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Diário crônico IV – Crônica de um fracasso anunciado



Enquanto digito este texto, na verdade revisando o que leitores mais antigos do blog já devem ter lido, ouço um som que é música para meus ouvidos. Instalei no computador um programa que imita o martelar das teclas de uma máquina de escrever. Quando jovem leitor, já sonhando com uma carreira literária, me imaginava varando a madrugada, fumando cachimbo, bebendo muito café e batendo sem parar numa Olivetti aquilo que poderia ser uma obra-prima.
Hoje a realidade é diferente. Não entro madrugada adentro porque sou casado, preciso deitar cedo, trabalho no outro dia de manhã, etc. Também não fumo cachimbo, pois minha esposa não gosta do cheiro. O café é meu companheiro inseparável. Muito café. Quanto à máquina de escrever, nunca tive uma e, claro, o computador é muito melhor e mais prático. Em relação à obra-prima, vejo distante esse desejo. Os livros que lancei até agora foram rotundos fracassos, agradando a um e outro leitor. Longe do que alcançou, por exemplo, o autor que inspira o título desse diário crônico e que nos deixou há poucos dias.
Imagens de escritores escrevendo em velhas máquinas Remington ou Underwood são minhas favoritas nos filmes a que assisto, assim como gosto de ler obras em que um personagem é escritor e está escrevendo. A literatura é um grande tema, por mais que alguns críticos não vejam com bons olhos que ela se volte sobre o próprio umbigo. Gosto de literatura, pauto minha vida por ela e não seria nada sem ela. Sim, não seria nada. Em que pese ser um bom pai de família, sou dispensável. O homem da casa sempre o é. Como professor, me considero medíocre, apesar de elogios vez ou outra ao meu trabalho. Em outras profissões também fui um fracasso, principalmente na marcenaria, dom que meu pai tem, mas não passou para seu filho mais velho.
Vejo um fracasso também na minha carreira como escritor. Publiquei um livro de contos e um romance, este somente em versão e-book. A literatura que eu faço, porém, vende muito pouco e, num meio editorial em que o que vale é o dinheiro e o marketing, não tenho muito espaço. Salvo se meus poucos e qualificados leitores façam uma divulgação boca a boca, se é que mereço.
O fracasso é um dos temas romance Aire de Dylan, do Enrique Vila-Matas, além da metaliteratura que é de praxe na obra do escritor espanhol, um dos autores que mais estou lendo nos últimos anos. Não acho ruim falar de fracasso ou se considerar um fracassado. Antes ser fracassado, porém fazendo o que se gosta e com qualidade, do que ser um sucesso produzindo mediocridade passageira. Das teclas do meu computador, desejo que saia algo que mire um alto padrão. Posso não conseguir, estou longe disso, no entanto é meu objetivo.

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