"A Bíblia do Che", de Miguel Sanches Neto, no Traçando Livros de hoje


Na minha coluna no jornal Gazeta do Sul de hoje, caderno Mix, escrevo sobre o mais recente romance de Miguel Sanches Neto.

Do idealismo à corrupção

Carlos Eduardo Pessoa é um dos meus personagens preferidos da literatura brasileira contemporânea. Narrador e protagonista do romance A primeira mulher, o professor criado pelo paranaense Miguel Sanches Neto é dono de uma frase que resume minha profissão: “O bom professor de literatura é antes de tudo um carregador de livros.” Posso não ser um bom professor, mas sempre estou com minha pasta forrada desses objetos subversivos.
Pessoa volta à ativa em A Bíblia do Che (Companhia das Letras, 283 páginas), dez anos depois da última investigação em que se meteu. Morando em uma sala comercial, tentando se isolar o máximo possível de todo mundo, o antes mulherengo mestre deixou sua profissão e se abstém de encontros amorosos, porém não abandona os livros, que compra aos montes pela internet e depois doa para bibliotecas. Sua tranquilidade é quebrada quando Jacinto, um lobista que conheceu durante sua última aventura, consegue encontrá-lo e o contrata para descobrir uma Bíblia que supostamente seria de Che Guevara, com anotações do guerrilheiro quando esteve foragido em Curitiba. “Algo ligava aquele caso à literatura. Se não fosse necessário alguém com conhecimentos literários, contratariam um investigador de verdade.” A ficção a partir de personagens históricos vem sendo uma tônica na obra de Miguel Sanches Neto. Adolf Hitler, por exemplo, dá as caras no ótimo A segunda pátria.
Enquanto Pessoa empreende sua busca, Jacinto morre assassinado. O indivíduo que realmente desejava a Bíblia o procura e revela ser a esposa de Jacinto. Jovem idealista, admiradora de Che, Celina diz estar sendo perseguida, provavelmente pelos assassinos do marido, envolvido na Lava-Jato. O professor aposentado se sente rapidamente atraído por ela, após anos de celibato. A motivação agora é ajudá-la, em primeiro lugar a tentar descobrir quem matou o marido, em segundo lugar, a salvar a pele da mulher e a sua própria, e em terceiro, a levá-la para conhecer − enquanto empreendem uma fuga das pessoas ligadas ao escândalo de corrupção − os últimos lugares pelos quais passou Che Guevara na Bolívia. Na verdade, o que ele deseja mesmo é continuar indo para a cama com ela.
A busca pela Bíblia é um “MacGuffin”, expressão utilizada por Alfred Hitchcock para designar algo que move a trama em uma narrativa, mas cuja importância é discutível. O nó a ser desenrolado é provocado pelos crimes que envolvem políticos, empreiteiras e lobistas como Jacinto. A figura de Che é emblemática porque os envolvidos nesses escândalos atuais o tinham como herói na juventude durante a luta contra a ditadura. Hoje no poder, a luta é para lucrarem cada vez mais e Che é apenas um retrato na camiseta ou uma tatuagem no braço.
A expressão que dá título ao livro é ambígua, pois pode significar o objeto em si, um livro raro cuja existência é duvidosa, ou as regras de conduta inspiradas nas ações do guerrilheiro argentino e seguidas por milhares de pessoas ainda ingenuamente idealistas, que o veem como uma figura religiosa, como se percebe na fala de um senhor que o conheceu: “− Era Jesus Cristo. Não pela aparência, magreza, cabelos e barba compridos. Pelos olhos. Os olhos queimavam a gente. (...) Venho aqui para rezar a San Che.” Mais um bom romance de Miguel Sanches Neto que não pode faltar na sua biblioteca, caro leitor.

Cassionei Niches Petry é professor de literatura e escritor. Já foi um garoto que amava Fidel Castro e Che Guevara. Despertou na hora certa. É autor de um romance e um livro de contos, frutos ainda de seu idealismo ingênuo. Suas contradições podem ser lidas no blog www.cassionei.blogspot.com.

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