Quando a telenovela nos leva a um bom contista


Meu primeiro contato com os personagens de Aníbal Machado se deu através de uma novela de televisão, “Felicidade”, de 1991, no horário das 6, antes da novela das 7 “Vamp”, que era a preferida daquele pré-adolescente de 12 anos que sonhava em ser escritor. Chico Treva era o que mais me chamava a atenção. Pois foi nos créditos que me lembro de ter visto que a história era baseada na obra do escritor mineiro. Encontrei, para minha sorte, na biblioteca da minha escola, um exemplar dos seus contos, reunidos em A morte da porta-estandarte e outras histórias, da maravilhosa coleção “Sagarana” da José Olympio Editora, e fui apresentado a um grade contista. Pensando bem, acho que isso foi na reprise de 1998.
Reli alguns dos contos por estes dias, visto que estou seguindo, em ordem cronológica, uma lista de contistas que consta nos apêndices do livro Conto moderno contemporâneo, de Antonio Hohfeldt. Reli, por enquanto, apenas os cinco contos de Vila Feliz, de 1944 (na capa original consta como novelas). O primeiro, “O telegrama de Ataxerxes”, conta a história de uma família que abandona o sítio e vai para a capital federal, pois o pai lembra que o novo presidente da nação foi seu colega de escola e que ele lhe poderia dar um cargo. Morando em uma pensão, tenta escrever um telegrama para o amigo de infância, um interminável telegrama, mas depois não tem certeza se o enviou ou não. “Quem nunca teve no bolso ou no pensamento um telegrama com o pedido impossível?” é uma das frases derradeiras do conto.
Segue o conto “Acontecimento em Vila Feliz”, cuja protagonista, Helena, finge estar grávida e causa a ira da população, principalmente das mulheres que tinham inveja por ela ser a mais desejada da pequena cidade. “E se encantavam por ela, e por ela se desgraçavam.” É a trama principal da telenovela e é o conto em que figura o Quasímodo Chico Treva, que a salva de ser linchada. O Ataxerxes, do conto anterior, vira o pai da personagem na TV.
“O piano”, por seu turno, traz a história da família que tenta se livrar do instrumento velho que ocupa muito espaço, mas ninguém o quer. “- Está vendo, Rosália! Nem dado querem saber do nosso piano, nem dado!” A cena em que o pai leva o piano para jogá-lo no mar e antológica, tanto no conto, como na novela. “Tati a garota”, o texto mais poético, traz a menina cuja mãe, solteira, não sabe lidar com sua curiosidade e muito menos tem paciência para cuidar dela. O conto foi adaptado também para o cinema.
Por fim, “A morte da porta-estandarte” é um dos poucos contos da nossa literatura que traz um desfile de carnaval da Praça Onze, no Rio de Janeiro, como cenário, nos primórdios das escola de samba (estamos falando dos anos 40). Uma história trágica, como o título já indica, envolvendo um crime passional e que foi utilizada na novela global.
Inevitável, para mim, não deixar de relacionar os contos com a novela, cujo autor, diga-se, foi Manoel Carlos, que costuma inserir literatura em suas tramas. Nesse ponto, as telenovelas podem fazer um bem. Para mim fez.

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