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Uma toca, um refúgio


Quando me sento à frente da tela branca do computador, aciono o “qwertick”, aplicativo que simula o som de uma máquina de escrever enquanto digito. Esse som é música para meus ouvidos. Quando sonhava em ser escritor, me imaginava num quarto cheio de livros, iluminado por um abajur, bebendo muito café, fumando cigarro ou cachimbo, varando a madrugada e martelando uma máquina de escrever (Remington, Olivetti, Underwood, tanto faz), criando um mundo só meu, que seria depois bisbilhotado por algum leitor. Imagens de escritores escrevendo em velhas máquinas são minhas favoritas nos filmes a que assisto, assim como gosto de ler obras em que um personagem é escritor. A literatura é um grande tema, por mais que alguns críticos não gostem dessa escrita autorreferente por considerarem-na repetitiva.
Agora me acomodo na minha toca para escrever a coluna “Traçando Livros”, ponho a xícara de café ao lado, muito café (faz parte do ritual) e fico na dúvida sobre qual livro comentar entre tantos que li nos últimos dias. A propósito, finalmente achei um nome para a garagem da minha casa que transformei em biblioteca e é o meu local de escrita (David Foster Wallace também fez da garagem o seu lugar de trabalho, mas foi onde, no entanto, acabou se enforcando). Chamava antes de “meu cantinho” ou “meu quartinho”. Reluto em chamá-lo de biblioteca, escritório ou gabinete. É pomposo demais. Pensei em denominar “bunker”, caverna, paraíso e tantos outros nomes que minha pouca memória me impede de referir. Optei por “toca”, que dialoga com uma novela de Frank Kafka, A construção, traduzida por Modesto Carone e editada pela Companhia das Letras, junto com a coletânea de contos Um artista da fome.
O narrador da história é, curiosamente, uma espécie de toupeira. É o que se presume através de um monólogo em que a personagem relata a construção de vários túneis no subsolo, tentando escapar de inimigos do exterior e do interior da terra. Para tanto, estoca víveres para se alimentar em momentos de fuga e cava falsos buracos para enganar os adversários. O meu trabalho de traça, que faz túneis em livros e grifa o que há de mais importante nas leituras, é comparável à atividade da personagem kafkiana. Nessa minha toca onde leio e escrevo, cavo túneis e mais túneis, fugindo de coisas externas que podem não me fazer bem ou que atrapalhem minha paixão pelos livros. Fujo também dos meus monstros interiores. Ao menos tento derrotá-los ou somente ludibriá-los através da literatura. As minhas provisões são os livros, estocados por todos os cantos e que me servem de alimento. Aqui vivo “em paz, aquecido, bem alimentado, único senhor de um sem-número de corredores e recintos”. Isso enquanto alguém nas proximidades não resolve pôr o volume de seu som nas alturas. “Mas a coisa mais bela da minha construção é o seu silêncio. Certamente ele é enganoso. Pode ser interrompido de repente e então tudo se acabou. Por enquanto, porém, ele ainda continua.”
Acabei escrevendo, de certa forma, algo sobre um livro. Mais um “Traçando Livros”, portanto, está pronto. Penso, às vezes, em parar de escrever esta página. Bate às vezes aquela frustração aqui dentro da toca, meus inimigos externos e internos me desestimulam. As leituras vão se acumulando (já são trinta livros lidos desde o início deste ano), não mais, porém, do que a pilha de livros que não foram lidos ainda. “Comprar livros seria uma coisa boa se a pessoa também pudesse comprar o tempo para lê-los”, teria escrito Arthur Schopenhauer. Não apenas compro livros como também os recebo, de editoras e escritores, tudo isso graças a este espaço. Por isso ainda continuo a traçar páginas e páginas e compartilhar com os leitores minhas leituras. Se ainda houver um leitor, continuarei cavando e cavando.

Cassionei Niches Petry é escritor. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com

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