sábado, agosto 30, 2014

Dois anos de "Arranhões e outras feridas"



Há exatos dois anos, lançava meu primeiro livro, "Arranhões e outras feridas". Mesmo sabendo que tenho um longo caminho a percorrer, comecei, mesmo constrangido, a me denominar escritor, ainda mais lançando na Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Praticamente só amigos, colegas e familiares prestigiaram o evento o que me deixou feliz, mas, por outro lado, me inquietou por perceber que, mesmo sendo colunista de literatura do maior jornal da região, tendo colaborado com o jornal mais importante do RS e sendo dono de um blog com milhares de acessos mensais, as pessoas do meio cultural da minha cidade, com raras exceções, não consideram minha contribuição relevante para a literatura. Em alguns eventos que visito, poucos me conhecem e não têm ideia de quem seja o Cassionei. Faz parte do processo. O curioso é que meu nome já é mais reconhecido fora daqui, tanto que já fui convidado para participar como jurado da primeira fase do prêmio literário mais importante da língua portuguesa, troco informações com escritores, críticos e professores de várias partes do país e até fora dele, já tive até um post do twitter reproduzido no jornal El Clarín da Argentina, além disso fui entrevistado por uma rádio da capital e outros blogues repercutiram o meu livro. Se ainda não tenho o reconhecimento na minha cidade, talvez seja porque não fico puxando o saco de ninguém, sou comedido nas "curtidas" e comentários do facebook, não sou cara de pau de ficar convidando todo mundo para ser "amigo" por aqui, também não frequento bares, festas e afins e não consigo ir a muitos eventos culturais porque a maioria acontece à noite, e sou professor nesse período.
De qualquer forma, quem leu "Arranhões e outras feridas" fez críticas elogiosas a alguns contos. O que mais repercute é o conto “Ônibus”. Foi o livro de um estreante, publicado de uma forma que inviabilizou a divulgação na imprensa, a venda em livrarias ou a participação de concursos e chegou às mãos de poucos críticos literários, até porque somente pude enviar a eles em versão PDF. Porém, continua aí e começa a dar espaço para “Os óculos de Paula”, que será lançado brevemente. Aos meus leitores, obrigado, e espero não decepcioná-los no próximo livro.

terça-feira, agosto 26, 2014

Minha homenagem ao centenário de Cortázar

100 anos do Grande Cronópio

A obra do argentino Julio Cortázar nos conquista ao estilo de “Casa tomada”, um dos seus mais importantes contos. Nele, um casal de irmãos vê sua residência sendo invadida cômodo por cômodo, não se sabe exatamente por quem. O leitor se sente invadido como essas duas personagens ao ler Cortázar. Começamos com um conto, depois outro, após lemos os inclassificáveis textos dos cronópios, passamos por seus poemas, romances, cartas e, quando menos esperamos, nosso corpo está tomado de Cortázar, deixamos de ser nós mesmos para nos transformarmos numa espécie de anfíbio chamado axolote, num motoqueiro na cama de um hospital que sonha ser um ameríndio de séculos atrás e que por sua vez sonha estar dirigindo numa espécie de inseto veloz sobre rodas, ou então saímos vomitando coelhos, ou, talvez pior, vemos tigres caminhando pelos cômodos de nossa casa, enfim, nos metamorfoseamos em personagens cortazarianas.
Julio Cortázar dizia que, na nossa realidade, há sempre um mistério a ser descoberto. As histórias fantásticas e aparentemente fantasiosas que escreveu guardam essa perspectiva. O tempo parece passar de modo diferente no subterrâneo do metrô e, quando voltamos à superfície, podemos nos deparar com outra realidade. Numa ponte, misteriosamente podemos estar em Buenos Aires e nos transportamos para Budapeste. Vindos de portas escondidas atrás de armários em hotéis de qualquer cidade, pode-se ouvir sons estranhos e perturbadores. Cerimônias secretas podem acontecer numa escola durante a madrugada. Ao olhar as fotos de uma viagem, podemos ter uma surpresa não muito agradável. Um engarrafamento no trânsito pode durar semanas. Um bombom de licor feito por uma namorada pode não conter licor dentro. E você, leitor, pode estar lendo um romance em que há um assassino que vai matar alguém, e esse alguém é você mesmo.
Cortázar nos convida a jogar com ele, pulando as “casinhas” do jogo da amarelinha, apostando em uma loteria cujo prêmio é um cruzeiro de navio, lutando boxe, criando anagramas e palíndromos. Jogar com esse jovem que nasceu há exatos 100 anos é uma diversão fascinante. Vamos jogar juntos?

quarta-feira, agosto 20, 2014

No Traçando Livros de hoje, novo romance de Milan Kundera



A festa imperdível de Kundera

Indiscutivelmente, os romances e os livros de contos de Milan Kundera trazem algumas peculiaridades, entre elas, a divisão em sete partes. Destaca-se também a presença dos prefixos “in” ou “i” em algum dos seus títulos. Sua obra mais famosa é um exemplo: A insustentável leveza do ser. Prefixos de negação ou ausência revelam, de certa forma, os temas propostos pelo autor. No seu recente lançamento, A festa da insignificância (Companhia das Letras, 134 páginas, tradução de Teresa Bulhões de Carvalho Fonseca), há uma reflexão filosófica sobre ausência de algo relevante na vida cotidiana de quatro “heróis”: Alain, Ramon, Charles e Calibã.
Inseparáveis mesmo quando não estão juntos, os quatro amigos transitam pelas ruas, museus, praças e festas de Paris, refletem sobre umbigos de mulheres, as pessoas entediadas em um museu, sobre Stálin e o comunismo, o humor, anjos, o narcisismo: “Com D’Ardelo, você não está diante de um insignificante, mas de um Narciso. E preste atenção no sentido exato dessa palavra: um Narciso não é um orgulhoso. O orgulhoso despreza os outros. Os subestima. O Narciso os superestima, porque observa nos olhos de cada um sua própria imagem e quer embelezá-la.” Se o início do romance, a personagem Alain se pergunta no que há de sensual nas mulheres deixando à mostra seus umbigos, parte do corpo tão insignificante, o leitor percebe depois que é o “olhar para seu próprio umbigo” a tônica da história, ou das histórias que são contadas.
Insólitas muitas vezes, as narrativas que permeiam o livro tratam desse “eu-como-centro-do-mundo”. Stálin, por exemplo, presença direta ou indireta como sombra nos romances de Kundera, nos é mostrado como o típico ser humano que vive unicamente para si próprio e que gosta inclusive de ouvir falarem mal dele, pois mesmo assim é o centro das atenções. A personagem D’Ardelo, cuja festa de aniversário tem como convidados integrantes da burguesia parisiense, mente a Ramon que está com câncer só pelo prazer de ser lembrado por isso. Calibã, ator em decadência, trabalha como garçom na festa, auxiliar de seu amigo Charles, e finge ser um paquistanês para ser a atração exótica do evento, porém sem muito sucesso. Para serem o centro, as personagem se negam ou se tornam ausentes. Será por isso que Kundera não dá mais entrevistas e não se deixa ser fotografado?
Inevitável afirmar que A festa da insignificância é um pequeno grande exemplo de como se pode fazer Literatura, com L maiúsculo, de qualidade e com reflexões filosóficas, e ainda por cima ser um "best-seller". Não é o melhor de Milan Kundera, mas ele continua inventivo, intemporal, impagável.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula, que será publicado brevemente. Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

quinta-feira, agosto 14, 2014

Os 4 tipos de suicidas


Escrevi antes sobre o Robin Williams e não mencionei nada sobre ele ter se suicidado. Como vocês, leitores do blog, já sabem, o suicídio é um de meus temas de estudo, especificamente na literatura, mas que acaba desembocando também nas artes em geral. Não ia falar nada sobre a decisão do ator, porém ler e ouvir julgamentos que fizeram sobre o ato me deixa incomodado, principalmente pela desinformação de quem emite conclusões precipitadas.

Já li/ouvi gente dizendo para não termos pena de quem se mata, pois quem o faz é um covarde, egoísta e, claro, não pode faltar o famoso não tem Deus no coração. Há quem critica o fato de alguém alegar depressão, que isso não existe, é falta de uma boa chinelada e coisas do tipo. Temos bons números de psiquiatras e psicólogos exercendo a profissão sem ser formado.

Coincidentemente andei lendo alguns capítulos do livro “Demônio do meio-dia – uma anatomia da depressão”, de Andrew Solomon, e um deles trata especificamente do suicídio. Se conhecessem pelo menos essa obra, os falsos profissionais da saúde que andam fazendo diagnósticos por aí poderiam rever seus conceitos.

Destaco um trecho da obra, uma classificação bem sucinta de tipos de suicidas:


Os suicidas dividem-se em quatro grupos. O primeiro comete suicídio sem pensar no que está fazendo; é tão horrível e inevitável para ele quanto respirar. Tais pessoas são as mais impulsivas e as mais propensas a serem levadas ao suicídio por um evento externo específico; seus suicídios tendem a ser repentinos. Como o ensaísta A. Alvarez escreveu em sua brilhante reflexão sobre o suicídio, “O deus selvagem”, eles fazem “uma tentativa de exorcismo” da dor que a vida só consegue entorpecer aos poucos. O segundo grupo, meio apaixonado pela morte consoladora, comete suicídio como vingança, como se o ato não fosse irreversível. Sobre esse grupo, Alvarez escreve: “Esse é o problema do suicídio: é um ato de ambição que só pode ser cometido quando já se está além de toda ambição”. Essas pessoas não estão fugindo da vida, mas correndo para a morte, desejando não o fim da existência, mas a presença da obliteração. O terceiro grupo comete suicídio por uma lógica falha, em que a morte parece ser a única fuga de problemas intoleráveis. Eles consideram as opções e planejam seus suicídios, escrevem bilhetes e lidam com os aspectos pragmáticos como se organizassem férias no espaço sideral. Geralmente acreditam não somente que a morte vai melhorar sua condição, mas também que ela pode tirar um fardo das pessoas que os amam (a realidade costuma ser o contrário disso). O último grupo comete suicídio com uma lógica racional. Tais pessoas — devido a uma doença física, instabilidade mental ou uma mudança nas circunstâncias de vida — não querem a dor da vida e acreditam que o prazer que elas podem vir a sentir não é suficiente para compensar a dor. Essas pessoas podem ou não ter razão em suas prenúncias, mas não se iludem, e nenhuma quantidade de tratamento ou medicação antidepressiva as fará mudar de ideia.