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Feira do Livro: sob as árvores ou sob os telhados de zinco?

Crônica minha na página de opinião do jornal Gazeta do Sul de hoje.

Seu José passava pela Praça Getúlio Vargas. Iria a uma loja comprar um presente para a esposa. Viu algumas barracas e gente circulando por elas, mexendo em espécie de balaios, folheando livros. Alguns indivíduos, parecendo um pouco loucos, até cheiravam as páginas. Crianças num palco ao lado riam com uma apresentação de teatro infantil. No outro lado, uma bruxa boazinha encantava outros pequenos com suas histórias. Mais adiante, jovens concentradíssimos jogavam xadrez. “Que mundo é esse que eu não conhecia?”, perguntou Seu José ao homem alto, cabelo comprido, que com uma caderneta nas mãos compunha um poema escorado na grade do chafariz. “É o mundo mágico da Feira do Livro, meu senhor”, respondeu o poeta. Seu José acabou levando um presente diferente para sua amada: um livro de poesias devidamente autografado pelo grande escritor.
O relato é fictício, mas baseado na realidade. Já escrevia o bardo Castro Alves: “A praça! A praça é do povo/ Como o céu é do condor/É o antro onde a liberdade/ Cria águias em seu calor!” É ali que a cidade se encontra, é ali o palco de manifestações, é ali que os moradores se sentam para tomar seu chimarrão e conversar. É ali que algum desavisado que não conhecia o objeto chamado livro poderia passar a conhecê-lo. No entanto, a Feira não será mais na Praça. Por motivos econômicos, práticos e, por isso, compreensíveis, a Praça deixará de abrigar nosso maior evento literário. Pessoas como Seu José dificilmente passarão por acaso nas suas bancas. A magia perderá um pouco do seu brilho. Agora somente os interessados vão frequentar a Feira. Leitores já formados ou em formação através das escolas serão talvez os únicos frequentadores, mesmo que o ingresso continue sendo gratuito.
Curiosamente, o patrono deste ano é o escritor Lira Neto, biógrafo de Getúlio Vargas, que dá nome a também chamada Praça da Matriz. Justamente neste ano decidem mudar o lugar da Feira. Segundo a reportagem do jornal Gazeta do Sul, a organização atende a um pedido de alguns livreiros, que sentem o faturamento diminuir nos dias de chuva, apesar da cobertura já implementada nos últimos anos. Atendem também a alguns professores que consideram perigoso o movimento de carros ao redor, como se em volta das escolas não existisse tráfego. Estacionamento de carros e ônibus é outro quesito que pesou na escolha, mas é a economia na estrutura do evento o principal motivo. O dinheiro que sobraria serviria para trazer outros autores (de fora, claro, pois os escritores locais não têm custo algum).
É a falta de dinheiro para a cultura que fala mais alto. Vamos torcer para que tudo dê certo, esperando que não se repita o que aconteceu com a Jornada Literária de Passo Fundo, que passou de sua lona colorida de circo para estruturas metálicas e, agora, tem o seu cancelamento anunciado. Há poucas semanas, em Caxias do Sul, aconteceu uma campanha liderada por escritores e leitores para que a Feira de lá não saísse da Praça Dante Alighieri. Parece que deu certo. Não vou liderar nada por aqui, até porque não é o meu perfil e até entendo os organizadores do evento. No meu íntimo, porém, preferiria continuar circulando por debaixo das árvores de nossa Praça a andar por debaixo dos telhados de zinco de um pavilhão esportivo.

Cassionei Niches Petry – escritor.

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