quinta-feira, julho 25, 2013

: (dois pontos)





Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
 e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:


Os versos de Ana Cristina César param no vazio. O convite, mudo, foi atendido em parte. Enquanto viveu, escreveu. Viu, porém, uma nuvem branca e limpa à sua espera e aceitou outro convite. Desceu do salto. O salto para o vazio. Outro poema seu diz:

a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto

O verso ou a vida? A palavra ou o silêncio? A poesia ou o suicídio?

Escrever é dar o salto sem saber onde se vai cair. Escrever é uma tentativa de suicídio. Ana C. preferiu o suicídio não metafórico, assim como outras escritoras. Virgínia Woolf viu o mar imenso à sua espera, preencheu o vazio dos bolsos do seu casaco com pedras e aceitou o convite. Alejandra Pizarnik deixou vazio um vidro de barbitúricos. Sylvia Plath abriu o forno vazio e o preencheu com gás. Elas nos deixaram vazios. Elas nos completaram com suas obras. E ficaram vazias.

Tenho uma tela branca e limpa à minha espera. O cursor faz um mudo convite. Devo preencher não somente o vazio da tela, mas também outro vazio:  

2 comentários:

charlles campos disse...

Pô, cara, não vai se matar não.

Cassionei Petry disse...

Já estou quase saindo dos 33 anos, a idade do suicídio, de acordo com Di Benedetto.