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Má-digestão literária

Andei lendo há alguns dias dois livros de um jovem escritor, incensado como uma das grandes promessas da literatura. Ele tem espaço em vários veículos, escreve resenhas e contos para jornais e sites conceituados. É um formador de opinião no sistema literário atual. No entanto, não vi nada de mais no seu romance, já em segunda edição, e, do outro livro, se salvam alguns contos apenas.

Como não sou crítico literário e só escrevo sobre os livros que me dizem algo e os quais acho bons ou ótimos, não vou resenhar a obra do rapaz. Por isso não cito seu nome, mas os visitantes mais atentos do blog devem saber de quem estou falando. Só estou escrevendo porque me pergunto até que ponto estamos servidos de pessoas na linha de frente da literatura atual. Se o cara é um dos melhores que temos hoje, vou enrolar minha viola no saco e vou plantar fumo na colônia.

O meu destino é ser um escritor inédito, pois não entro nessa panelinha que virou o meio literário, aquela coisa de ficar entrando no blog do fulano e comentar como ele é bom, ou segui-lo no Twitter e retuitar qualquer cuspe do escritor do momento. Até tentei manter contato com alguns escritores – o dito cujo incluído – mas eles não fazem nem questão de responder, pelo menos dizer um valeu pela resenha e tal. Bem o contrário de um cara como Scliar que leu meus contos, fez questão de comentá-los e ainda me citou em suas colunas da Zero Hora. Claro, ele não era medíocre como são alguns escritorzinhos da moda.

Desculpem pelo desabafo, é só uma má-digestão da janta.

Comentários

Isso acontece. Há sempre livros que não gostamos, e outros que amamos, mas que a maioria nem conhece.

Também já li alguns livros que nem fizeram cócegas. e minha opinião sincera não foi bem aceita.

viva o direito de gostar do que é bom.
charlles campos disse…
Claro que sei de quem se trata. Mas não tenho essas informações de que o tal é formador de opinião e um dos principais escritores brasileiros. Quando vi aqui que o estava lendo, fiquei de sobreaviso quanto à troca de elogios entre escritores, de forma que é bom ver que me contrariou.

Não me aventuro a ler um cara desses. Pelas resenhas que ele escreve_ inclusive para a Veja digital_, a mim não parece trazer nenhum pensamento contundente, nenhuma paixão pela literatura. Tantas coisas que se pode dizer sobre Liberdade, do Franzen, e ele decidiu falar sobre a carinha de bom moço inofensivo do autor_ como se em sua casa não houvessem espelhos.

Faço como o Gutierrez, que não le nenhum contemporâneo seu de Cuba. Essa atual literatura brasileira_ Galera, Teron, Xerxe...(ops!)_ são cópias descaradas de Bolaño ou Vila Matas, como se tivessem partido deles e desconhecessem por completo outros horizontes da escrita.
charlles campos disse…
P.S.: o Tal faz parte de uma categoria de escritores catedráticos. Nada mais triste que isso. A universidade pensa por eles, eles só conseguem usar imagens pré-definidas, e arranja a escrita dentro desses moldes. Não há sangue nas mãos, só poeira nos dentes.

Um textinho insosso entre os tantos outros desse autor é o que ele questiona a necessidade das fotos nos livros de Sebald. Tentei dar minha explicação sobre, no blog dele. As antenas de um escritor devem estar ligadas ao menos para perceber o óbvio na alta literatura. (Ah! Num outro texto constrangedor, ele demonstra ser um péssimo leitor de Bernhard.)
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelos comentários.
Charlles, não vejo nenhum problema em ser influenciado por Bolaño ou Vila-Matas. Só não entendi como você me colocou ao lado desses novos escritores em um comentário do blog da professora Rachel. Os poucos contos que publiquei aqui não denotam essa influência e tampouco tenho a oportunidade de ser publicado tão facilmente quanto esse caras têm.
charlles campos disse…
Uma coisa é a influência, outra a emulação.

Claro que não li nada de sua lavra, mas a leviandade de ter citado seu nome junto àqueles também faz parte do gênero de torcer para me ver contrariado.
Cassionei Petry disse…
Aliás, teus comentários no blog dp Xerxeneski são bem moderados, concorda?
charlles campos disse…
Moderado? Não tinha por que ser diferente.

Eu não tenho nada a ver com a vida desses caras. Só não curto muito a pretensão deles. Uma pretensão a qual talvez vc atribua a mim, e acrescente "quem esse coitado acha que é". Apenas que se eles estão publicados, então estão também vulneráveis a opiniões verdadeiras da crítica de seus valores enquanto escritores. Não vejo nenhum escritor relevante no cenário nacional. Todos são lamentáveis. O fato de vc não ter publicado nada é uma grande vantagem. Aí vem essa tríade alicerçar um certo geocentrismo de "literatura gaúcha"; filmes de editoras com as usuais estantes carregadas de livros aparecendo "quase sem querer", atrás, e eles dizendo sobre seus sofrimentos no período formativo. Vi dois filmes pela TV Cultura, um do Galera e outro do Teron. Não passa de masturbação. Galera num bar de Buenos Aires ouvindo Tom Waits. Terón sei lá em qual país. Sério, cara, isso não passa de tentativa de engambelamento da Cia das Letras, manejo de marqueting. Algo saudável por parte da editora, mas inteiramante falso.

Cadê nosso Onetti? Ou cadê nosso autor social, se nos permitissem pegar por menos? Paulo Lins, na minha opinião, é muito mais substancial que eles. Consegue ser mais bolaniano do que eles. Li um conto de Lins numa edição de literatura da Caros Amigos, e achei espetacular.
charlles campos disse…
E o Xerxeneski escrever sobre zumbis!!!

E o pior é que o faz querendo ser um Cortázar e não um Stephen King.

Passo a achar que devo ler o André Vianco ( é esse o nome?), o meritocrático autor de gênero que nós temos.
Cassionei Petry disse…
Desses escritores, o Terron é muito bom. Escrevi sobre o romance dele. O Galera me pegou somente no Mãos de cavalo, mas aí talvez, paradoxalmente, por uma razão mais emocional. Paulo Lins não me agradou nenhum pouco, além de ele viver da fama do seu romance. Os comentários dele na Cultura são patéticos.
Sobre Onetti, ele não teve a mesma sorte de ser bem publicado por aqui.
Sobre eu não publicar, talvez em março do ano que vem saia meu livro de contos. Vou te dar a munição para me criticar, apesar de a editora ser local e sem distribuição nenhuma. Será mais um livro que servirá apenas aumentar o número de árvores derrubadas.
Cassionei Petry disse…
Outra coisa que me incomoda é que para ser reconhecido aqui no Sul deve-se passar pelas oficinas do Assis Brasil, do Kiefer, da Cíntia... Qualquer um que passar por ali já tem 95% do caminho andado.
charlles campos disse…
Isso transforma a literatura em uma coisa burocrática, de escritório. Li certa vez um pedido de clemência do Kiefer ao seu mal destino como escritor. Um escritor jamais deveria fazer isso: lamuriar-se. Isso é horrível de se ver, e vai de contra mesmo a técnicas provadas de marqueting. Nunca vi o Nabokov fazendo isso em seus anos russos. Nunca vi o Faulkner fazer isso, nem quando era escavador de minas e escreveu o Enquanto Agonizo por cima de uma debulhadeira de terra (segundo o folclore). Aquela autora que fez squete na feira do livro, por exemplo. O escritor deve seguir o conselho d Rilke, de ter uma profissão que lhe permita sobrevive, para escrever honestamente, escrever contra o provincianismo reinante e as empulhações das aulas de escrita criativa. Leia o Entre Nós, do Philip Roth: tem mais tutano inspiracional que qualquer coisa quando vemos que Ivan Klima, assim como vários outros escritores checos, realizavam trabalhos braçais na maior felicidade criativa. Klima limpava as ruas, e bolou um ensaio sobre Kafka enquanto fazia isso. Os escritores aí do sul professam um burguesismo da escrita que é tanto lamentável por não chegar nem aos pés do eslavismo da época de Turgueniev, nem da era do jazz de Fitzgerald, ou outro período em que a ascensão de classe se intrometia na produção cultural.

Onetti é o maior autor hispano-americano. O mais bem dotado. Sofreu limitação devido a seu tema, na contramão do realismo fantástico.
Cassionei Petry disse…
Para mim, o maior é Cortázar, mas gosto do Onetti.
Como diria Marcel Proust, o melhor jeito de escrever para todos é não escrever para ninguém... O que completa nossa Clarice Lispector quando diz: só escrevo quando quero e não para agradar... pois não sou complexa, eu me entendo...
Quero dizer com isso que esses autores comerciais se perdem em tentar agradar a todos criando obras que cometem o pecado descrito pelo estoicista, Sêneca: O pior de todos os roubos é o de nosso tempo, pois certamente ele não poderá ser recuperado jamais...
Há muito disso no mundo e o que serve ou vende demais geralmente não pode ser muito bom... Como podemos abraçar a todos de nem todos têm a mesma sensibilidade de percepção para um abraço? Cuidado com os livros de caráter muito best... pois a única forma de abarcar a todos é sendo raso e simplório!!!
Entendo sua frustração, amigo!!!
Conheci seu blog hoje, camarada. Primeira coisa que vi: "(...)Espero que não fique à vontade."
Pô, qual o motivo de você se desculpar por uma má digestão? O dia em que toda a comida descer bem, o dia em que não houver desconforto algum, será quando não haverá nada digno de escrita.
Eu acredito que esses escritores de quem você fala são o futuro da Literatura enquanto "carreira"; agora, enquanto Arte, Poesia (e não falo aqui de versinhos: Rosa, Manoel de Barros, Picasso e Mahler, por exemplo, são todos poetas), penso que o caminho está justamente na tensão entre essa história de carreira e o Ser.
Daí concluo: pretendo uma escrita feita com vômito. Posto contos que podem até ser ridiculamente fracos, em um blog com o qual não sei operar (rá rá), mas o horizonte é esse aí mesmo: golfar no teclado.
E por isso só desejo muita má digestão para mim e para todo o mundo.

Gostei muito do que li aqui hoje. Com certeza virei aqui mais vezes.
Até.

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