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No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance


Notas sobre os ensaios de Milan Kundera

1
Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser.
2
Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensível, arquétipo da forma, do qual não posso escapar. Meus romances são variantes da mesma arquitetura fundamentada sobre o número sete”. 
3
Em “A herança depreciada de Cervantes”, Kundera escreve sobre Don Quixote, Madame Bovary e outras obras fundamentais da arte romanesca para, segundo ele, expor “uma concepção pessoal do romance europeu”. Destaco o que ele chama de “quatro apelos” que delineiam o romance: o “apelo da diversão”, que tem como exemplo Tristam Shandy, de Laurance Sterne, e Jacques, o fatalista, de Denis Diderot; o “apelo do sonho”, representado pela obra de Franz Kafka; o “apelo do pensamento”, a partir dos romances filosóficos de Robert Musil e Hermann Broch; e o “apelo do tempo”, cujo representante é Carlos Fuentes.
4
“Diálogos sobre a arte do romance” e “Diálogos sobre a arte da composição” fazem parte da entrevista concedida a Christian Salmon para a Paris Review. É um mergulho no processo criativo de Milan Kundera, suas escolhas estéticas, temáticas, e a influência que o processo histórico que o seu país, na época Tchecoslováquia, teve na sua obra, tendo em vista que ele foi perseguido pelo regime comunista. “O romancista não é nem historiador nem profeta: ele é explorador da existência.
5
Kafka e Broch acabam merecendo, cada um, um ensaio em particular, o que denota as preferências de Kundera. “Anotações inspiradas em Os sonâmbulos” analisa a trilogia de Broch que não é tão conhecida, pelo menos por estas bandas, já que A morte de Virgílio é a sua obra mais lida. “Em algum lugar do passado”, por seu turno, reflete sobre o que é o kafkiano, adjetivo criado a partir de obras como O processo e A metamorfose, cuja tônica é a crítica ao totalitarismo de toda a espécie. Afirma Kundera: “Franz Kafka disse sobre nossa condição humana (tal como ela se revela no século XX) aquilo que nenhuma reflexão sociológica ou psicológica poderá nos dizer”.
6
A sexta parte é intitulada “Sessenta e três palavras” e é um glossário de palavras-chave da obra romanesca de Kundera. Esquecimento (“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”), ironia, kitsch, leveza e riso são alguns desses vocábulos. O sétimo ensaio, um discurso de agradecimento quando recebeu o Prêmio Jerusalém em 1985, é o mais fraco, portanto uma escolha ruim para fechar o livro.
7
Dentre os vários conceitos que aparecem nos ensaios para o que é o romance, elejo este para fechar estas notas: “A grande forma de prosa em que o autor, através dos egos experimentais (personagens), examina até o fim alguns grandes temas da existência”. É isso.


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