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No Traçando Livros de hoje, Paulo Roberto Pires


Na minha colaboração quinzenal com o jornal Gazeta do Sul, no caderno Mix, escrevo sobre o romance Se um de nós dois morrer, de Paulo Roberto Pires: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/379401-do_escritor_como_personagem/edicao:2012-11-21.html


Do escritor como personagem


     É o tipo de narrativa que gostaria de escrever. São fragmentos de cartas, e-mails, anotações e conferências de um escritor sobre seu fracasso na tentativa de produzir o segundo livro. Um romance em que a linearidade cede espaço às idas e voltas no tempo, num jogo literário em que o leitor é desafiado pelo escritor. São 117 páginas intensas, que tem a literatura como tema principal. A premiação é a presença do mestre Enrique Vila-Matas, o catalão autor do recente Ar de Dylan, como personagem. Os que sofrem do “Mal de Montano” agradecem. 
     Se um de nós dois morrer (Editora Alfaguara) é o segundo romance do editor e crítico Paulo Roberto Pires, depois de 11 anos do primeiro. Não fosse pela morte do protagonista, revelada já no início do enredo, poderíamos interpretá-la como uma ficção baseada na vida do autor.
    A história inicia quando Sofia encontra um envelope deixado pelo seu ex-companheiro Théo, recém-falecido, provavelmente por suicídio, dando instruções sobre o destino de suas cinzas. Depois de levá-las para jogar perto de túmulos de escritores famosos no Cemitério Montparnasse, em Paris, volta ao Brasil e encontra outro material deixado por ele, desta vez uma pasta contendo vários escritos e a orientação de ser entregue a Vila-Matas. “O que escrevi interessa antes de mais nada a mim e, talvez, quem sabe, a Enrique, colecionador que é de esquisitices literárias.” São essas anotações diversas, vila-matianas por excelência, o que atraem os aficcionados por literatura e podem, claro, afastar aqueles que desejam uma história de fácil digestão.
     No capítulo “O inventário da pasta”, temos o que poderia ter sido o segundo romance de Théo, mas não foi. Escritos em cadernos Moleskines, blocos, livretos e folhas soltas, os fragmentos são tudo o que restou daquilo que Théo tentou criar depois da primeira obra, na verdade a transposição para o papel de suas angústias e decepções. “Pois escrever, como o senhor bem sabe, pode ser nada mais do que um sofrimento”, afirma Théo em uma carta a seu editor. Na parte final, Sofia vai à FLIP, a festa literária da cidade de Paraty, à procura de Vila-Matas, para cumprir o último desejo do ex-namorado.
   Alguns críticos vêm tecendo comentários nada amistosos sobre escritores que realizam um tipo de literatura que se volta para a própria literatura, denominada metaficção. Propõem uma temática mais variada por parte dos autores, pois consideram que essa escrita autorreferente está se desgastando. Na verdade, Vila-Matas, Paulo Roberto Pires (que também é jornalista) e cia. escrevem não só para os seus pares, mas também para os leitores que gostam de tudo que se refere ao mundo literário. É uma possibilidade de tema que traz consigo uma infinidade de outros, afinal, o escritor, como personagem, é tão humano como os demais.
    Cassionei Niches Petry é professor, mestrando em Letras e escritor. Lançou seu primeiro livro, Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco), com alguns contos metaficcionais. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.
 

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