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Com os olhos bem abertos


Um filme pode nos conquistar através das imagens elaboradas, que chamem bastante atenção na tela do cinema, ou através de um roteiro igualmente bem escrito, com diálogos inteligentes e, o mais importante, com um enredo bem fundamentado. O primeiro caso acontece quando a cena fala por si mesma, seja no sentido poético, seja na cor ou ainda nos efeitos especiais de impacto. Quanto ao roteiro, que é a base de tudo, ele vai atender a demanda de um determinado público, podendo ser simples, com começo, meio e fim bem delimitados, pegando um expectador que quer apenas entretenimento, ou mais do tipo quebra-cabeça, que requer um expectador ativo, que esteja disposto a pensar e não quer nada fácil e mastigado.

A origem (Inception), em cartaz no cinema, tem um pouco de tudo isso, salvo a linearidade. Na divulgação, a primeira coisa que me fez esperar com expectativa o filme foram as imagens baseadas no artista plástico M. C. Escher, como a cidade se dobrando sobre si mesma, as pessoas andando pelas paredes e tetos e passando por escadas labirínticas. O tema igualmente me interessou, pois se trata da possibilidade de invadir sonhos e mexer com o subconsciente das pessoas. Soma-se a tudo isso a mão de um diretor diferenciado - responsável por uma das experiências mais inquietantes a que assisti, o filme Amnésia (Memento) -, e teremos outra experiência do mesmo nível.


tela de M.C. Escher

Não se pode resumir muito coisa do enredo, com o risco de revelar as soluções do quebra-cabeça. Temos um invasor de sonhos, Don Cobb, vivido por Leonardo di Caprio, que trabalha no roubo de informações industriais escondidas na mente das pessoas. Contratado por um poderoso executivo, que lhe promete resolver um problema que o impede de ver seus filhos, Cobb tem que encarar seus próprios fantasmas interiores, ajudado pela novata “arquiteta” de sonhos chamada, não por acaso, Ariadne, mesmo nome da mulher que, na mitologia grega, ajudou Teseu a escapar do labirinto de Creta e salvá-lo do Minotauro, amarrando o herói num fio.

Invasor + mundo irreal versus mundo real + entrar e sair desses mundos dormindo e se conectando com outras pessoas + ação + efeitos especiais + referências mitológicas e filosóficas =... Alguém pensou em Matrix aí?

Essa nova missão, no entanto não é roubar, mas sim inserir uma ideia, como se fosse um vírus, no subconsciente no herdeiro de uma grande corporação empresarial, com o objetivo de fazê-lo seguir rumos diferentes no empreendimento da família. Nesse ponto paramos para refletir nos pequenos detalhes que modificam a personalidade, o caráter e as ideologias e nos perguntamos: e se tudo isso fosse possível? Seríamos talvez, presas fáceis do Estado, controlando nosso pensamento, ou então correríamos o risco de termos nossos segredos revelados e perderíamos nossa individualidade. Por outro lado, poderia ser uma ajuda para as pessoas resolverem seus problemas: Freud ou Jung adorariam essa possibilidade.

Falando na dupla de psicanalistas, o filme todo deve ser analisado por uma perspectiva psicanalítica, mas fazê-lo agora, aqui nesse espaço, seria revelar muita coisa. Primeiro vá assistir ao filme, leitor, e depois, quem sabe, se cartas e sinais de fumaça chegarem à redação, retorno neste espaço para conversarmos mais um pouco. Isso, claro, se nesse exato momento não estamos apenas dentro de um sonho conectado - eu sonho que estou escrevendo e você sonha que está lendo - e se não despertarmos...agora!

*

Escrevi o texto escutando o álbum The White Room, do The KLF, que poderia ser a trilha perfeita para o filme.

Comentários

tenho medo dessas coisas
aquele velho medo do desconhecido..
de estar num sonho, de nossas vidas serem um sonho..
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelo comentário. Viu que te citei no post anterior?
Mirella disse…
Se eu gostasse do Nolan e do di Caprio, até assistiria. Acho que, tão cedo, não crio coragem para assistir e fazer alguma crítica...

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