domingo, fevereiro 27, 2011

A falta


Palavras. Moacyr Scliar as tinha de sobra. A mim, nesse momento, elas faltam. Mas preciso escrever.

Poderia analisar a obra do escritor. Dezenas de livros, crônicas em jornais e revistas, uma produção grande em quantidade e qualidade, a qual li quase toda. Sua obra, porém, vai ficar entre nós, e ainda será lida por muito tempo.

Poderia falar sobre o médico. Trabalhou na saúde pública, escreveu vários artigos e livros sobre a área. No entanto, não tenho o conhecimento para avaliar a importância dele nessa profissão.

Poderia comentar o Scliar judeu. Foi um grande divulgador da cultura judaica no RS, tanto na temática da sua ficção, como nos ensaios e entrevistas, mesmo não tendo crença religiosa. Mas também não sou capacitado para isso.

Poderia relembrar as histórias contadas por ele em diversas palestras, como a do seu pai que, ao chegar ao Brasil vindo da Rússia, comeu a casca de uma banana e jogou fora o resto pensando que fosse o caroço. Entretanto, quem está lendo este texto já deve conhecê-las.

Poderia falar sobre o imortal. Dono da cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras, sua eleição foi amplamente apoiada pelos gaúchos numa mobilização inédita. Desconheço, porém, como foi sua atividade entre os acadêmicos.

Gostaria de escrever, na verdade, sobre o mestre. Assim como eu, muitos aspirantes a escritor encontraram em Moacyr Scliar um raro interlocutor. Não deixava um e-mail sem ser respondido. Lia e elogiava as produções daqueles que viam nele um exemplo a ser seguido. Citava em uma de suas colunas no jornal Zero Hora as pessoas com as quais ele trocava mensagens. Dedicava “ao colega” os autógrafos dos seus livros para quem se anunciava como aprendiz de escritor.

Quando mantive contato com o Scliar para que lesse meu livro de contos, ele disse que não poderia, mas que se eu mandasse dois contos os leria com prazer. Mandei o e-mail, porém me esqueci de anexar os textos. Poucos minutos depois, a seguinte mensagem: “e os contos?” Vejam que ser humano! Poderia muito bem deixar por isso mesmo, mas não, fez questão de não deixar o pobre aprendiz na ilusão.

“Sentimos falta de coisas”, escreveu Scliar na crônica “Lacunas”, do livro A massagista japonesa. Sentiremos falta do escritor, do médico, do judeu, do contador de histórias, do imortal. A falta do mestre atencioso, porém, é a lacuna mais difícil de ser preenchida.

sábado, fevereiro 26, 2011

Ninguém percebeu nada de errado?

Em 2009, fiz duas pequenas brincadeiras aqui no blog, mas ninguém se deu conta. Só para contextualizar, na época havia no caderno Donna, da Zero Hora dominical, o AUTORRETRATO, uma série de perguntas pré-selecionadas para serem respondidas por pessoas de diferentes áreas. Da mesma forma, havia a série ANTOLOGIA PESSOAL de perguntas direcionadas a artistas, principalmente escritores, no Caderno 2 do Estadão de domingo. Algumas respostas seriam diferentes hoje, mas val como recordação.

AUTORRETRATO - Zero Hora - a ser publicado no dia 29 de fevereiro
Cassionei Niches Petry – ele é ele, segundo ele próprio, e gostaria de continuar sendo ele mesmo, se não fosse ele.

Qual é a primeira coisa que pensa ao acordar de manhã?
Ficar mais um pouco na cama.

Em que momento do dia é mais feliz?
Quando não estou triste.

O melhor e o pior de uma vida de professor.
O pior, quando estou dando uma aula e poucos alunos estão interessados. O melhor, quando um aluno diz: adorei tua aula, professor.

Por que motivo chorou a última vez?
Vendo uma filmagem onde aparecia minha falecida avó.

E por que motivo riu?
Lendo esta pergunta.

Quem você gostaria de ser se não fosse você mesmo?
Outra pessoa querendo ser eu mesmo.

E onde gostaria de viver?Mesmo sem conhecer, queria viver em Buenos Aires.

Você tem medo de quê?
De acontecer coisas ruins com as pessoas que amo.

Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Sábado à tarde, depois de uma chuvinha de verão, cheiro de terra molhada, na TV, o Chacrinha, e a mãe fazendo pão.

Qual a sua ideia de um domingo perfeito?
Churrasco na casa do vô.

Que música não sai da sua cabeça?
Ultimamente a música “Deixa eu dizer”, de Ivan Lins, que ganhou uma versão chamada “Desabafo” do Marcelo D2, mas gosto da versão do compositor.

Qual peça de roupa não entra no seu guarda-roupa?
Por enquanto, terno e gravata.

Um gosto inusitado.
Farinha de mandioca com açúcar.

Um hábito do qual você não abre mão.
Quase um vício na verdade, que é o cafezinho (no meu caso um cafezão).

Um hábito de que você quer se livrar.
Achar que tenho que dar resposta a tudo que me contraria.

Um elogio inesquecível.
O senhor é o melhor pai do mundo.

Um livro insubstituível.
O processo, do Kafka.

Um filme que sempre quer rever.
Sociedade dos poetas mortos.

Que pecado comete com mais frequência?
Preguiça.

Em que situação vale a pena mentir?
Se a mentira é para o bem.

Em que situação você perde a elegância?
Com as injustiças.

Que defeito é mais fácil perdoar?
A mentira.

O que você faria se não fosse proibido?
Pisaria na grama.

Uma frase.
O inferno são os outros, do Sartre.

***

ANTOLOGIA PESSOAL – a ser publicada no dia 29 de fevereiro no Caderno 2, Cultura, do jornal Estado de São Paulo.

Cassionei Niches Petry – editor do desimportante blog “Porém, ah, porém”, escreve livros mais desimportantes ainda, os quais só não vieram a público porque teve o bom senso (ou por preguiça?) de não mandar para as editoras. Quando jovem, tinha o sonho de ser um cronista diário, como Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo. Como não o realizou, escreve, de vez em quando, algumas crônicas para o jornal de sua cidade. Gostaria de ser um grande escritor da literatura brasileira. Como se considera um fracassado, está se acostumando com ideia de ser o maior escritor da sua rua.

Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?
Relatos, de Julio Cortázar. Como ele dizia, na nossa realidade há sempre um mistério a ser descoberto. Nos seus contos, a cada releitura descubro novos mistérios.

Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.
Camilo Mortágua, de Josué Guimarães.

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.
Confissões de Narciso, de Autran Dourado. Em uma época que estava mergulhado na obra do escritor mineiro.

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.
Os que bebem como os cães, de Assis Brasil.

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.
As crinças brincando na casa onde há um tigre, no conto Bestiário de Julio Cortázar. Josef K. no sótão onde vive o pintor, em O processo, de Franz Kafka. A cena final do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.

Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?
Dom Quixote, Josef K., Rosalina (do romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado), Brás Cubas, Capitão Rodrigo, Raskólnikov, Philip Carey, Harry Haller...

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

E que livro mais o fez pensar?
Sobre heroes y tumbas, de Ernesto Sábato.

De qual autor você leu tudo, ou quase tudo?
Franz Kafka

Existe algum autor como o qual você jamais perderia seu tempo?
São vários. Para citar um: Sidney Sheldon

Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.
Continuo achando bom todos os livros que foram importantes na minha formação.

Você considera a literatura policial um gênero menor?
Não há gênero menor, o que existe são obras menores.

Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica?
São ruins. Dispenso livros que me deem respostas prontas.

Um livro meio chato, mas bom.
Nenhum livro meio chato é bom.

Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.
Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferndinand Céline.

Um livro difícil, mas indispensável.
Ulisses, de James Joyce.

Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.
Não me lembro de nenhum agora.

Um livro que começa mal e se encontra.
Todo livro que começa mal eu acabo deixando de lado.

Um livro ruim, por ser pretensioso.
O segredo, se é que se pode chamá-lo de livro.

Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?
O sertões, de Euclides da Cunha.

De que livro você mudaria o final?
Da Bíblia.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.
Kafka tem dois ótimos tradutores hoje: Modesto Carone e Marcelo Backes. Quanto as traduções ruins, elas o valor de divulgar o artista.

A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?
A obra de Luiz Ruffato.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando à leitura?
Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?
Os livros da Literatura Informativa, como a Carta de Caminha. Mereceria estar no cânone a obra de Murilo Rubião.

Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?
Luiz Ruffato, Roberto Bolaño, Bioy Casares.

Cite um vício literário que você considera abominável.
Excesso de descrições.

Que virtude mais preza na boa literatura?
Revelar quem somos, mas sem julgamento.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Pra Pensar, Palavras Pontiagudas

Essa letra é de um mestre do Rap nacional:

Brasil com P - GOG

Pesquisa publicada prova
Preferencialmente preto
Pobre prostituta pra polícia prender
Pare pense por quê?
Prossigo
Pelas periferias praticam perversidades parceiros
Pm's
Pelos palanques políticos prometem prometem
Pura palhaçada
Proveito próprio
Praias programas piscinas palmas
Pra periferia
Pânico pólvora pa pa pa
Primeira página
Preço pago
Pescoço peitos pulmões perfurados
Parece pouco
Pedro Paulo
Profissão pedreiro
Passatempo predileto, pandeiro
Pandeiro parceiro
Preso portando pó passou pelos piores pesadelos
Presídio porões problemas pessoais
Psicológicos perdeu parceiros passado presente
Pais parentes principais pertences
Pc
Político privilegiado preso
parecia piada (3x)
Pagou propina pro plantão policial
Passou pelo porta principal
Posso parecer psicopata
Pivô pra perseguição
Prevejo populares portando pistolas
Pronunciando palavrões
Promotores públicos pedindo prisões
Pecado!
Pena prisão perpétua
Palavras pronunciadas
Pelo poeta Periferia
Pelo presente pronunciamento pedimos punição para peixes pequenos poderosos
pesos pesados
Pedimos principalmente paixão pela pátria prostituída pelos portugueses
Prevenimos!
Posição parcial poderá provocar
protesto paralisações piquetes
pressão popular
Preocupados?
Promovemos passeatas pacificas
Palestra panfletamos
Passamos perseguições
Perigos por praças palcos
Protestávamos por que privatizaram portos pedágios
Proibido!
Policiais petulantes pressionavam
Pancadas pauladas pontapés
Pangarés pisoteando postulavam prêmios
Pura pilantragem !
Padres pastores promoveram procissões pedindo piedade paciência pra população
Parábolas profecias prometiam pétalas paraíso
Predominou o predador
Paramos pensamos profundamente
Por que pobre pesa plástico papel papelão pelo pingado pela passagem pelo pão?
Por que proliferam pragas pelo pais?
Por que presidente por quê?
Predominou o predador
Por quê? (3x)

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Mestres e alunos

Quadro de Claude Lefbvre

“Faz parte da humanidade de um mestre advertir seus alunos contra ele mesmo”, escreveu o filósofo Nietzsche (1844-1900) em sua obra Aurora. Pode parecer absurdo esse aforismo, mas são provocações como essa que despertam em nós, professores, reflexões sobre o que já fizemos e sobre o que podemos fazer agora na volta às aulas.

O título da obra nietzschiana vem a calhar para essa reflexão, se nos utilizarmos de algumas imagens bem desgastadas, mas válidas ainda. Aurora é aquele momento de claridade no horizonte, anunciando o nascer do sol. Pode simbolizar a passagem da ignorância (a escuridão) para a luz (o conhecimento). Não por acaso durante muito tempo foi usado, de uma forma equivocada, o significado da palavra aluno como “aquele que não tem luz”, “que vive nas trevas”. No entanto, é certo que a criança chega à escola já sabendo uma porção de coisas, ainda mais com o crescimento das novas – já nem tão novas assim – tecnologias. Segundo os linguistas, na verdade, aluno significa “criança de peito, lactente”, ou seja, é aquele indivíduo que precisa ainda receber os cuidados necessários como a nutrição e a proteção. Nesse caso, a escola deve fornecer a ele o alimento diferenciado, o qual não recebe em casa, que é o saber acumulado pela humanidade. E também deve protegê-lo num ambiente acolhedor para que ele se sinta como se estivesse no seio da sua própria família.

A aurora também representa um novo dia, por conseguinte, a renovação. Cada ano letivo é um ano diferente. A escola é uma das poucas instituições da sociedade que lutam contra o “mais do mesmo”. Como o deus Jano – porteiro do céu na mitologia romana, que tinha duas cabeças, uma olhando para frente e outra para trás – planejamos os próximos meses, através de novas ideias e teorias que serão postas em prática, mas não esquecemos o passado, que nos ensina com os erros e os acertos.

Mas o que, afinal, o filósofo quis dizer com seu aforismo? Que devemos orientar o aluno a ir contra nós, professores? Minha interpretação bem pessoal e otimista é de que devemos orientar o aluno a não se deixar ser um adulto como os que temos hoje, que estão destruindo o mundo. A humanidade do mestre estaria em nutrir o aluno para que ele siga um caminho diferente, sendo criativo e questionador das verdades estabelecidas, contribuindo, assim, para um mundo melhor, atitude que nós, adultos, não estamos conseguindo fazer. O discípulo deve, para tanto, superar o mestre.

Já numa interpretação pessimista... bem, deixemos o pessimismo pra lá.

sábado, fevereiro 19, 2011

Dica de HQ


A série The Unwritten, inédita por essas bandas, está me proporcionando um ótimo entretenimento com direito a altas doses de referências literárias. Procurem nas boas casas do ramo (leia-se blogs de scans de HQ).

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

"Tenho convicção de que não ler não é um direito que uma pessoa tenha; uma pessoa, em sociedade, não pode ter o direito de ser burra, de não buscar conhecimento, porque de algum modo ela está se transformando num peso para outros. Quando alguém opta por não aprender, opta por ser incapaz de auxiliar mais e melhor os outros."

Este é um trecho do texto de abertura do blog Leituras do Mundo, do meu amigo Romar Beling. Conheço-o há um bocado de tempo, mas há pouco que começamos a trocar ideias sobre leituras, ora tomando um café na Iluminuras (ele é o Mauro Ulrich estão fazendo apelo para que eu volte a beber) ou comendo um churrasco no Centenário. Quase uma lenda no meio literário santa-cruzense por ter na gaveta alguns livros de poemas e até agora não tê-los publicado, finalmente pôs no ar hoje o seu blog e ainda promete para esse ano seu primeiro livro. Quem acompanha suas colaborações para a Gazeta do Sul sabe que é um profundo conhecedor de literatura que vale a pena ser lido.

O Anjo Venusanal, de Barata Cichetto e Amyr Cantusio Jr.

Um dos artistas mais instigantes, inteligentes e imprevisíveis - só para ficar nos adjetivos começados com a letra "i" - que conheci pela internet. Poeta, apresentador de radioweb e produtor cultural, Barata Cichetto faz parte da cultura underground de SP desde os anos 70, inclusive da chamada geração mimeógrafo. A mente do cara fervilha de projetos e um deles está disponível para download. Com trilha sonora de Amyr Cantusio Jr, O Anjo Venusanal é composto por 30 poesias do Barata. Na capa do projeto, é citada uma frase de um texto recente meu, da qual o Barata gostou muito e até a estampou várias vezes no seu site juntamente com um verso de um rap que fiz.

Pontificação

O crucifixo que carrego em meu pescoço
É apenas lembrança da minha própria crucificação.

O retrato de mulher que carrego em meu bolso
É apenas lembrança da minha própria pontificação.
Barata Cichetto

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Caim e Abel eram gêmeos?

Gravura de Gustave Doré


Escrevi que Caim e Abel são gêmeos na resenha publicada ontem sobre o romance de Joca Reiners Terron. Acontece que a relação que o escritor fez na página 156 me levou a isso.

"O fato é que, quando olhei para vocês, percebi que nas lendas mitológicas que tratam de irmãos gêmeos acontece de um deles sempre morrer. E eu não posso perder nenhum de vocês, não posso. Eu pensei então em arranjar uma forma de distrair a Morte, de fazer com que ela esqueça pra sempre os seus deveres profissionais. E assim, dessa forma, que ela não leve nenhum de vocês de mim, agora que estão chegando à idade fatal de Castor e Pólux, à idade de Caim e Abel, à idade de Rômulo e Remo."

No entanto, a Bíblia não diz que eram gêmeos:

"Gênesis 4:1 - E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu, e teve a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um varão. 2 - E teve mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra."

A citação não menciona quanto tempo depois nasceu Abel, logo, como todo o mito, podemos fazer várias interpretações.

Se alguém tiver uma outra fonte e quiser compartilhar, fico grato.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Terron no Traçando Livros de hoje

Mórbidas semelhanças


O Cairo é somente um amontoado de ruínas de algo que se passou há muito tempo. Algumas pessoas também são meras ruínas do que viveram.

(trecho do romance)

Como o Egito está nas últimas semanas em todos os noticiários, recomendo a leitura de um romance passado boa parte no Cairo. Trata-se de Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron (Companhia das Letras, 280 páginas). O livro faz parte da coleção “Amores Expressos”, projeto que levou escritores a diferentes capitais do mundo para que escrevessem romances sobre o amor ambientados nesses locais. Terron é um dos principais nomes da nova geração da literatura brasileira. Inventivo, experimentalista, sabe também dialogar com a tradição, tanto que seu recente romance segue a linhagem de obras que tratam das diferenças entre irmãos gêmeos: Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e Dois irmãos, de Milton Hatoum.

O enredo de Do fundo do poço se vê a lua inicia quando William recebe, em São Paulo, um cartão postal com a foto de Elizabeth Taylor caracterizada como a Cleópatra de um dos clássicos do cinema. A mensagem diz para ele ir ao Egito: “Acho que afinal me lembrei de tudo”. A assinatura está rasurada, mas ele presume que é do seu irmão gêmeo Wilson, desaparecido há 20 anos. Chegando ao Cairo, não o encontra, mas acaba sabendo em quem ele se transformara. Enquanto isso, é observado por Cléo - novo nome de Wilson – que narra a história de dentro de um poço, relembrando os fatos decisivos da vida de ambos, desde a barriga da mãe, passando por uma enchente em São Paulo, perda de memória, uma operação de troca de sexo, até chegar aos “inferninhos” da cidade do Cairo.

Os gêmeos William e Wilson – filhos de uma fugitiva da ditadura militar, que morreu no parto, e de um ator teatral, que os criou sozinho – afora a aparência, são diferentes em tudo. Quando crianças, William gostava de brincar de faroeste, enquanto Wilson preferia se vestir de mulher. Percebendo a vocação de ambos, o pai os coloca para trabalharem junto com ele no teatro em peças que representam a tradição do duplo, ou doppelgänger.

Aqui poderia haver um equívoco na obra. O duplo não é um gêmeo, mas sim outro ser. A expressão alemã doppelgänger se refere a lendas sobre um ser idêntico a uma pessoa e que geralmente são representações do mal ou do lado negativo dela, tentando sempre prejudicá-la. Uma das histórias mais famosas sobre o duplo é o conto William Wilson, do americano Edgar Allan Poe, que inspirou os nomes dos personagens do livro de Terron. Seria um erro, portanto, misturar as histórias ou lendas de gêmeos, como Caim e Abel e Rômulo e Remo bem como o dualismo das religiões com a questão do duplo. No entanto, essa relação aparentemente forçada pode fornecer indícios para o leitor mais atento decifrar o subtexto.

Joca Reiners Terron gosta de citar obras literárias e elementos da cultura em geral nas suas histórias. O autor é um metaficcionista de primeira, que agrada àqueles que vivem 24 horas por dia pensando em literatura, como esta traça que vos escreve. Mas de nada adiantaria a técnica e as referências literárias se não houvesse uma boa história a ser contada. E isso Do fundo do poço se vê a lua nos proporciona.

Cassionei Niches Petry é professor e tem um duplo que é escritor e atormenta sua vida. Colabora quinzenalmente com o Mix e edita o blog www.cassionei.blogspot.com.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Fenômeno?


O Brasil lamenta, se comove, chora, pois o Ronaldo parou de jogar. O motivo foi por não poder controlar seu corpo depois de tantas cirurgias, além de um problema de saúde que o levou a engordar. Não deveria parar, é o que a maioria das pessoas fala, pois ele poderia dar ainda muitas alegrias ao povo brasileiro.

O engraçado disso tudo: há algumas semanas foi noticiado que o estado de São Paulo estava impedindo professores aprovados em concurso público de assumirem suas funções justamente por estarem acima do peso. Isso mesmo. Segundo os médicos, obesidade é doença, logo, nenhum gordo pode assumir cargos no funcionalismo público. Os brasileiros lamentaram o fato? Opinaram que os professores, mesmo obesos, podem dar muitas alegrias ainda ao povo brasileiro? Quantos brasileiros sabem dessa notícia, se ela nem foi manchete dos jornais?

O futebol é um dos exemplos mais flagrantes da inversão de valores no mundo todo, principalmente no Brasil. Dá-se mais importância ao seu time “do coração” do que à própria família. Indignam-se com os jogadores que não estão jogando bem, mas não fazem os mesmos protestos contra os políticos que não governam bem. Gastam seu dinheiro com o ingresso dos jogos, mas não leem porque o livro é muito caro. As meninas gritam histericamente pelo jogador galã, mas ignoram o garoto estudioso da turma, a não ser se precisam de uma cola na prova. Choram com a despedida do craque gordo, mas dão risadas da professora obesa quando ela quebra a cadeira ao se sentar.

Ronaldo foi chamado de fenômeno. Saber driblar, fazer muitos gols, tudo isso desde jovem, justifica ser chamado de fenômeno? Fenômeno é o trabalhador comum, que acorda cedo, se esforça o dia todo, chega cansado em casa, depois de contribuir com seu trabalho para o engrandecimento da nação e ainda tem de se contentar com o mísero salário no fim do mês. E, mesmo cansado, com dores no corpo, muitas vezes com a saúde debilitada, não pode se aposentar tão cedo, afinal não sobra nada no fim do mês para depositar no banco.

Fenômeno é quem leu o texto até aqui, mesmo discordando do autor, e não pulou diretamente para algum site esportes.

É...

O Brasil lamenta que Ronaldo pare de jogar por estar gordo, mas não lamenta que professores sejam impedidos de trabalharem em SP pelo mesmo motivo.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Javier Cercas

"Exigirle a un novelista que no mienta viene a ser como exigirle a un delantero centro que no meta goles."
Javier Cercas, escritor espanhol, no jornal El País de ontem

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Controle da situação

(Javier Marías em sua biblioteca)

Às vezes enche o saco querer agradar aos outros. Ou, melhor dizendo, querer ser menos desagradável. Gosto de estar com os amigos, apesar de serem, na verdade, amigos da minha esposa e da minha irmã. Acontece que não gosto de dançar, muito menos curtir essas músicas da moda. Para piorar, parei de beber. Para piorar ainda mais: a cada dia que passa cresce meu desinteresse pelo futebol. Mais ainda: deixei de gostar do carnaval. Tudo isso contribui para eu ser o “quietão” da turma, mesmo se volta e meia tento contar alguma piada, 99,999999% das vezes sem graça. Mas não vou abrir mão dessa minha forma de viver para ser o “queridinho”.

Mas aí você, leitor, deve estar pensando que sou um chato. Não, não sou. Se não bebo, não fico insistindo para os outros pararem também. Não fumo, mas nem por isso me importo com a fumaça de cigarro na minha cara – costumo dizer que sou fumante passivo assumido. Tampouco tento falar sobre coisas do meu mundo para os outros, nem fico corrigindo a fala de ninguém.

Sempre que saí foi por uma necessidade de ser social, de fazer parte de algo. Hoje não preciso mais disso. Prefiro ficar no meu pequeno mundo: o quarto na adolescência, a minha biblioteca agora. Ou o espaço virtual do blog, onde escrevo para mim mesmo e, eventualmente, para um leitor que não passe apenas os olhos nesse amontoado de letras adornado por imagens descaradamente copiadas da internet. Aqui escrevo o que quero, publico o que quero e por isso posso ler o que não quero também. Não censuro comentários.

Outro mundo que vou construindo aos pouquinhos é o meu mundo literário. Nesse mundo sou um deus. Dou vida e sou cruel com minhas criaturas. Se não andam na linha, eu as puno, muitas vezes com a morte, sem piedade nenhuma. Comigo não há essa história de os personagens tomarem a rédea e controlar seus destinos. Quem manda sou eu.

Por falar em mandar, sinto inveja do escritor espanhol Javier Marías. Em entrevista para o jornal El País de hoje, ele afirma que escreve para não ter chefe nem madrugar. Eu, como não vivo do que escrevo, tenho que acordar cedo para trabalhar e bato continência para vários chefes: diretores, vice-diretoras, supervisoras até chegar ao governador. Claro, sem falar nos pais dos alunos. E como as férias estão acabando, meu tempo para escrever e ler também está.

Fugi demais do assunto? E daí? Aqui ainda sou meu próprio chefe. Pelo menos enquanto meu cérebro não fugir do controle.

Texto de Loyola Brandão no Estadão de hoje

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Postagem "importanta"

Marta Suplicy demonstrou ser "valenta" ao corrigir o Sarney.
Ao mesmo tempo que foi "valenta", não foi "prudenta".
Marta não é "experienta" na Língua Portuguesa como o é o Sarney.
Mas ela é "genta" fina e "inteligenta".

Por que será que as "adolescentas" gostam tanto de Restart, Justin "Biba", etc?
Preciso falar com a "gerenta" da minha conta no banco.

Vou almoçar agora. A comida está "quenta".

Para quem não entendeu:
http://www1.folha.uol.com.br/poder/872638-marta-interrompe-sarney-apos-ele-usar-expressao-presidente-para-dilma.shtml

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Mais sobre leitura

Comentário que escrevi hoje para o programa Polêmica, do Lauro Quadros.

Penso que nunca se leu muito. Mas a situação começa a piorar quando criamos a ideia de que não podemos obrigar o aluno a ler. Ora, se não obrigarmos o aluno a ler, ele nunca vai ler ou vai ler apenas um número limitado de títulos. Para se ler bem, deve-se ler muito e de forma variada. É preciso um amplo conhecimento cultural para que a leitura se complete. Também se diz que o jovem lê e escreve mais hoje devido a internet. Mentira! Ele só lê e escreve em internetês e miguxês que tão somente são variantes da língua. Além disso, há escritores que deixam de escrever em blogs, para “escrever” apenas no twitter que, a meu ver, apenas serve como divulgação para o texto mais elaborado do blog.

O twitter desvaloriza o texto mais elaborado, desvaloriza a palavra!

Se deixarmos de dar importância ao livro (impresso ou digital) e ao texto melhor articulado, a leitura vai perder muito com isso.