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“O terceiro homem”, obra-prima do cinema noir



O filme tem Orson Welles como ator e apenas por isso já valeria assisti-lo. Sou fã de seus filmes como diretor e o considero um gênio. Já escrevi um longo artigo sobre “F for Fake” (conhecido em português como “Verdades e mentiras”), que pode ser lido aqui no blog (no Cineplayers). “Cidadão Kane” é um dos melhores filmes de todos os tempos. E sua adaptação de “O processo”, do Kafka, é uma obra-prima esquecida, com Gregory Peck fazendo o papel de Joseph K. Não sei por que ainda não havia visto “O terceiro homem”, baseado em uma história de Graham Greene, porém, nunca é tarde.

Temos no início desse filme, dirigido por Carol Reed e lançado em 1949, um narrador descrevendo a cidade de Viena pós-Segunda Guerra Mundial, o mercado negro e o policiamento formado por quatro nações divididas por zonas, informações importantes para entender a história. O narrador também nos apresenta Holy Martins, “chegando feliz da vida e duro como nunca” dos Estados Unidos a convite do amigo Harry Lime para trabalhar com ele. Acontece que o amigo acabou de morrer em um acidente. No entanto, informações desencontradas de pessoas conhecidas de Lime o levam a desconfiar das circunstâncias da morte e investigar o que realmente ocorreu.

Holy é escritor de livros populares, de faroeste, e, em uma das cenas é convidado para uma palestra. A plateia, porém, lhe pergunta sobre James Joyce, fluxo de consciência, influências literárias... Por mostrar desconhecimento, o público vai embora. Ele é o cara errado no lugar errado, assim como não deveria estar em Viena envolvido na trama que envolve a morte do seu amigo.

Acaba descobrindo, por meio de um policial, que Harry era responsável por vender no mercado negro penicilina adulterada, gerando a morte e doença de dezenas de pessoas, principalmente crianças. Por isso, decide ajudar a polícia a resolver o caso e, de quebra, buscar inspiração para um novo romance. Por falar em romance, Holy se apaixona por Anna, namorada de Lime, paixão, em princípio, não correspondida. Aliás, no final do filme acontece uma das cenas mais lindas da história do cinema, na minha modesta e não tão qualificada opinião. Procurem assistir e me respondam depois se concordam.

Não quero revelar muita coisa do enredo, cheio de reviravoltas e surpresas. Registro, no entanto, mais uma aparição magistral e hipnotizante de Orson Welles, que, das poucas vezes em que aparece no filme, comprova sua importância para a história do cinema. Diz-se, inclusive, e ele próprio confirmou em entrevistas, que as cenas em que atua teriam sido dirigidas por ele e não por Carol Reed, o qual, por sua vez, desmentiu a afirmação. Mais uma polêmica envolvendo o cineasta ou, simplesmente, mais um jogo de verdades e mentiras de sua vida.

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