Rubem, “o velho que acordou menino”, morreu menino




Sou obcecado pelo suicídio. Não penso em cometer nenhum atentado a minha própria vida, que fique bem claro, mas me interessa estudar esse ato, entendê-lo, principalmente quando aparece na literatura ou quando algum escritor o comete. Pensei no tema quando fiquei sabendo da morte do educador, cronista, médico de almas e professor de espantos Rubem Alves. Sei, caro leitor, sei que ele não se matou. Bem pelo contrário. Ele amava a vida. Por isso também escreveu sobre a morte voluntária.

Em uma crônica presente no volume Teologia do cotidiano, Rubem Alves, inquieto com a notícia de crianças entre 5 e 14 anos que se atiraram das sacadas de seus apartamentos em Hong Kong, tentou entender o motivos que as fizeram escolher o suicídio. Conclui o texto afirmando que “se lhes tivesse sido dado uma chance de viver é possível que se tivessem transformado em poetas... O seu último gesto, na verdade, foi um poema sem palavras. Lançaram-se no vazio, quiseram transformar-se em pássaros...”

Ao escritor foi dada a chance de viver durante 80 anos, tendo sido pastor presbiteriano, teólogo, psicanalista, professor, até que decidiu ser apenas poeta, não dos que escrevem poemas, mas dos que criam crônicas, histórias para crianças, textos sobre a arte de ensinar. Transformou-se em pássaro lançando sementes por onde passava e aonde seus livros chegavam.

Tive, tenho, uma relação de amor e ódio com o Rubem Alves. Já critiquei em outros momentos o que ele escrevia sobre educação, talvez porque, sendo ele um provocador, me fez repensar várias ideias conservadoras que eu tinha sobre ensinar. Sabia, porém, que suas maluquices eram impossíveis de pôr em prática. Eram utópicas. Pois eram essas utopias que me fizeram ser professor. Gostaria de ser um professor como ele quando me formei na universidade. O dia a dia da sala de aula, no entanto, acabou me reformando. Se o leio de novo, tento me deformar.  A realidade, porém, me põe ao chão mais uma vez.

Por isso sinto que me suicido toda vez que tento ser um professor de espanto e não consigo. Volto para a gaiola, onde é mais confortável, porém busco de novo a liberdade. E é sempre a voz do mestre que me vem à mente: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais...” 
Rubem, “o velho que acordou menino”, morreu menino. Suas palavras, espero, não deixarão que cometa suicídio o menino que há dentro de mim.

Comentários

charlles campos disse…
Belo texto! Só acho que talvez tenha querido dizer morte 'voluntária', no fim do primeiro parágrafo.
Cassionei Petry disse…
Obrigado, Charlles, corrigi.

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