Avançar para o conteúdo principal

Sobre Maleita, de Lúcio Cardoso


Logo no início da leitura do romance bate aquela inveja quando se sabe que o autor tinha entre 17 e 19 anos quando o escreveu. Maleita, de Lúcio Cardoso (Editora Civilização Brasileira, 236 páginas, esgotado), é um romance de estreia que está no mesmo patamar de outras obras publicadas durante os anos 30. Aí o escriba aqui, com quase 37 anos, que mal e mal escreveu dois livros de qualidade duvidosa, lembra que, na mesma época, outros autores escreviam suas primeiras obras antes dos 20 anos: Jorge Amado, com O país do carnaval, e Raquel de Queirós, com O quinze. Não tem como não me recolher à minha insignificância.
Cardoso escreveu a história inspirado no seu pai e o protagonista tem inclusive o mesmo nome. Em 1893, junto com sua mulher, Elisa, e um cozinheiro, Bento, mais outros agregados, Joaquim chega à localidade de Pirapora, em MG, a serviço de uma companhia de tecidos, para construir prédios e fazer crescer o lugar que fica às margens do Rio São Francisco. Enfrenta, no entanto, a resistência violenta de ex-escravos, incitados pelo mulato João Randulfo, pois o forasteiro impedia que eles seguissem seus costumes, como andar nus na beira do rio e fazer batuque, regado a muita bebida e orgias até altas horas da noite. “Os conflitos tornaram-se frequentes; os homens apareciam esfaqueados ou baleados pelos caminhos, sem que ninguém conseguisse achar o assassino. A tocaia era um meio seguro de se matar impunemente”.
O obstáculo maior, no entanto, são as doenças. Num primeiro momento, a malária, conhecida como maleita, a “doença infernal”, que inclusive leva sua mulher. Depois chega a varíola, que se espalha e deixa Pirapora isolada durante um tempo, levando os habitantes a passar fome, pois nenhum navio atracava na localidade por causa da peste. Joaquim, no entanto, segue forte, resiste, faz de tudo para salvar o povoado. É derrotado, porém, quando um político da vizinhança, o Coronel Tibúrcio Pedreira, consegue um “papel do governo”, nomeando justamente João Randulfo, que o apoiou nas eleições, para delegado de Pirapora. Seu inimigo, então, planeja a vingança: “Neste momento o mulato passava novamente, seguido por quatro ou cinco jagunços a cavalo. Em todas as faces eu li o mesmo olhar de ódio.” Joaquim decide, então, ir embora.
Lúcio Cardoso, que morreu em 1968, escreveria mais tarde romances de “sondagem interior”, de acordo com Alfredo Bosi, abandonando o naturalismo regionalista de Maleita. Crônica da casa assassinada, de 1959, sua obra-prima, será ainda objeto de análise aqui no blog.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …