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No Traçando Livros de hoje



Na minha coluna de hoje no Tradaçando Livros, do caderno Mix do jornal Gazeta do Sul, escrevo sobre Gustavo Bernardo.
http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/312989-a_nau_dos_insensatos/edicao:2011-11-16.html

A nau dos insensatos

Cassionei Niches Petry

Nossa vida é feita de círculos. A começar pelo mundo, que é redondo e, por isso, os dias iniciam, terminam e se repetem. As mitologias também não nos deixam esquecer da condição da circularidade. No livro sagrado dos cristãos, é célebre o versículo do Gêneses, afirmando que o homem é pó e ao pó retornará. Também é da Bíblia, mais precisamente do Eclesiastes, a epígrafe do romance O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo: "Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O Vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos."

Povos antigos viam no oroboro, a serpente que morde a própria cauda, um símbolo dessa dinâmica da vida. É uma figura que me chama muito a atenção, apesar de sua ligação com questões místicas. Da mesma forma, há o escorpião encalacrado, que mata a si próprio com o veneno de sua cauda. Não podemos esquecer também a roda da fortuna...

Nas artes, essa circularidade está presente na metalinguagem. O texto se volta sobre o próprio texto, a pintura retrata a própria pintura, a imagem dentro de outra imagem. Fiz toda essa volta justamente para escrever sobre um autor cuja obra se debruça sobre o tema da metalinguagem, seja no ensaio, seja na narrativa.

Gustavo Bernardo, escritor e professor carioca, escreveu O livro da metaficção, um verdadeiro tratado sobre o tema. Como romancista, põe em prática o que estudou na teoria. Escreveu Lúcia, cujas personagens nos remetem a José de Alencar, e o infantojuvenil Reviravolta, cujo título fala por si próprio. Em A filha do escritor (Agir Editora, 152 páginas), Bernardo faz uma releitura ficcional da obra de Machado de Assis e de momentos obscuros da sua vida. São livros dentro de outro livro, a literatura dentro da literatura.

Uma jovem chamada Lívia chega a uma clínica de doentes mentais dizendo ter marcado um encontro com seu pai. O psiquiatra, Dr. Joaquim, pergunta quem é ele. A resposta o deixa intrigado: Machado de Assis, morto cerca de 100 anos atrás. A mulher ainda afirma estar acompanhada pelo filho, Luís, na verdade um filho imaginário, e que se hospedará ali enquanto aguarda a chegada de seu pai. “Ela é esquizofrênica”, diagnostica o médico num primeiro momento, contando a história a um interlocutor só revelado – ou não – no final. No decorrer da narrativa, vamos sendo envolvidos na investigação de Joaquim, que tenta entender o mistério, pois ele começa a desconfiar que a mulher não é tão louca como ele pensa, além de começar a se sentir atraído por ela. Imaginação e realidade se mesclam, e o leitor é levado, sem nenhum fio de Ariadne, para meio do labirinto mental onde estão as personagens.

As referências literárias são deixadas bem claras pelo próprio narrador: Lívia era o nome da protagonista do primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição, assim como o hospício tem as janelas verdes e se situa na mesma cidade do estabelecimento comandado por Simão Bacamarte, em O alienista. Há também uma menção ao filho de José de Alencar, que seria na verdade do Bruxo do Cosme Velho, sem contar que Joaquim também é o prenome do nosso grande escritor. Outros autores aparecem dentro dessa “babuska” que se torna o romance de Gustavo Bernardo. Quanto mais tiramos uma boneca de dentro da outra, outra surge, escondendo outra boneca e assim sucessivamente.

Gustavo Bernardo faz da literatura e da loucura seus temas, de que como a primeira pode nos deixar loucos de tanto ler, ou de como a segunda pode nos levar a escrever. Fica o convite para o leitor: entre nessa nau dos insensatos que é a literatura, depois saia dela, depois entre de novo e de novo e de novo...

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. É passageiro dessa nau dos insensatos, lendo, escrevendo e comentando aqui no Mix quinzenalmente e também no seu blog cassionei.blogspot.com.

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