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Velhas roupas sob medida


“O passado é uma roupa que não nos serve mais”, canta o poeta Belchior em uma de suas músicas mais conhecidas, interpretada, inclusive, pelo mito Elis Regina. O compositor, hoje distante dos holofotes depois de sumir fugindo de dívidas, é um exemplo que contradiz sua própria criação. Suas obras, compostas nos distantes anos 70 e 80, também nos dizem muito sobre o presente. 

“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. A rebeldia da época da juventude não continua na vida adulta. A vontade de mudar o mundo fica no meio do caminho, a partir do momento em que as dificuldades começam a aparecer, principalmente quando se alcança a independência financeira. O jovem inconformado se torna um adulto que anda na linha. Antes era “nunca fazer nada que o mestre mandar./Sempre desobedecer./Nunca reverenciar”, ou “Amar e mudar as coisas”. Hoje deve se seguir as regras do mercado, obedecer e deixar as coisas como estão, afinal, há uma estabilidade econômica. “No escritório em que eu trabalho e fico rico, /quanto mais eu multiplico /diminui o meu amor.”

Vivemos nessa dantesca “comédia humana” em que “nada é eterno”. A “máquina/máquina/máquina” continua andando sem parar, continua ditando o ritmo, sempre para frente, porém, perpetuamente repetitiva. Nada muda. Novas modas surgem, no entanto elas não rompem com o passado. “Precisamos todos rejuvenescer”. Belchior quis rejuvenescer pondo novas “roupas coloridas” nas suas letras quando lançou Auto-retrato, no final dos anos 90. CD duplo, encarte com fotos e pinturas do artista. Além de músico e poeta, também pintor. Velhas letras, novos ritmos, mais modernos, mais jovens. Foi com esse trabalho “que eu segurei pela primeira vez na tua mão”, mestre Belchior. Procurei as músicas nas roupas velhas e percebi que suas velhas letras continuavam novas.

Ao sumir/fugir/exilar-se no Uruguai e ficar incomodado com a exploração do caso pela imprensa, o poeta foi coerente com o que escreveu/cantou: “Saia do meu caminho/eu prefiro andar sozinho/deixem que eu decida a minha vida.” O “eu” sempre esteve presente na poética de Belchior, o que talvez possa ser mal visto pelo pensamento politicamente correto que nos comanda, em que não se deve pensar no individual, pois quem o faz é egoísta. Deve-se, sim, pensar na coletividade, dizem a patrulha. “É Freud, rapaziada”, diria Belchior. 

Os versos do poeta cearense – gravados ou regravados, na voz do próprio ou de outros intérpretes –, é a “fotografia 3X4” de um Brasil do passado e do presente sob o olhar peculiar do artista. É um “vício elegante” ouvi-lo e refletir sobre sua poesia. “Sons, palavras, são navalhas/e eu não posso cantar como convém/sem querer ferir ninguém...”       

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