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Discurso de formatura do Ensino Médio do Colégio Luiz Dourado

P.S. do dia 15/12/2013: Este texto recebeu várias visitas nos últimos meses e, como resultado, encontrei alguns plágios em sites de escolas por aí.

Discurso elaborado para a solenidade de formatura do Ensino Médio do Colégio Luiz Dourado, de Santa Cruz do Sul, representando os paraninfos

Prezado Diretor, prezadas Vice-diretoras e demais membros da equipe diretiva; representantes da CRE e do Conselho Escolar; professores e funcionários do Colégio Estadual Prof. Luiz Dourado; formandos, pais, familiares, amigos e fantasmas que habitam este antigo auditório: saudações minhas e dos demais paraninfos.

“Lutar com palavras é a luta mais vã/ Entanto lutamos, mal rompe a manhã”, escreveu Carlos Drummond de Andrade. Chamo o poeta porque ele sempre me ajuda a iniciar um texto quando tenho dificuldade de encontrar o que dizer – dificuldade, neste caso, provocada pela emoção e também pela responsabilidade a que fui incumbido. Mesmo lutando todos os dias com as palavras, como professor e escritor, sou um eterno aprendiz. Aliás, estamos sempre aprendendo. Nós, professores, buscamos todos os dias novos conhecimentos para transmitir aos alunos e também para realização pessoal. Jamais paramos. Vocês, formandos, passaram boa parte de suas vidas na sala de aula aprendendo conosco. Agora que estão concluindo o Ensino Médio, não significa, logicamente, que não tenham mais nada para aprender. Usando o velho clichê (e este pequeno discurso vai estar repleto deles), isso é só o começo. Alguns vão para a universidade e, inclusive, já passaram no vestibular, motivo pelo qual damos os parabéns. Outros, procurarão o curso técnico em Hospedagem do colégio Luiz Dourado, uma das grandes conquistas do nosso educandário nesse ano de 2012. Há aqueles que querem descansar um pouco e refletir sobre o que fazer. Também há os que já têm alguma profissão e não pretendem continuar os estudos, mas com certeza precisarão se especializar nela em algum momento. 

É a escola da vida, meus caros (não disse que este discurso estaria cheio de clichês?). Se na aula de matemática 2+2=4, na matemática da vida 2+2 pode ser zero, 1, 2, 3, 4, 5 e depois ser multiplicado por netos e bisnetos; se na aula de física aprendemos que estamos firmes no chão devido à lei da gravidade, na física da vida podemos voar; se na aula de geografia uma sequência de montanhas se chama cordilheira, na geografia da vida uma sequência de montanhas são os obstáculos que temos que vencer; se na aula de química aprendemos que água e óleo não se misturam, na química da vida um metaleiro pode se apaixonar por uma pagodeira; se na aula de biologia aprendemos que o cérebro é que comanda nossas emoções, na biologia da vida é, na maioria das vezes, o coração quem manda; se na aula de português aprendemos que o verbo amar é um verbo transitivo direto e pronominal, no português da vida o verbo amar não obedece nenhuma regra; se na aula de literatura o romantismo foi um período estético do século XIX, na literatura da vida podemos ser românticos em todas as épocas; se na aula de educação física corremos atrás de uma bola, na educação física da vida precisaremos de fôlego para correr atrás dos objetivos; se na aula de filosofia aprendemos o cogito de Descartes, “penso, logo existo”, a filosofia da vida vai nos dizer “luto, logo existo”; se na aula de sociologia estudamos o que é uma classe social, na sociologia da vida trabalhamos para passar de uma classe social a outra; se nas aulas de espanhol e inglês aprendemos as ditas línguas estrangeiras modernas, a vida nos faz aprender o internetês, o politiquês e a tomar cuidado com as más línguas; se na aula de história aprendemos como a humanidade foi sendo construída durante os séculos, na vida aprendemos a construir a nossa própria história. 

Diz um dos versos da música “Playground”, da banda inglesa XTC: "Você pode deixar a escola, mas ela nunca deixa você”. No nosso caso, é o colégio que nunca vai sair de dentro de você. E isso posso garantir por experiência própria, pois também fui aluno do Luiz Dourado. Os ensinamentos que tive no colégio me ajudaram a ser o que sou. Tenho certeza de que vocês jamais esquecerão o que aprenderam. E se esquecerem, serão apenas as coisas que deveriam ser esquecidas.

Prometi que isso seria apenas um resumo das dezenas de páginas que poderiam durar horas para serem lidas, como os discursos de certo ditador latino-americano. Vocês já estão cansados de nos ouvir todos esses anos e agora querem comemorar. Mas lembrem que os professores, tanto os calmos como os irritados, os quietos e os faladores, os legais e os chatos, enfim, todos eles, torcem para que as sementes lançadas gerem bons frutos. Essa etapa é apenas o primeiro degrau da imensa escadaria que os fará chegar ao êxito nas suas escolhas. E para fechar esse amontoado de clichês, lá vai o último: apertem os cintos, pois o avião vai decolar. Boa viagem.
 


Comentários

Carlinus disse…
Muito bonito, Cassionei!

P.S. Diga-me uma coisa: o que significa e em que consiste a mudança de nome de seu blog?

Abraços!

Cassionei Petry disse…
Obrigado, Carlinus.
Quanto ao novo nome do blog, há um post mais abaixo explicando.
Abraços.

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