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Ninguém percebeu nada de errado?

Em 2009, fiz duas pequenas brincadeiras aqui no blog, mas ninguém se deu conta. Só para contextualizar, na época havia no caderno Donna, da Zero Hora dominical, o AUTORRETRATO, uma série de perguntas pré-selecionadas para serem respondidas por pessoas de diferentes áreas. Da mesma forma, havia a série ANTOLOGIA PESSOAL de perguntas direcionadas a artistas, principalmente escritores, no Caderno 2 do Estadão de domingo. Algumas respostas seriam diferentes hoje, mas val como recordação.

AUTORRETRATO - Zero Hora - a ser publicado no dia 29 de fevereiro
Cassionei Niches Petry – ele é ele, segundo ele próprio, e gostaria de continuar sendo ele mesmo, se não fosse ele.

Qual é a primeira coisa que pensa ao acordar de manhã?
Ficar mais um pouco na cama.

Em que momento do dia é mais feliz?
Quando não estou triste.

O melhor e o pior de uma vida de professor.
O pior, quando estou dando uma aula e poucos alunos estão interessados. O melhor, quando um aluno diz: adorei tua aula, professor.

Por que motivo chorou a última vez?
Vendo uma filmagem onde aparecia minha falecida avó.

E por que motivo riu?
Lendo esta pergunta.

Quem você gostaria de ser se não fosse você mesmo?
Outra pessoa querendo ser eu mesmo.

E onde gostaria de viver?Mesmo sem conhecer, queria viver em Buenos Aires.

Você tem medo de quê?
De acontecer coisas ruins com as pessoas que amo.

Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Sábado à tarde, depois de uma chuvinha de verão, cheiro de terra molhada, na TV, o Chacrinha, e a mãe fazendo pão.

Qual a sua ideia de um domingo perfeito?
Churrasco na casa do vô.

Que música não sai da sua cabeça?
Ultimamente a música “Deixa eu dizer”, de Ivan Lins, que ganhou uma versão chamada “Desabafo” do Marcelo D2, mas gosto da versão do compositor.

Qual peça de roupa não entra no seu guarda-roupa?
Por enquanto, terno e gravata.

Um gosto inusitado.
Farinha de mandioca com açúcar.

Um hábito do qual você não abre mão.
Quase um vício na verdade, que é o cafezinho (no meu caso um cafezão).

Um hábito de que você quer se livrar.
Achar que tenho que dar resposta a tudo que me contraria.

Um elogio inesquecível.
O senhor é o melhor pai do mundo.

Um livro insubstituível.
O processo, do Kafka.

Um filme que sempre quer rever.
Sociedade dos poetas mortos.

Que pecado comete com mais frequência?
Preguiça.

Em que situação vale a pena mentir?
Se a mentira é para o bem.

Em que situação você perde a elegância?
Com as injustiças.

Que defeito é mais fácil perdoar?
A mentira.

O que você faria se não fosse proibido?
Pisaria na grama.

Uma frase.
O inferno são os outros, do Sartre.

***

ANTOLOGIA PESSOAL – a ser publicada no dia 29 de fevereiro no Caderno 2, Cultura, do jornal Estado de São Paulo.

Cassionei Niches Petry – editor do desimportante blog “Porém, ah, porém”, escreve livros mais desimportantes ainda, os quais só não vieram a público porque teve o bom senso (ou por preguiça?) de não mandar para as editoras. Quando jovem, tinha o sonho de ser um cronista diário, como Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo. Como não o realizou, escreve, de vez em quando, algumas crônicas para o jornal de sua cidade. Gostaria de ser um grande escritor da literatura brasileira. Como se considera um fracassado, está se acostumando com ideia de ser o maior escritor da sua rua.

Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?
Relatos, de Julio Cortázar. Como ele dizia, na nossa realidade há sempre um mistério a ser descoberto. Nos seus contos, a cada releitura descubro novos mistérios.

Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.
Camilo Mortágua, de Josué Guimarães.

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.
Confissões de Narciso, de Autran Dourado. Em uma época que estava mergulhado na obra do escritor mineiro.

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.
Os que bebem como os cães, de Assis Brasil.

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.
As crinças brincando na casa onde há um tigre, no conto Bestiário de Julio Cortázar. Josef K. no sótão onde vive o pintor, em O processo, de Franz Kafka. A cena final do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.

Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?
Dom Quixote, Josef K., Rosalina (do romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado), Brás Cubas, Capitão Rodrigo, Raskólnikov, Philip Carey, Harry Haller...

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

E que livro mais o fez pensar?
Sobre heroes y tumbas, de Ernesto Sábato.

De qual autor você leu tudo, ou quase tudo?
Franz Kafka

Existe algum autor como o qual você jamais perderia seu tempo?
São vários. Para citar um: Sidney Sheldon

Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.
Continuo achando bom todos os livros que foram importantes na minha formação.

Você considera a literatura policial um gênero menor?
Não há gênero menor, o que existe são obras menores.

Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica?
São ruins. Dispenso livros que me deem respostas prontas.

Um livro meio chato, mas bom.
Nenhum livro meio chato é bom.

Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.
Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferndinand Céline.

Um livro difícil, mas indispensável.
Ulisses, de James Joyce.

Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.
Não me lembro de nenhum agora.

Um livro que começa mal e se encontra.
Todo livro que começa mal eu acabo deixando de lado.

Um livro ruim, por ser pretensioso.
O segredo, se é que se pode chamá-lo de livro.

Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?
O sertões, de Euclides da Cunha.

De que livro você mudaria o final?
Da Bíblia.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.
Kafka tem dois ótimos tradutores hoje: Modesto Carone e Marcelo Backes. Quanto as traduções ruins, elas o valor de divulgar o artista.

A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?
A obra de Luiz Ruffato.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando à leitura?
Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?
Os livros da Literatura Informativa, como a Carta de Caminha. Mereceria estar no cânone a obra de Murilo Rubião.

Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?
Luiz Ruffato, Roberto Bolaño, Bioy Casares.

Cite um vício literário que você considera abominável.
Excesso de descrições.

Que virtude mais preza na boa literatura?
Revelar quem somos, mas sem julgamento.

Comentários

Djalmir disse…
Você tem muito bom gosto, lê é ótimo. Estou lendo a hitória da filosofia de Will Durant.

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