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Meu texto na Gazeta do Sul de hoje


De pedra a vidraça: contos de um crítico literário


por Cassionei Niches Petry
Toda releitura de um texto literário proporciona uma nova forma de entendê-lo. Quando se pensa em contos, a nova disposição deles em livro diferente pode dar-lhes novos sentidos. É o que se pode dizer de Escuro, claro: contos reunidos (L&PM editores, 208 p.) de Luís Augusto Fischer. Uma parte dos textos já havia sido publicada em dois volumes anteriores (O edifício do lado da sombra e Rua desconhecida). O autor optou agora por publicá-los, acrescidos por outros inéditos, não em ordem cronológica, mas por temas, como fizeram, por exemplo, dois gênios do conto: Julio Cortázar em seu Relatos e Sérgio Faraco em seus Contos completos.

Na primeira parte, cujo nome é “O império de Eros”, temos os contos que retratam, como o mito indica, as relações amorosas. Nessas histórias, no entanto, há um Eros fracassado, que até consegue despertar os desejos eróticos, mas os personagens se dão mal nas suas conquistas. Narrados quase sempre na primeira pessoa, a reunião desses contos trouxe prejuízo a eles, pois me causaram melhor impressão nas publicações anteriores. Juntos e abrindo a coletânea podem causar uma impressão errada ao leitor que não conhece a obra de Fischer, devido ao tom de conversa que caracteriza a maioria deles e também pela banalização do tema. 

Os melhores contos estão na segunda seção, “A força de Tânatos”. Eram os textos que deveriam abrir o livro. “Exposição”, por exemplo, consegue, em uma página e meia, ao relatar um drama familiar, causar uma sensação tão forte no leitor que é preciso se recuperar para continuar adiante. Esse tipo de conto curto é daqueles que nos fazem levantar os olhos da página e ficam ressoando na nossa mente. A morte (Tânatos é a personificação da indesejada das gentes na mitologia grega), a violência das grandes cidades e os conflitos psicológicos são alguns dos temas. 

Em “A estratégia de Clio”, percebemos a mão do teórico de literatura, lembrando que Luís Augusto Fischer é mais conhecido como professor do Instituto de Letras da Ufrgs e como crítico (ou seja, vez ou outra ele deixa de ser a pedra para virar vidraça). São contos que discutem “Acerca do método de narrar”, como bem indica o conto que abre a seção. No entanto, não são daqueles textos metaliterários em que valem mais o fazer literário em detrimento da ficção. Clio, a musa da criatividade, inspira Fischer em boas e comoventes histórias, como “D. Emiliana”, um conto sutil sobre o lesbianismo em pleno pampa gaúcho.

O livro encerra com os contos em que o leitor Fischer pede a bênção não mais a um ser da mitologia, mas a Machado de Assis. São releituras de textos machadianos, com destaque para “O economista” que, a partir de “O alienista”, critica a obsessão dos profissionais da área econômica.

Fica “claro” nos contos de Luís Augusto Fischer que suas melhores histórias acontecem quando aborda o lado “escuro” do ser humano, suas angústias, seus medos, seus instintos, suas obsessões ou ainda quando se utiliza de todo o seu conhecimento teórico. Nos contos mais coloquiais, ele perde um pouco a mão e a narrativa se torna muito artificial, com o agravante de que essas histórias abrem o livro uma do lado da outra. De qualquer forma, as partes seguintes são a garantia de uma literatura inquietante, que ganharam mais relevância ainda com os mitos a que foram relacionados.

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