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Bauman foi mais esperto (XVIII)

“A literatura, pelo pouco que sei dela, nasce quem sabe de uma forte tendência à incomunicação ou à má comunicação. Um escritor de ficções é alguém que na vida cotidiana muito raramente pode comunicar o que sente, seus medos, suas admirações, suas paixões, seu amor. É algo assim como um olhar de surpresa ante o real de que falavam os gregos: o que ao filósofo lhe permite refletir e, ao escritor, escrever. O único lugar onde um homem que escreve se comunica é em seus livros, e são suas personagens que falam por ele.”  Abelardo Castillo, em “Ser escritor”. A tradução deste trecho é minha. Aliás, é um grande escritor argentino ainda não traduzido por estas bandas.

Quando tu te dás conta de que algumas pessoas desfizeram "amizade" contigo no Facebook, pensas no por que disso e é reafirmada a convicção de que estás no caminho certo. Não estás lá para agradar ninguém. Apesar de louco para sair, continuas lá porque é uma forma de compartilhar o que escreves, tuas opiniões, tuas angústias, tuas elucubrações, que bem poderiam estar guardadas na gaveta. Ainda resistes neste mundo de bajuladores e espertos. Até quando?


"A diferença é que escrevo. Mas que diferença isso realmente faz? Para eles, nenhuma. É só um hábito. Para mim, toda. O caderno me serve de proteção (casca). A escrita delimita e protege. A escrita cuida: caráter curativo da escritura. Só quem não se agarra ao que escreve não pode sentir isso. A escrita como salvação? Não salvação, mas localização. Ao escrever, eu me situo. Eu me visto de mim. Volto a mim, como alguém que volta de um desmaio." José Castello

Um texto meu foi publicado no "Letras in.verso e re.verso": http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/05/alta-literatura-ou-literatura.html

"Uma Mente Brilhante" é uma biografia de John Nash, escrita por Sylvia Nassar. Foi adaptada para o cinema por Ron Howard. Russell Crowe faz o papel de Nash, que morreu ontem em um acidente de carro. A leitura do livro, bem como o filme, serviram de inspiração para a construção de um dos personagens de "Os óculos de Paula". Eis um trecho do meu romance, com uma citação retirada da biografia.:

Alguém compartilha aquele vídeo da professora que canta e samba para explicar o uso do "porquê" e escreve na descrição a palavra de forma errada. É a prova de que o "recurso didático" não funciona.


Estou nas primeiras 120 páginas do romance “Minha luta”, de Karl Ove Knausgård. É bom, mas não tanto como dizem e redizem por aí.

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