnhnm, onde os cavalos são os governantes e possuem racionalidade. Já os Yahoos, criaturas semelhantes aos homens, são irracionais e puxam as carroças no lugar dos cavalos. A parte mais pessimista dos relatos, pois há uma crítica muito forte contra o ser humano. Segundo George Orwell, no excelente artigo presente nessa edição, Gulliver “concebe um horror à raça humana” e quando volta para a Inglaterra se torna um ermitão.

A obra teve muitas adaptações, em sua maioria trazendo a primeira parte apenas, inclusive na recente versão cinematográfica, com o comediante Jack Black como protagonista. Nesses casos, a obra perde seu poder, pois limita o campo das diferentes visões sobre o homem e ameniza as críticas e as passagens mais fortes do texto original para se tornar mais palatável ao público jovem.

Sátira, relatos de viagens, entretenimento, ficção científica, enfim, não importa o rótulo. O que importa é que a obra-prima de Jonathan Swift é leitura indispensável para entender esse ser às vezes gigante, às vezes inseto, ora racional, ora irracional: o homem.

Cassionei Niches Petry é professor. Ser insignificante na vida real, no mundo virtual é o gigante que governa o blog cassionei.blogspot.com. Também é a traça, inseto que devora livros para resenhá-los quinzenalmente aqui no Traçando Livros do caderno Mix.

Comentários

Mirella disse…
Estou ansiosa para assistir ao filme, esse novo com Jack Black.
Cassionei Petry disse…
Para você que é fã do Kiss, li que no filme o Jack Black monta uma banda cover do Kiss com os liliputianos.
Mirella disse…
HAHA Quero ver isso! Já adoro o Jack Black, então acho que será um bom filme. Veremos...

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