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Tem uma baleia na piscina de casa


Cassionei Niches Petry


Uns chamam de gibi, outros de história em quadrinhos ou simplesmente HQ. Em Portugal, se chama banda desenhada. Na minha infância, eram minhas fontes de leitura as revistas do Homem-Aranha, O incrível Hulk, Pato Donald e Cia., emprestadas da coleção dos meus tios. Esse tipo de narrativa, no entanto, não é só para crianças. Há as chamadas graphic novels, por exemplo, escritas para o público adulto, como as de Will Eisner, o qual também utiliza a expressão arte sequencial, segundo ele “um veículo de expressão criativa, uma forma artística e literária que lida com disposição de figuras ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma ideia”.

Uma dica para a Feira do Livro de Santa Cruz do Sul é justamente a HQ escrita pelo escritor Daniel Galera em parceria com o desenhista Rafael Coutinho. Cachalote, editado pelo selo de HQ da editora Companhia das Letras, traz narrativas paralelas, mas que têm em comum personagens que se deparam com o sentimento de perda e solidão.

Um decadente ator chinês acusado de assassinar um amigo, que na verdade se atirou da janela de um edifício; um escritor em crise criativa se encontra com a filha e ex-mulher, ficando mais próximos do que antes; um escultor escolhido para viver seu próprio papel em um estranho filme; um playboy sustentado pelo tio é obrigado por ele a ir morar na França para não se envolver sexualmente com sua tia; um vendedor de ferragens tem o fetiche de amarrar mulheres, mas se apaixona por uma com corpo frágil.

Às vezes explicativo de mais em alguns diálogos, outras vezes enigmático nas imagens - como a do cachalote em uma piscina - Cachalote não nos deixa indiferentes frente às máscaras dos atores da vida real, à distância de seres frios como esculturas, à fragilidade ou ao peso do ser humano. A narrativa gráfica deixa os finais das histórias em aberto, pois, como tudo na vida, ainda faltam muitos cacos para se juntar.


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