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No Traçando Livros de hoje


Meu texto na coluna Traçando Livros de hoje: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/315730-uma_grande_opera_literaria/edicao:2011-11-30.html

Uma grande ópera literária
Cassionei Niches Petry
Se há um livro que esta traça devorou com muita fome, inclusive porque foi objeto de sua monografia de conclusão do Curso de Letras, esse livro foi Ópera dos mortos, de Autran Dourado. Relendo-o mais uma vez, lembrei que ainda não havia escrito nada sobre o romance neste espaço. Como há uma edição recente pela editora Rocco, que vem publicando toda a obra do genial escritor mineiro, creio que é o momento para reconhecer o talento do autor de tantas histórias com personagens marcantes – como a Biela de Uma vida em segredo – e um trabalho criterioso no que se refere a técnicas literárias – como em A barca dos homens.
Ópera dos mortos foi publicada originalmente em 1967 e conta a história de Rosalina, filha de João Capistrano e neta de Lucas Procópio Honório Cota, figuras emblemáticas da cidade de Duas Pontes (a Macondo do escritor, que aparece em outros romances e contos). Morto seu pai, ela se isola do resto da cidade no sobrado da família, cujo primeiro andar foi construído por seu avô e o segundo por seu pai (protagonistas de dois romances do autor publicados posteriormente: Lucas Procópio, de 1984, e Um cavalheiro de antigamente, de 1989). Tem como companhia apenas a empregada Quiquina, espécie de anjo da guarda e consciência de Rosalina e que serve de ligação indireta dela com a cidade. Sua vida, no entanto, se transforma com a chegada de Juca Passarinho, um forasteiro que, apesar da resistência das duas moradoras, passa a trabalhar no sobrado. Aos poucos, ele vai conquistando o coração duro de Rosalina. Durante o dia, Rosalina o trata com rispidez e, à noite, entrega-se ao prazer com ele.
O espaço é peça chave na história. Boa parte do primeiro capítulo é reservada para a descrição de como é, no tempo presente em que a história é contada, e como era antigamente o sobrado em que vive a personagem principal, nos dando fortes indícios do que irá acontecer mais adiante. Se agora o sobrado está em ruínas, antes era imponente: “Ainda conserva a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco caído em alguns trechos como grandes placas de ferida mostra mesmo as pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a vida”. O atual estado da casa representa a situação da família Honório Cota, destruída por várias circunstâncias, mas sem perder a fama na cidade, assim como a casa, cuja presença continua impondo respeito.
A construção do sobrado, abordada nos primeiros e segundo blocos (assim são chamadas as partes do romance) também é importante e representa a personalidade dos personagens. O primeiro pavimento da casa foi construído por Lucas Procópio Honório Cota “ao jeito dele; pesada, amarrada ao chão, [...] a porta grossa, rústica, alta”. Já seu filho, João Capistrano, com a personalidade diferente da do pai, construiu o segundo pavimento com linhas mais suaves, sofisticadas. A junção dos dois pavimentos e suas respectivas fachadas representa a personalidade de Rosalina.
No terceiro bloco e nos seguintes, a narrativa se centra em Rosalina, sua empregada, a cidade e o forasteiro Juca Passarinho. Há toda uma simbologia que representa a decadência moral: as voçorocas, por exemplo, que são as erosões de terra que “engolem” a cidade; a Rosalina que deixa o forasteiro entrar na sua casa, símbolo de refúgio e proteção da mulher; a bebida, que desperta os instintos mais escondidos da personagem, fazendo com que ela se torne uma mulher de dia e outra à noite; a Quiquina, muda, representando a falta de comunicação entre as pessoas, e que não conseguiu impedir que Juca Passarinho entrasse no sobrado.
O desfecho dessa ópera é trágico. Seus personagens já estão mortos, como menciona o título. Ou melhor, estão mortos em vida. A orquestra para, as vozes emudecem, o cenário é destruído. Das ruínas, o espectador, ou o leitor, ouve apenas gritos de almas pedindo socorro.
Cassionei Niches Petry é o nome verdadeiro da traça que devora os livros que são lidos e comentados aqui no Mix quinzenalmente. É mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq, e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

Comentários

Fabiano Felten disse…
Gosto muito de Autran Dourado. Pena que ele parece ser tão pouco lembrado pela crítica em geral, pelo menos até onde sei. Não deveria. Deveria também ser mais lido.

Sempre notei, também, uma relação de sentido significativo entre os espaços e as personagens na obra do autor. Aliás, os autores mineiros geralmente têm esse olhar.

Abraço, Cassionei.
Cassionei Petry disse…
Eu tenho uma grande admiração por este autor.
Valeu, Fabiano. Estou gostando de te ver comentando mais por aqui. Abraço.

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