Avançar para o conteúdo principal

O castelo nos Pirineus

Uma história de amor ou um romance filosófico sobre a oposição ciência X religião? Para aqueles que não gostam de discutir questões filosóficas e religiosas, que é a proposta inicial do romance, podem ler O castelo nos Pirineus (Cia. das Letras, 177 páginas), de Jostein Gaarder, como uma história de amor. Confesso que li dessa forma, mesmo adorando debates sobre crenças.

Duas referências me levaram a isso. Primeiro, o romance de Gaarder me fez recordar da leitura de O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Marquez, que retrata dois antigos namorados revivendo uma paixão décadas depois do primeiro encontro. A segunda referência é um mito que aparece em O banquete, de Platão. Aristófones, comediógrafo grego, conta que nos primórdios éramos seres duplicados, separados depois pelos deuses. Essas almas, agora, buscam encontrar-se novamente, o que originou a expressão alma gêmea. Não acredito, no entanto, em metades que se completam, encaixe perfeito, a metade da laranja, mas sim em que polos diferentes se atraem, ou seja, o casal perfeito é aquele que não concorda com tudo.

Em O castelo nos Pirineus, o reencontro de Solrun e Steinn, 30 anos depois de terem acabado um namoro sem motivo aparente, resulta numa troca de e-mails em que tentam entender suas diferenças. Naquela época, eles teriam atropelado uma mulher, mas não tinham certeza disso, pois estava um pouco escuro, “um vago azul, tudo uma opaca vigília”. Por isso haviam seguido adiante, mas quando voltaram, viram apenas um cachecol vermelho, o mesmo que usava uma mulher que passara por ali. Sem conseguir localizar o corpo, ficaram durante dias apreensivos, com medo de serem presos. No entanto, em um passeio, acabaram vendo a mulher com a mesma roupa. Ela falou algo com eles e depois sumiu. Para Solrun, a visão de um espírito; para Steinn, uma alucinação dos dois.

Em entrevista, Gaarder afirmou que a protagonista da história é a “mulher-amora”, como os dois passaram a chamá-la. Percepção essa que o autor não conseguiu passar, pois ela é apenas uma referência para ambos, um fato marcante que revelou as discordâncias entre eles. O debate entre razão X fé que o autor queria promover com essa “aparição”, se perde num discurso didático dispensável, principalmente nos extensos textos em que Steinn justifica seu ceticismo através do discurso científico. Já a defesa da espiritualidade por parte de Solrun é vaga e confusa. Nesse ponto, Gaarder foi mais feliz quando escreveu O mundo de Sofia, conseguindo ser didático na medida certa para não atrapalhar a narrativa, pois quem compra um romance quer ler uma história, não um ensaio.

Para você, leitor, que gosta de se emocionar, O castelo nos Pirineus é uma boa pedida, uma história de amor comovente que pode arrancar algumas lágrimas no final.


Cassionei Niches Petry é professor e cético. Não acredita em espíritos e aparições, mas sim em sentimentos abstratos como o Amor.


***
Ouvindo a obra do conterrâneo de Gaarder, o compositor Edvard Grieg.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Um toque

Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses. Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello. O toque é a preliminar do prazer…