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Domingo de praia

Jacek Yerka, Ultima Thule

por Cassionei Niches Petry

Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Milton Nascimento / Fernando Brant


A viagem começa em uma cidade do centro do estado em plena madrugada. Para se chegar ao litoral são mais de 4 horas no microônibus. Durante o trajeto, o rádio toca os sucessos do momento: bailão, sertanejo e pagode, acrescentados do adjetivo universitário (seja lá o que isso significa). Não consigo dormir e nem mesmo com meu “iPobre” no último volume, com as músicas de que gosto, consigo evitar esse lixo cultural nos meus ouvidos.

Depois dessa viagem cansativa, chegamos finalmente à praia pela manhã. A visão do mar e do nascer do sol me proporciona um instante de prazer, logo desfeito pela visão de uma enorme quantidade de lixo do dia anterior na areia. Escolhemos um lugar para ficarmos e, quando vou fixar o guarda-sol no chão, percebo que esquecemos a pecinha que liga o cano que se enfia na areia com o cano onde fica o guarda-sol. Como todo o pobre acostumado com improvisações, pego um pedaço de papel e, enfiando-o entre as duas peças, consigo firmá-las.

Tudo resolvido e vamos nos divertir? Que nada. Há ainda os “donos da areia”, o pessoal dos quiosques que espalha as mesas com guarda-sóis pela praia. Com “a maior educação do mundo”, um funcionário coloca uma mesa bem no lugar onde estávamos, quase nos nossos pés, e diz que ou pagamos ou temos que sair dali. Sorte que tenho ao meu lado uma esposa que não é de levar desaforo pra casa, ao contrário de mim, mais quietão. Ela dá uma bronca no jovem e pergunta se eles tinham comprado aquele espaço. Caso contrário, não sairíamos, pois a praia é um local público. Bem sem jeito, o rapaz tirou a mesa dali.

Além de todos esses inconvenientes, podemos acrescentar: a água suja do litoral gaúcho, poucos chuveiros para tirar a areia dos pés, quiosques e lancherias caríssimos (quem paga 13 reais por um xis carne?). Na volta para casa, pele queimada, trânsito lento e muito cansaço. Para piorar, somos parados pela polícia rodoviária e o motorista acaba sendo multado porque os passageiros não usavam cinto de segurança.

Eu não queria só escrever sobre o que é ruim de uma ida à praia. O problema é que esse meu lado racional acaba vendo só a lógica, pois, pesando os prós e contras, é mais frequente nessa atividade de lazer o lado negativo. Mas justamente passamos por qualquer coisa para encontrarmos momentos de felicidade. Como na música cantada pelo 14 Bis, o menino que mora no meu coração me dá a mão às vezes. Pois eu parecia uma criança pulando na água, tentando realizar “jacaré” nas ondas, juntando conchinhas na areia e até joguei bola com um menino que eu nunca tinha visto antes (talvez ele fosse até uma projeção daquilo que está escondido dentro de mim). Acima de tudo, posso passar por qualquer coisa irritante, aguento tudo de que não gosto, desde que eu possa ver a alegria estampada no rosto da minha filha.

***

Escrevi a crônica ouvindo o segundo disco da banda 14 Bis, que contém a música "Bola de meia, bola de gude", citada no texto.

Comentários

Leandro Haupt disse…
Quando fui com a 303 pra praia (nunca tinha ido à praia ;O) foi a mesma coisa :P, o sacrificio pra achar um lugarzinho na areia, para quase 24 pessoas, o absurdo dos preços dos lanches e das bebidas, a água marrom º-º, pra durmi la então... era ronco pra todo o lado. Mas mesmo assim deu pra todo mundo se conhecer um pouco melhor, se divertir, enfim, valeu a pena. ^-^

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