Avançar para o conteúdo principal

Ode ao indivíduo, ódio ao coletivo

Traçando livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul.


Versão Online do jornal


por Cassionei Niches Petry (Obediência 0- 0666)
Ayn Rand (1905-1982), filósofa norte-americana de origem russa, escreveu toda obra literária – que inclui A nascente e A revolta de Atlas (lançado recentemente pela editora Sextante) – para propagar sua filosofia, que se destaca, entre outros temas, pela crítica ao comunismo. Talvez por isso ela se tornou mentora dos neoliberais e sua obra é desprezada pela intelectualidade, cuja maioria é de esquerda.
O romance Anthem (Hino, em português), publicado em 1938, e ainda inédito no Brasil (P.S.: Há uma edição recente pela Vide Editorial com o título Cântico.), é ambientado numa sociedade no futuro em que foram abolidas as palavras “eu” e “tu”, bem como tudo que se refere à primeira e segunda pessoa do singular. Em quase todo o romance, menos nos capítulos finais, os personagens falam no plural. Diz o protagonista no seu diário: “Nosso nome é Igualdade 7-2521, como está escrito no bracelete de ferro que todos os homens usam em seus pulsos esquerdos. Temos vinte e um anos.” Tudo é decidido pelos conselhos e o lema é: “Somos um em todos e todos em um. Não há homens, mas somente o grande NÓS. Uno, indivisível e para sempre.” Nesse ponto, há semelhanças com uma das obras fundadoras da literatura distópica, o romance Nós, do também russo Yevgeny Zamyatin, que certamente deve ter inspirado a escritora.
Trabalhando como varredor, de acordo com a ordem do Conselho de Vocações, Igualdade 7-2521 encontra um túnel onde estão objetos abandonados, entre os quais lápis e papéis que o permitem escrever o diário. Por acaso, descobre a eletricidade e consegue acender uma lâmpada. Notem que ele não conhecia esse processo, visto que na sociedade em vive a luz é proporcionada apenas por vela. Seria a luz na escuridão do túnel a metáfora da busca pelo conhecimento? Ele leva a lâmpada para o Conselho dos Estudiosos, mas é condenado por ter feito uma descoberta sozinho, pois nada realizado fora do coletivo deve ser aceito. Ao tentarem prendê-lo, ele escapa para um bosque, junto com Liberdade 5-3000, uma campesina por quem era apaixonado.
Um dos momentos mais interessantes acontece quando os dois encontram uma casa no final do bosque. Acham-na diferente de todas as outras: é pequena, com apenas uma cama em um quarto, visto que estavam acostumados com dormitórios coletivos. Uma das salas, porém, mudaria suas vidas: “Encontramos uma habitação com paredes feitas de estantes, que continham fileiras de manuscritos desde o piso até o teto. Nunca havíamos visto tal quantidade, nem de uma forma tão estranha. Não eram leves nem estavam enrolados, tinham capas duras de tecido ou coro; as letras de suas páginas eram tão pequenas e parelhas que ficamos assombrados com estes homens que tinham tal caligrafia. Demos uma olhada e vimos que estavam escritos em nossa língua, mas encontramos muitas palavras que não podíamos entender. Amanhã começaremos a ler estes escritos.”
Eles desconheciam os livros, mas não a língua. E na leitura encontraram a palavra proibida: EU. Os capítulos finais justificam o título, pois o protagonista, que passa a se chamar Prometeu – o mortal que na mitologia grega roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens, causando a fúria de Zeus – escreve, agora na primeira pessoa do singular, um hino ao indivíduo. Eis um trecho: “Qualquer que seja o caminho que tome, a estrela que me guia está em mim; a estrela e a bússola que assinalam o caminho apontam somente em uma direção. Apontam até mim.”
Nossa sociedade não é muito diferente da descrita por Ayn Rand: ouvimos frases como “tudo pelo social” ou “temos que pensar no coletivo”; os governos criam conselhos reguladores; os livros como fonte de conhecimento estão sendo abandonados; falar em nome de uma coletividade é visto como atitude de grandeza; e em uma dissertação de mestrado, por exemplo, não é aconselhável o uso da primeira pessoa do singular. Pelo menos, nós ainda temos liberdade de nos expressarmos individualmente, mesmo correndo o risco de sermos taxados de reacionários ou insensíveis. Não concordam CONOSCO?
***
Nós, Obediência 0-0666, somos professor. Escrevemos esta resenha tendo como trilha sonora os álbuns de uma banda da qual somos fãs, o Rush, cujas letras, como “Anthem” e “2112”, escritas por Neil Peart, são inspiradas em Ayn Rand. Além de colaboramos quinzenalmente com o Mix, escrevemos no blog cassionei.blogspot.com.

Comentários

Mirella disse…
Já passou isso em aula, não? Lembro-me vagamente de algo bem parecido!
Cassionei Petry disse…
O que precisamente, Mirella?

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …