No Traçando Livros de hoje, Eduardo Giannetti




SOBRE A MENTE E O CÉREBRO


O que sabemos sobre nosso cérebro? O que ele contém? Pensamos muitas vezes que o conhecemos, mas ele nos prega peças, não temos controle sobre seu funcionamento. Para entendê-lo, utilizamos diversos mecanismos, cada um dando conta de determinadas instâncias. Da mesma forma, a mente é um enigma e, muitas vezes, foi considerada uma substância espiritual ou imaterial, nesse caso, todas as ações do cérebro sendo frutos de um ser superior. “Por milênios as principais teorias da natureza humana vieram da religião”, escreveu o psicólogo Steven Pinker. Partindo das reflexões filosóficas, as descobertas científicas começaram a pôr por terra os mitos e, cada vez mais, os avanços tecnológicos fizeram com que os meandros do cérebro deixassem de ser mistério ou, pelo menos, diminuíram a distância do que é verdade em relação ao mito.

A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa (Companhia das Letras, 256 páginas), de Eduardo Giannetti, é um misto de romance e ensaio abordando a relação mente-cérebro – mais precisamente nossas inquietações metafísicas – a partir da neurologia. Seu autor, economista e filósofo, entra nas sendas da ficção, porém, sem se desligar do científico. Pode-se dizer, na verdade, que é um ensaio com trechos de ficção e não o contrário.

O personagem principal do romance, um professor de literatura e pesquisador, do qual não sabemos o nome, é acometido por um “branco” ao falar sobre Machado de Assis em uma palestra a qual achava ter na ponta da língua: “sentia-me capaz de fazê-la até debaixo d’água, de trás para frente se preciso.” Somados a outros fatos relacionados a falhas de memória, ele se vê obrigado a consultar um neurologista, que diagnostica um tumor na cabeça. Depois de retirar o tumor, o professor se aposenta compulsoriamente e passa a se dedicar ao estudo da relação mente-cérebro, movido pela curiosidade e pelo prazer de saber. “A curiosidade está para o conhecimento assim como a libido está para o sexo”. O resultado dessa empreitada aparece em forma de ensaio em capítulos intercalados com a ficção.

Os estudos partem dos mitos até chegar à neurociência moderna, elencando várias respostas da ciência para diferentes funções do cérebro e desmistificando as respostas dadas pela crença. No entanto, a ciência não dá conta dos mistérios que ainda permanecem. E a busca continua. “O quebra-cabeça da relação mente-cérebro não está completo – há peças importantes faltando. Mas o contorno geral da figura que se desenha e o teor das descobertas que vêm se multiplicando, em especial nos últimos vinte anos, deixam pouca margem à dúvida.”

A neurociência salvou o professor. Essa cura, no entanto, resultou, segundo ele, num novo mal. De tanto estudar a relação mente-cérebro, ficou doente da alma e seu tumor físico se transformou num tumor metafísico. As ilusões desmitificadas se transformaram em novas crenças. O oroboro mordeu seu próprio rabo. “O remédio que salva, aplicado de fora, virou peçonha que envenena, vinda de dentro.” As perguntas encontram as respostas que se tornam novas perguntas que encontram respostas que se metamorfoseiam em novas perguntas... A tese encontra a antítese, formando uma síntese que vira nova tese que se depara com outra antítese, produzindo uma nova síntese... O cérebro gera a mente que, por sua vez, reflete sobre o próprio cérebro. Tudo isso, enfim, é o que nos move em busca do conhecimento e o que nos impulsiona a ler livros como A ilusão da alma.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Escreve quinzenalmente neste espaço e quase diariamente no blog cassionei.blogspost.com. Não entende o que se passa na sua mente, mas quer entender.

Comentários

Como sempre, um espetáculo de texto... Parabéns!!!
Iuri J. Azeredo disse…
Nos últimos meses, estou lendo alguns textos ligados ao tema das neurociências e as implicâncias desses conhecimentos em todos os campos, caso da sociologia (sociobiologia humana) e da religião (enquanto mecanismo útil no processo bioeveolutivo dos primatas como nós). Havia lido partes do Auto-engano. A leitura da tua resenha foi o impulso que faltava para começar a ler A Ilusão da Alma. Valeu! Abraço!

Iuri
Cassionei Petry disse…
A versão original deste texto é uma análise um pouco mais detalhada, que talvez saia em alguma revista acadêmica. Se sair, te aviso. Abraço.

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Uma resenha que não aconteceu