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Paramos ou não?


Dias atípicos esses em que se desenrola mais uma greve do magistério. O simples fato de haver uma paralisação, por si só, já retira as coisas da rotina. Uma greve, porém, envolvendo apenas parte dos professores, uma minoria que representa a maioria, é, no mínimo, estranha.

É fato que as históricas greves dos educadores proporcionaram pequenas, mas significativas, mudanças no que tange a melhorias salariais e a preservação do plano de carreira. Não fossem elas, estaríamos numa situação muito pior em relação à que estamos enfrentando. Sem dúvida, parar as atividades é a única arma que funcionou nesses anos todos, pois simplesmente sentar e negociar com os governantes nunca surtiu o efeito desejado.

Acontece, no entanto, que os tempos são outros, queiramos ou não. A greve já não assusta tanto o governo, uma vez que ela não ganha mais o respaldo dos pais e da imprensa. Se antes os primeiros estavam preocupados com a educação dos seus filhos e apoiavam o movimento, agora o que lhes tira o sono é simplesmente saber onde vão deixar as crianças. Boa parte da mídia, por seu turno, buscando atrair audiência, fica do lado dos pais, mas tentando não ser agressiva com os professores e, por isso, apregoam que, mesmo sendo justas as reivindicações, o governo não tem caixa para cumprir a lei e os alunos não devem ser prejudicados por isso.

No meio do “entrevero”, fica aquele professor não-nomeado o qual, mesmo preocupado e indignado com seu baixo salário – querendo ganhar um piso mínimo, enquanto outras categorias lutam por um teto maior –, não se envolve em questões sindicais. Cumpre um contrato e vê seu ganha-pão sendo ameaçado, pois, se adere à greve – no íntimo, o seu desejo –, pode ser substituído por outro. É demitido sem ganhar FGTS e seguro-desemprego. Se não entra na luta, porém, é cobrado mais tarde por usufruir dos direitos obtidos na negociação ou se vê desacreditado quando ensina aos seus alunos que temos de lutar pelos nossos direitos.

O interessante disso tudo é que a decisão de paralisar é feita por uma minoria. A maioria, que se abstém de participar das assembleias, é ignorada justamente por não comparecer e, consequentemente, não votar. Depois, vê-se na pressão de acatar o que foi votado pela maioria que, na verdade, era a minoria, pois a maioria quer continuar trabalhando. Confuso, não? Dentro dessa maioria há muitos contratados impossibilitados de tomar uma decisão, mas os nomeados são em grande número, porém estão cansados de muitas greves e tão poucas conquistas.

Nessa dúvida entre parar ou continuar trabalhando, aquele professor não-nomeado reflete sobre o que diziam os pensadores que o influenciaram durante anos de leituras. Um deles, Paulo Freire, escreveu: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Por isso, acredita o professor, tanto dentro da sala, dando aula, ou fora dela, reivindicando, estamos cumprindo nosso papel que é o de educar.

Cassionei Niches Petry

Professor da rede estadual de ensino e mestrando em Letras, com bolsa do CNPq.

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