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No final do telejornal tinha um poeta...


No Traçando Livros de hoje, minha coluna no jornal Gazeta do Sul, o relançamento da obra de Drummond pela Companhia das Letras.
 http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/334615-no_final_do_telejornal_tinha_um_poeta/edicao:2012-02-29.html
 
Sempre inicio minhas aulas de literatura, e às vezes as de língua portuguesa, com uma leitura e interpretação de um poema de Carlos Drummond de Andrade, mais precisamente com “Cota Zero”, publicado no seu primeiro livro. Lembro aos meus alunos da importância desse poeta, o maior da nossa literatura, o que é comprovada pelo espaço que foi dado a ele no Jornal Nacional quando do seu falecimento em 1987. O burocrático programa, bem diferente do que é hoje, não foi encerrado com o famoso “boa noite” de Cid Moreira, mas com uma declamação do poema “José”, na voz peculiar do então âncora do telejornal.

A obra do autor dos versos “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho” está sendo reeditada pela Companhia das Letras. Na primeira leva, dois livros de poesia, um de crônicas e outro de contos. Como o Traçando Livros já dá muito espaço para a prosa, vamos no deter na lírica drummondiana.

A rosa do povo, de 1945, é um livro de temática social bastante acentuada, sem ser, no entanto, panfletário. Escrito durante a Segunda Grande Guerra, expressa as angústias do homem e a posição do poeta frente aos problemas do mundo: “O mundo não acabou, pois que entre as ruínas/outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora”. Em “Consideração do poema”, que abre o livro, o eu-lírico (a voz do texto poético, o equivalente ao narrador na prosa) diz que seu canto quer atingir as pessoas comuns (“Tal uma lâmina,/o povo, meu poema te atravessa”), não os eruditos, como expressado em “Carta a Stalingrado (“A poesia fugiu dos livros e está agora nos jornais”). O livro aborda um tempo em que os homens se dividem em ideologias (“Este é tempo de partido/tempo de homens partidos”), numa possível crítica à ditadura de Vargas e ao nazi-fascismo da época. No entanto, não são apenas as inquietações sociais que são abordadas, mas também, como lembra Francisco Ashcar, há outros temas presentes no livro, assim como em toda a obra de Drummond: a existência e a própria poesia.

Claro enigma, de 1951, deixa de lado as preocupações com a atualidade vistas em A rosa do povo. “O poeta cruza os braços”, escreveu Salviano Santiago. Aqui, são as questões existenciais que prevalecem, principalmente as contradições inerentes ao humano, como bem denota o título. Seriam os enigmas da vida tão claros, mas não os percebemos, ou seriam as coisas simples da vida tão claras que se tornam enigmáticas. Aqui, o eu-lírico reflete sobre o amor (“Que pode uma criatura senão/entre criaturas, amar?), sobre a culpa (“Não amei bastante o meu semelhante/não catei o verme nem curei a sarna”), sobre a morte (“As paredes/que viram morrer os homens,/.../que viram, reviram, viram/já não veem. Também morrem”) e sobre o ser e o tempo (“enquanto o tempo, em suas formas breves/ou longas que sutil interpretavas/se evapora no fundo de teu ser?”). O que parece tão simples na nossa vida são mistérios que o poeta quer desvendar. A poesia,  porém, mais pergunta do que responde. O eu-lírico só questiona. Cabe ao leitor a resposta, se a tiver.

Duas coletâneas aparentemente tão contraditórias mostram um poeta insatisfeito, inquieto – não por acaso um ensaio do grande crítico Antonio Candido sobre o poeta de Itabira chama-se “As inquietudes da poesia de Drummond”. São, por isso mesmo, um convite para conhecer a obra poética do autor, convite impresso numa das estrofes de “Procura da poesia”, com um alerta, no entanto, de que a chave para a interpretação está com quem lê: “Chega mais perto e contempla as palavras./Cada uma/tem mil faces secretas sob a face neutra/e te pergunta, sem interesse pela resposta,/pobre ou terrível, que lhe deres:/Trouxeste a chave?”

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras e bolsista do CNPq. Considera-se um gauche, como Drummond, mas nenhum anjo o aconselhou a sê-lo. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

Comentários

Não conheço o "Claro Enigma". "A rosa do povo" é um livro denso, complexo, realista ao extremo... é um existencialismo mais visceral, próximo a Sartre e Camus... não é fácil digerir. E isso é importante. Drummond é formidável. Abs. parabéns pelo artigo na coluna!

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