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Controle da situação

(Javier Marías em sua biblioteca)

Às vezes enche o saco querer agradar aos outros. Ou, melhor dizendo, querer ser menos desagradável. Gosto de estar com os amigos, apesar de serem, na verdade, amigos da minha esposa e da minha irmã. Acontece que não gosto de dançar, muito menos curtir essas músicas da moda. Para piorar, parei de beber. Para piorar ainda mais: a cada dia que passa cresce meu desinteresse pelo futebol. Mais ainda: deixei de gostar do carnaval. Tudo isso contribui para eu ser o “quietão” da turma, mesmo se volta e meia tento contar alguma piada, 99,999999% das vezes sem graça. Mas não vou abrir mão dessa minha forma de viver para ser o “queridinho”.

Mas aí você, leitor, deve estar pensando que sou um chato. Não, não sou. Se não bebo, não fico insistindo para os outros pararem também. Não fumo, mas nem por isso me importo com a fumaça de cigarro na minha cara – costumo dizer que sou fumante passivo assumido. Tampouco tento falar sobre coisas do meu mundo para os outros, nem fico corrigindo a fala de ninguém.

Sempre que saí foi por uma necessidade de ser social, de fazer parte de algo. Hoje não preciso mais disso. Prefiro ficar no meu pequeno mundo: o quarto na adolescência, a minha biblioteca agora. Ou o espaço virtual do blog, onde escrevo para mim mesmo e, eventualmente, para um leitor que não passe apenas os olhos nesse amontoado de letras adornado por imagens descaradamente copiadas da internet. Aqui escrevo o que quero, publico o que quero e por isso posso ler o que não quero também. Não censuro comentários.

Outro mundo que vou construindo aos pouquinhos é o meu mundo literário. Nesse mundo sou um deus. Dou vida e sou cruel com minhas criaturas. Se não andam na linha, eu as puno, muitas vezes com a morte, sem piedade nenhuma. Comigo não há essa história de os personagens tomarem a rédea e controlar seus destinos. Quem manda sou eu.

Por falar em mandar, sinto inveja do escritor espanhol Javier Marías. Em entrevista para o jornal El País de hoje, ele afirma que escreve para não ter chefe nem madrugar. Eu, como não vivo do que escrevo, tenho que acordar cedo para trabalhar e bato continência para vários chefes: diretores, vice-diretoras, supervisoras até chegar ao governador. Claro, sem falar nos pais dos alunos. E como as férias estão acabando, meu tempo para escrever e ler também está.

Fugi demais do assunto? E daí? Aqui ainda sou meu próprio chefe. Pelo menos enquanto meu cérebro não fugir do controle.

Comentários

Sybylla disse…
Apoiado. Já tentei ser a queridinha e só me frustrei, hoje agrado apenas a mim mesma com meus livros, minhas músicas, meu blog e quem não gostar, que se afaste. Assim como não tento convencer ninguém que meu estilo de vida é bom, porque só é bom para mim, não quero ninguém tentando me convencer do contrário. Não tem coisa pior do que aqueles conversores, com seus discursinhos prontos. Eu só não tenho que prestar continência como vc ultimamente, pois estou afastada por problemas de saúde. Mas entendo como se sente muito bem. Ótimo texto...
Mirella disse…
Sempre estive na mesma, apesar de um tanto mais jovem. No entanto, reclamo de fumaça na cara e tenho asco por quem bebe achando que é legal ficar bêbado e muito "doidão". Pff...
É isso aí, psor, muito bom.
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelos comentários.
charlles campos disse…
Só para perguntar se é uma coincidência que nos últimos dias que visito seu blog tenho-me deparado com textos que acertam na veia como esse, ou essa é uma realidade recorrente aqui.

Há muito admiro e leio tudo que me cai em mãos do Javier Marías. Coração Tão Branco é o mais próximo de um romance perfeito que já li. Seus Olhos Amanhã, que ainda estou no primeiro volume, ainda que não seja tão assimilável quanto esse outro, afirma o que disse nesse post: o leitor se sente um intruso. Javiér basta a si mesmo, e escreve o que quer.
Cassionei Petry disse…
Tento fazer com que seja uma realidade recorrente, mas acho que não acerto, porque meus textos não repercutem como eu gostaria.

Sobre Javier Marías dá para se dizer: é um escritor para poucos, apesar de ter um bom número de vendas. Mas como eu acho que vendas não significa leitura...
charlles campos disse…
Calma, cara. Não se lamente muito. Pelo que entendi, tu tens apenas 26 anos. A grande maioria dos escritores não é verdadeiramente interessante antes dos 30, e pouquíssimos são ótimos antes dos 40. Não acredito em precocidade. Paciência e treino.

E, se a profissão de educador lhe enfada, asseguro que teu nível de cultura e conhecimento te coloca em larga vantagem em outros concursos públicos. Vai que a vida seja só uma mesmo, e vai que o velho alemão esteja certo sobre a eterna repetição da mesma coisa, gastá-la num cotidiano incruento não seria boa coisa.

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