Traçando Livros de hoje é sobre Richard Dawkins

Minha coluna Traçando Livros no jornal Gazeta do Sul de hoje: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/355352-a_magia_esta_ao_nosso_redor/edicao:2012-07-04.html


A magia está ao nosso redor


Richard Dawkins é um dos intelectuais mais odiados do mundo. Não, ele não é uma pessoa má. Não matou ninguém e nunca foi violento. Bem pelo contrário. Suas palavras causam desprezo porque são direcionadas de forma contrária às religiões, que têm em boa parte dos seus livros sagrados justamente a apologia à morte e à violência. Cristianismo, islamismo e judaísmo, para ficar nas três principais crenças monoteístas, possuem bases antiéticas que são duramente questionadas nas obras do biólogo britânico, principalmente no seu livro mais conhecido, Deus, um delírio. Como a maioria da população é religiosa e não deseja ver seus dogmas contestados, Dawkins coleciona desafetos no mundo todo, fato que só comprova seu argumento de que a religião traz mais aspectos negativos do que positivos. 

O lançamento mais recente do autor no Brasil, direcionado a crianças e jovens, pega mais leve, mas não deixa de abordar criticamente a visão religiosa e provoca os leitores a pensarem por si próprios. A magia da realidade (Cia. das Letras, tradução de Laura Teixeira Motta) tem como subtítulo “como sabemos o que é verdade”. É uma edição primorosa, com capa dura e ilustrações que ficaram a cargo de Dave McKean, desenhista da série de HQ Sandman, de Neil Gaiman, o que atrai a garotada (e os adultos também, claro). Dawkins tenta responder, numa linguagem acessível, porém fundamentada na racionalidade científica, várias dúvidas que nos cercam desde que nascemos e que são respondidas, muitas vezes, com histórias fantasiosas: “quem foi a primeira pessoa?”, “de que são feitas as coisas?”, “o que é um terremoto?”, “o que é um milagre?”.

As primeiras respostas para tudo que nos cerca são dadas pelos mitos ou outras explicações que envolvem o sobrenatural, como a de que o mundo foi criado em seis dias por um ser superior, que quando morremos vamos para o reino de Hades ou ainda a de que o terremoto é um castigo dos céus.  Essas explicações são aceitas como crenças e, como tal, não são questionadas por quem as segue.

Dawkins mostra que as explicações científicas são mais fascinantes do que as míticas e as sobrenaturais. Para o evolucionista, “o mundo real, como é entendido cientificamente, tem sua própria magia. Eu a chamo de magia poética, uma beleza inspiradora que é ainda mais mágica porque é real e podemos compreender como funciona”. É mágico ver um pôr do sol, causa-nos uma emoção muito grande, um sentimento difícil de explicar. É poético saber que estamos vivos e, o mais impressionante, a evolução do nosso cérebro é capaz de entender todo o mecanismo da natureza, sem precisar de uma reposta perpetuada por uma tradição.       

A magia da realidade é um livro de divulgação científica e não um panfleto contra as ideias religiosas como querem os detratores de Dawkins. Serve para os pais lerem com os seus filhos, desenvolvendo neles o senso crítico, sem que se imponha uma verdade absoluta para eles.  “Devemos ter sempre a mente aberta, mas a única razão para acreditar que algo existe é ter evidências reais dessa existência.”

Cassionei Niches Petry é professor e mestrando em Letras. Como só acredita a partir de evidências, espera a publicação do seu primeiro livro para ter certeza de que é também escritor. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

Comentários

Carlinus disse…
Muito bom, mestre Cassionei! Richard Dawkins conseguiu fama invulgar como polemista. Hoje, Dawkins faz uma trabalho de divulgação científica semelhante ao que no passado teve como personalidade proeminente o americano Carl Sagan.

Penso que a diferença entre Dawkins e Sagan é que o inglês como biólogo é mais lógico e menos poético - embora não deixe de enfatizar esses aspectos nos seus textos. Carl Sagan por ser astrônomo possuía um forte veio especulativo e um profundo senso analítico-poético.

Os jovens de hoje deveriam mergulhar na literatura desses monstros "sagrados". Sujeitos como Richard Dawkins, Carl Sagan ou o brasileiro Marcelo Gleiser ajudam a "desassombrar o mundo" e nos impressionar com "a magia da realidade".
Goulart disse…
Baita texto, psor! Gostei.

Aliás, faz um tempinho que não comento, mas continuo acompanhando o blog.

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