Avançar para o conteúdo principal

Tudo gravado nas minhas fitas K7


 A leitura da crônica “O homem de mudança”, do livro A última madrugada, de J. P. Cuenca, me fez lembrar que ainda tenho uma séria decisão a tomar: jogo ou não jogo fora minhas caixas repletas de fitas cassetes? Já descartei uma porção de papelada quando consegui trazer minha biblioteca para a nova casa há poucos meses, mas as minhas fitas, mesmo quase não as ouvindo mais – pois hoje tenho tudo em formato MP3 –, não sei ainda se vão para o lixo.


Cuenca se viu em situação parecida quando teve que se mudar. Aliás, todos que vivem esse ritual ou fazem reforma em algum ambiente da residência se veem retratados no texto. O cronista pergunta: “Se jogar suas lembranças fora, o que sobrará? O que somos além desse acúmulo de passado e esquecimento?” 

Pergunto isso a mim mesmo, porém, apenas quando a esposa pede para eu jogar minhas fitas fora. Na verdade, não quero me desfazer delas. Nas minhas fitas está gravado o que eu fui nos anos 90. Há de tudo ali: house, pop, rap, samba, MPB, rock progressivo, erudito. Ouvia rádio da moda, dancei passinho marcado nas boates, arrisquei ser MC e dançava break, virei ritmista no carnaval e dirigente de escola de samba, fui arrebatado pela poesia da nossa canção, me encantei com as narrativas musicais repletas de referências filosóficas e literárias do Rush e do Pink Floyd até refinar mais um pouco o gosto e me dedicar aos clássicos. Gravava músicas do rádio, copiava de LPs e duplicava fitas. Meu sonho era ter um 3 em 1 com dois decks da Gradiente ou da Aiwa, para fazer cópias com mais qualidade. Meu microsystem do Paraguai deixava o som muito abafado e com ruídos. 

Não guardo as fitas – devidamente rebobinadas e conservadas em caixas de sapato –, só para acumular coisas. Elas representam uma época da minha vida que passou, da qual tenho saudades, mas que, sinceramente, não gostaria de reviver. Sou outro. O que sou, no entanto, devo a esse período também. Quando olho para as caixas, pego uma das minhas primeiras fitas e a ponho para tocar, faço uma viagem ao passado, para depois voltar ao presente e chegar à conclusão: como eu era ridículo e tinha péssimo gosto.

Mudamos de casa, mudamos nossa própria casa, mudamos os gostos, mudamos quem somos. Nossas lembranças, no entanto, não mudam. Elas ficam. Assim como fica a sensação de que sou mais feliz sem precisar colar fitas cassetes com fitas durex.                                                                                 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …